Ministério Público envia alerta para autoridades sobre evento fascista em Curitiba


Representantes de pelo menos 40 entidades manifestaram preocupação nesta quinta-feira (10) com a realização de um evento no próximo sábado (12), em Curitiba, organizado pela Frente Nacionalista. Uma reunião com o secretário de Segurança Pública do Paraná, Wagner Mesquita, foi realizada nessa quinta de manhã para pedir atenção do Estado em relação às recentes manifestações do grupo que tem características nazifascistas.

A intolerância do grupo preocupa entidades de defesa dos direitos humanos que temem a expansão de comportamentos violentos contra segmentos vulneráveis da sociedade. A Frente Nacionalista é contrária à presença de estrangeiros no Brasil e se manifesta com agressividade nas publicações críticas a “comunistas, homossexuais e ao Estado de Israel”.

O Ministério Público do Paraná (MP-PR) encaminhou ofício ao secretário Wagner Mesquita; à Promotoria de Colombo, na Região Metropolitana, onde haverá o encontro; e à Guarda Municipal de Curitiba dando prazo de cinco dias para que as autoridades tomem providências preventivas relacionadas ao evento.

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A promotora de Justiça Mariana Bazzo, coordenadora do Núcleo de Promoção da Igualdade de Gênero (Nupige), unidade do Centro de Apoio Operacional às Promotorias de Justiça de Proteção aos Direitos Humanos, também demonstrou preocupação com a realização do evento e denúncias de crimes de intolerância. “As pessoas têm liberdade de manifestação e reunião, mas não se pode utilizar esse espaço para cometer crimes, como incitação ao crime, cultuar o crime, apologia e eventuais casos de violência”, ressalta.

Um dos crimes citados pela promotora é o culto e exposição da suástica – símbolo nazista proibido no Brasil. Ela cita o art. 20 da Lei Federal número 7716/89, que proíbe “fabricar, comercializar, distribuir ou veicular símbolos, emblemas, ornamentos, distintivos ou propaganda que utilizem a cruz suástica ou gamada, para fins de divulgação do nazismo”.

“A mera utilização disso é um crime com pena prevista de dois a cinco anos. Nós recebemos representação formalizada da Unegro e do Grupo Dignidade. Como integrantes de algumas dessas entidades (nacionalistas) disseminam ódio contra grupo vulneráveis nós encaminhamos aos órgãos o ofício como medida emergencial, tendo em vista que o evento já é neste sábado”, explica.

Denúncias

O aumento de neonazistas nas ruas de Curitiba é o que mais preocupa. O líder do Grupo Dignidade Toni Reis cobra atenção das autoridades para evitar manifestações violentas. “Com esse evento no fim de semana percebemos que aumentou o número de skinheads nas ruas de Curitiba. Ontem à noite, uma pessoa foi espancada na frente da Reitoria por três skinheads por ser homossexual. A placa do carro foi anotada e vamos encaminhar para a polícia”, denuncia.

Em uma reunião anterior ao encontro com o secretário de Segurança, na noite dessa quarta-feira (9), as entidades procuraram a Assessoria de Direitos Humanos de Curitiba para apresentar denúncias.  O coordenador do departamento, Igo Martini afirma que o papel assumido pela Prefeitura é de reunir essas informações e encaminhar aos órgãos competentes.

ha“Desde domingo comecei a receber as demandas, muitas. Ainda não temos confirmação de nenhum ato violento ligado ao evento de sábado. Mas é histórica a atuação de grupos neonazistas em Curitiba. Alguns grupos planejam fazer um movimento contrário para tentar impedir o evento e estamos orientando que não façam isso, não confrontem diretamente”, orienta.

O setor de Direitos Humanos municipal se reuniu com as entidades da sociedade civil para pensar estratégias de proteção. “Cuidar do amigo que sai bêbado da boate, não deixar ninguém sozinho, denunciar qualquer indício de incitação ao ódio. Algumas demandas podem fazer parte desse clima de mobilização e pânico. Isso acontece porque temos locais conhecidos de frequentes ataques”, explica.

Em nota, a Secretaria de Segurança afirma que vai acompanhar o evento. “Policiais civis e militares, assim como da inteligência das duas polícias, vão acompanhar a referida manifestação com o objetivo de coibir toda e qualquer ação violenta”, diz a nota.

“Fascistas”

A Frente Nacionalista (FN) é inspirada nos ideais integralistas de Plínio Salgado e nas políticas de Benito Mussolini, com base na Carta de Lavoro, do Partido Nacional Fascista italiano. Apesar de não assumirem publicamente, integrantes e entusiastas do grupo mostram identificação com o nazismo de Adolf Hitler. Nas redes sociais, em breve busca por perfis de pessoas que confirmaram presença no evento, é possível ver imagens e outras ligações claramente enaltecedoras dos feitos do ditador alemão. A FN declara “aliança” com os Carecas do ABC, um dos maiores grupos neonazistas do Brasil.

O organizador do encontro da FN em Curitiba Cristiano Machado nega que haja qualquer ato de violência relacionado ao movimento. “Isso é coisa dos esquerdistas e comunistas. Nenhum membro da FM vai sair na rua para fazer isso. Nunca provaram, não teve nenhum membro da FN que agrediu alguém”, garante.

Neonazismo

Encontro com "Carecas do ABC" para selar aliança, em outubro deste ano. Reprodução / FN
Encontro com “Carecas do ABC” para selar aliança, em outubro deste ano. Reprodução / FN

A ligação do grupo com neonazistas também é defendida pelo líder da FN. “Muito se fala sobre a aliança nossa com os skinheads. Por que a sociedade que recuperar o estuprador e matar o skinhead? ”, questiona. Segundo Machado, os neonazistas devem ser recuperados. “Queremos orientar, informar. ‘Hoje em dia não vê mais’ ataques (de neonazistas) porque a gente começou a instruir esse pessoal. Os skinheads se organizaram no ABC e doaram para um orfanato e ninguém divulgou. Nós só queremos recuperar. É com amor que vamos vencer”, declara.

Cristiano Machado nega qualquer ligação do grupo com o racismo. “Não sou racista. Eu sou pardo, sou mestiço. A FN não tem nada a ver com isso”, enfatiza.

“Eu estava conversando com um judeu um tempo atrás e posso conversar com ele normalmente. Quem é o racista da história? Por que um judeu no ‘nosso país’ não pode casar com um de nós. ‘Porque acham que somos pessoas sujas’. Não somos contra judeus, somos contra Sionismo”, argumenta.

Convite

Quanto à preocupação do Ministério Público de que haja incitação à violência, Cristiano tenta tranquilizar. “Estamos abertos para conversar. Liguei para o Ministério Público para convidar um representante para participar. Qualquer autoridade pode acompanhar. Não tem nada a ver com nazismo. É um partido de direita, de apoio militar”, esclarece.

12342741_1657092534561586_7092616820097172022_nDe acordo com o organizador, pelo menos 1,8 mil pessoas vêm de outros estados para acompanhar o evento nacional na Região Metropolitana de Curitiba. Cristiano afirma que as críticas tornam o movimento ainda mais popular. “Depois que começaram a criticar, duplicaram os pedidos para participar. Inclusive autoridades, gente que nunca imaginei que iria me procurar”. Ele não quis dizer quais autoridades.

“Só faço questão que divulgue uma coisa: enquanto têm crianças em Curitiba esperando transplantes, o governo nega R$ 25 mil, mas paga R$ 1 milhão para o Luan Santana tocar”, critica.

O polêmico evento será realizado em Colombo, na Região Metropolitana de Curitiba, com ponto de encontro próximo ao Terminal do Maracanã. O local exato não foi divulgado para evitar confrontos com protestos contra o movimento fascista.

fonte Paraná Portal

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