A nojenta insistência racista da “mulatice” baiana. Prá quê? Prá ganhar dinheiro! De Luiz Caldas ao cantor Bell Marques.


por marcos romão

Alguns “mulatos” músicos baianos, homens, machistas e racistas até os últimos fios dos cabelos, parecem ter uma queda especial por manifestarem seu ódio e desprezo, aos gigantescos passos de fortalecimento das mulheres negras e suas filhas, que acontece no Brasil das últimas décadas.

Passos que arrebentam com as correntes racistas, que as violentam rejeitando e anulando seus cabelos de origem africana, desde o primeiro momento em que ponham os pés numa creche e as acompanham até a universidade e local de trabalho.

“Cabelo duro”, pixaim na bochecha (eufemismo de vulva) e outros epítetos acompanham como uma condenação eterna, as mulheres negras que ainda por cima, são constrangidas nas camas por seus parceiros negros porventura de cabeças brancas. E, nas praças e casas de espetáculos, por “mulatos cordiais” que achincalham seus cabelos africanos, através de letras de músicas, que com suas mensagens as impedem de dançarem, com as chicotadas mentais que lhes são dadas em frente a um público branco ou negro inconsciente, que delira ao verem as mulheres negras sendo arrastadas e linchadas espiritualmente ao som do suingue com letras racistas.

A difícil tarefa de se coibir este racismo institucional na área da cultura e de produção de letras de conteúdos racistas

Ao contrário de um Luiz Caldas que na década dos 80, em confronto com o “Black Power”, que imperava no movimento de consciência dos negros da época e, cunhou a nojenta e claramente racista música “Negra do Cabelo Duro” de Pedro Henrique e Fernando, que  provoca protestos até hoje em 2015.

Nega do cabelo duro

Que não gosta de pentear
Quando passa na baixa do tubo
O negão começa a gritar

Pega ela aí
Pega ela aí

Pra que ?
Pra passar batom
De que cor?
De violeta
Na boca e na bochecha

Pra que?
Pra passar batom
De que cor?
De cor azul
Na boca e na porta do céu

Sai da minha frente muié,que
Hoje eu to de veneta,tem muito
Tempo muié,que eu num bato uma pu .. deria
Casar,mas no meio da missa me acertaram
Uma pedra bem na cabeça da pi .. careta é
Um ferro que serve pra cavucar ,as mocinhas
De hoje so pensam em tre .. padeira é uma flor
Que veio do caruaru ,umas com o dedo na boca
Outras com cu .. ruru é um sapo que mora na beira do rio
Quer saber meu nome vai na pu .. licia do Rio.”

Está ficando difícil de enquadrar o racismo que se sofistica.

A “nova canção de Bell Marques”,”Cabelo de Chapinha”, ultrapassa em sofisticação e subjetivismo racista o racismo grosseiro cantado por Luiz Caldas, ao colocar na boca de um negro fantasia -“negão”- a exigência “amorosa” para que as mulheres negras alisem seus cabelos para serem desejadas – “Minha nega, vai lá no salão faz aquele corte que seu nego gosta de te ver”-, justamente em um momento que em todo o país as mulheres negras libertam seus cabelos das pastinhas e alisamentos forçados. Hoje as mulheres negras são quem definem que tipo de penteado elas usam e, aos ditames dos machistas racistas elas mostram um desdém, que apavora tanto o homem branco, quanto o “pouca tinta” na pele ou na cabeça. que inconsciente de suas raízes negras leva o pensamento do seu colonizador para a cama.

Uma canção com uma letra que seria uma mensagem de amor, com seu racismo subjetivo, é mais que complicado de se levar às barras dos tribunais, por ela em si, sem levarmos em conta o momento histórico e o contexto em que é produzida.

Como é uma música que busca claramente caminhar ao inverso do fortalecimento das mulheres negras, podemos dirimir que ela será usada pela sociedade racista, para dar mais uma pauladinhas nas cabeças das mulheres negras. Nas escolas primárias então será uma boa forma de aprendizes de racistas, encarnarem na pele e nos cabelos das coleguinhas negras que se libertaram da “chapinha/ferro/soda cáustica/formol” da tortura das modas colonizadoras.

“Cabelo de Chapinha”

Bell Marques

Felipe Escandurras, Fagner e Gileno

” Minha nega, vai lá no salão faz aquele corte que seu nego gosta de te ver

Me trás seu coração, porque essa noite só vai dar eu e você
Com esse amor ninguém pode
Só água na cabeça
Pra apagar o fogo
Ô mainha, mas eu só gosto do cabelo de chapinha, mainha
Ô tá liso, tá lisinho. Tá liso, tá lisinho
Tá liso, tá lisinho. Tá liso, tá lisinho
Ô mainha, mas eu só gosto do cabelo de chapinha, mainha
Ô tá liso, tá lisinho. Tá liso, tá lisinho
Tá liso, tá lisinho. Tá liso, tá lisinho”

É aí que entram as ações de ativismo antirracista, combinadas com a discussão do movimento negro, sobre a reinterpretação das leis contra o racismo.

O cantor branco baiano Bell Marques, é um homem que tem assessoria de especialistas em mercado. Fazer música para esta gente é sempre buscar estar na crista da “onda”. A Marcha das Mulheres negras de Brasília ganhou manchetes nacionais e internacionais, os cabelos das mulheres negras e seus turbantes invadem locais de trabalho e palácios. A “onda negra” veio para ficar.

Ao colocar no ar uma letra de música dessas no ar, o Bell Marques quis pegar a “onda negra”, mas como racista é sempre racista, são nos momentos de raiva e/ou no caso, esse momento de descontração musical, que o racismo aflora. Assim, o Bell está levando um caixote atrás do outro e parece que não quer se levantar.
O que o cantor Bell Marques conseguiu com seu feito racista, foi nos chamar atenção para a produção ideológica do racismo.
Em 1940 na Alemanha Gobells ordenou que se fizesse um filme propaganda, com o título “Doce Judeu”, inspirado em uma história falsificada de um judeu funcionário do ministério da fazenda acontecida em 1610, Joseph Süß Oppenheimer, Süß em alemão significa doce, daí o título do filme.
No filme o personagem “Süß Jude”, traja roupas teatrais de Mefístoles, e tem uma mímica corporal e ações que corroborariam todos os pré conceitos, depreciativos que os nazistas tinham contra os judeus.
Fazendo um paralelo do “Doce Judeu” filmado pelos nazistas alemães, com letra da música cantada por Bell Marques, podemos encontrar o ” Doce Negão”, que ao agradar a fantasia branca, oprime sua mulher negra.
Bell poderia se defender afirmando, “pô gente, não saquei o racismo da letra, vou jogá no lixo”, mas não, ele chuta a bola do racismo prá frente e, diz que a música está sendo cantada pelos quatro cantos, sem se dar conta que esta aceitação é feita justamente por um público que está incomodado com o levante das mulheres negras. Bell Marques sabe o que está cantando e conhece o público, que aceita ou desconhece o racismo agressivo que está no âmago deste texto, em que não há o que consertar por ser um texto de ideologia racista pré pensada e muito bem elabora. Racismo redondinho eu diria.

Em seu perfil no Facebook, Bell Marques postou:bell_marques_9Z1BBpP

“A minha história mostra que jamais desrespeitei o meu público através do meu trabalho. Tenho muito orgulho do que faço, respeito muito todos os meus fãs e jamais faria algo diferente. Os meus 36 anos de carreira estão aí para provar que eu sempre levei alegria cantando canções que fazem o povo sorrir, dançar e cantar. Não é à toa que sou considerado um dos artistas que mais atrai multidões e isso me enche de orgulho.
Essa música nova, “Cabelo de Chapinha”, está sendo cantada nos quatro cantos do Brasil e isso mostra sua aceitação sem “mas” nem “porquês”. É uma canção na qual o compositor se inspirou em um personagem que adora sua parceira e lhe pede, com carinho, que se arrume do jeito que ele gosta. Muito boa essa forma gentil que o compositor encontrou para enaltecer sua amada e que deveríamos aplaudir, pois essa é a mensagem da música: gentileza e amor. Tenho certeza que foi dessa forma que grande parte do público entendeu, por isso a música teve uma aceitação tão rápida.
Peço desculpas, em nome dos compositores, para aqueles que não conseguiram compreender a sua intenção. Mas, tenho certeza de que agora ficará tudo mais claro, pois, pra se falar de amor não precisa dizer “Eu te amo”. Cada um se expressa como sabe”

Desconheço a cor dos autores da canção Felipe Escandurras, Fagner e Gileno, mas com certeza todos conhecem o “mercado negro” de produção de racismo na área cultural, dá Ibope. Fizeram o texto errado na hora certa. Diria um marqueteiro. Falem mal mas falem de mim, diria um político corrupto antes de 2012.

Uma jovem chamada Josana, assim postou no Facebook sobre a resposta do cantor à sua reclamação:

As mulheres negras já sofrem horrores para conseguir trabalho, estar em espaços assumindo seu cabelo crespo e ainda vem essa música racista para causar no carnaval da Bahia, onde mais de 80% da população tem cabelo crespo. E ainda tem que aguentar o “amorzinho” mandando ela alisar o cabelo porque é assim que ele gosta? Eu, com amor e gentileza, mandava o “amorzinho” alisar o rabinho!!! Muitas mulheres negras ainda são reféns da chapinha porque tem medo de o “amorzinho” rejeitá-las por enegrecer-se e esse néscio ainda acha que é uma questão de interpretação? Dias canalhas!
Além de tudo o artista não consegue lidar com nossas cobranças por dignidade e apaga todos os nossos comentários de protestos, deixando somente das brancas de cabelo liso que nunca na vida saberão o que é não ser aceitas em uma escola para dar aula porque são negras e possuem cabelo crespo.

Luiz Caldas, que é um bom cantor e muito querido por muitos amigos meus, nunca se recuperou do tombo ou caixote que levou ao entrar nesta “onda” de racismo musical. A pecha de racista musical perdura até hoje, eternizada pelo Google.

É aí que entram nossos e nossas jovens advogadas e estudantes de direito para pensarem novos caminhos para barrar os racistas.

A Sony já teve que pagar uma baita indenização por conta do racismo expresso do Tiririca cantando “Olha os cabelos dela”. Luiz Caldas papou seu preço moral por ter vacilado e demorado a entender o grau de violência racial que cometera. E já teve muitos cachês negados quando os promotores de show recebiam a informação que “ele era o cantor daquela música racista”.
Advogados e estudantes de direito amigos e voluntários do Sos Racismo Brasil, já estudam como enquadrar este caso de racismo que passamos a chamar “Caso Bell Pastinha” e, para isto leis não faltam.
Consultas serão feitas ao MPF, sobre possível enquadramento como incitação ao racismo e violação de direitos difusos.
Mulheres negras postam chamadas de boicote ao cantor e sua banda.
Cidadãos postam protestos em seu perfil, que logo são retirados.

Em tese qualquer pai ou mãe que tenha sua filha azucrinada na escola, por coleguinhas que a persigam cantando esta música, pode mover uma ação contra seus autores responsáveis. Para isto basta recorrer ao ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente, pedindo proteção à dignidade de honra de sua filha com cabelos crespos.
Aguardemos os desdobramentos.

Tudo seria mais fácil se o cantor e os autores de canção viessem a público e dissessem como gostam de gritar o pessoal em cima dos trios elétricos baianos:

“Aí galera, foi mal, pisamos na bola, no chiclete e na banana do racismo. Desculpem mulheres negras do Brasil, o que podemos fazer para indenizar e reparar esta ofensa?”

Se as mulheres negras vão aceitar as desculpas não sei. Mas me lembro que na época Luiz Caldas também não deu importância às reclamações, principalmente das mulheres do movimento negro, dançou.
Mas é a vida, pois como diz o meu parceiro e amigo, que além de baiano é músico, mestre de direito e presidente do Olodum, João Jorge Rodrigues:
“A Bahia e o racismo andam juntos”.

 

 

Anúncios

3 pensamentos sobre “A nojenta insistência racista da “mulatice” baiana. Prá quê? Prá ganhar dinheiro! De Luiz Caldas ao cantor Bell Marques.

  1. Sem desculpas, estamos cansadas desse pessoal que vive atrás de sucesso fortalecendo “olhares’ mais do discutidos. Nada hoje acontece na área musical sem querer, chama-se provocação e não é por falta de conhecimento. Contudo, vale lembrar que existe uma literatura atualizada com autores direcionados para o tema das Relações Raciais no Brasil e no mundo. Assim, sugiro que tais compositores se articulem e criem canções mais críticas e possam colaborar com um dos propósitos da arte,que é a sensibilização do público. Haverá quem compre produtos esclarecedores e críticos para promoção do combate ao racismo. Existe um público que consumidor para materiais que exercitem o valor da pluralidade, logo,gosto é construído e os artistas sabem disso! Não há o que temer, precisam ter coragem de se reinventarem para um mercado que pense em alegria, mas pensando sim em todos que contribuem na formação dessa sociedade.
    Abraços aos compositores: Reinventar-se é mover-se na busca de boas experiências e sem dúvida essas letras já provaram, que não registram como nós mulheres negras queremos ser descritas.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s