A Quebra de Xangô 1912: O progrom alagoano contra o Candomblé.


por Marcos Romão,

quebra de xangôConheci em Hamburgo onde eu morava com minha esposa Ortrun Gutke, o professor, pesquisador-antropólogo e apaixonado pelas culturas populares Siloé Amorim. Ele nos visitou no Centro Cultural Quilombo Brasil, no centro da cidade, onde tínhamos a sede da Radio Mamaterra,  para projeção de seu filme, “1912 A Quebra de Xangô.

Na oportunidade tomei pela primeira vez conhecimento, da hecatombe que se abateu sobre os terreiros de Candomblé de Alagoas em 1912, lá os terreiros de candomblé eram conhecidas como “Terreiros de Xangô” ou simplesmente Xangôs.

A partir de 2 de fevereiro de 1912,  a milícia armada denominada Liga dos Republicanos Combatentes, comandada por um sargento que atuara em Canudos, seguida por uma multidão enfurecida atacou os terreiros de Candomblé em Maceió.

Os Babalaorișas e as Yalorișás foram retiradas à força dos de seus templos e agredidas fisicamente. Tiveram seus paramentos e objetos de culto sagrados saqueados, expostos durante procissões, que percorriam a cidade com os “troféus” roubados, para ao final da procissão católica, queimar os objetos de culto do Candomblé em praça pública, numa demonstração de fervor religioso fundamentalista, racismo, preconceito e ódio a tudo que transparecesse como manifestação religiosa  de matriz africana.

As perseguições e destruições iniciadas na capital de Alagoas, prosseguiram de forma sistemática em todo o interior o estado, primeiro através da Liga de milicianos,  depois pela polícia, que nunca registrou nenhum destes ataques, saques e violências contra os “Xangôs” de Alagoas.

A maioria dos seguidores dos Orișas fugiu para outros estados para não morrer nas mãos das turbas de racistas e fundamentalistas religiosos.

Este filme é o início do resgate da relação durante a república que o estado de Alagoa teve e tem com os negros e com os seguidores das religiões de matriz africana durante todo o período republicano.

Estudar história da “Quebra de Xangô”, pode ser um caminho para a compreensão do que aconteceu nos outros estados do Brasil, em que a perseguição religiosa aos cultos de origem africana, foram também cruéis e sistemáticas.

Conta a tradição oral que a Yalorișa Marcelina, depois de ter seus braços e pernas quebrados pelos linchadores enfurecidos dizia em voz alta:

” Bate moleque, lasque  a cabeça, quebre braço, quebre perna, tira sangue mas não me tira a cabeça!”.

 

 

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