O Racismo bem intencionado do Centro Acadêmico da Fundação Getúlio Vargas


Por Marcos Romão

Estava dando uma palestra no último dia 17, sobre o sociólogo, intelectual, livre pensador, ativista da causa negra e maior teórico sobre administração do Brasil, Alberto Guerreiro Ramos, no Conselho Regional de Administração do Rio de Janeiro, quando recebi no E-mail do Sos Racismo Brasil, a denúncia de uma mestranda, sobre o possível racismo enunciado em um cartaz-convite publicado no Facebook, pelo “Diretório Acadêmico de História e Ciências Sociais Carlos Eduardo Sarmento” da Fundação Getúlio Vargas no Rio de Janeiro.

Pensei de início, que fosse uma provocação de grupos neonazistas que proliferam na internet.

cópia do facebook

cópia do facebook

Escrevi para eles, para que avaliassem com os autores deste “layout”. com uma mulher negra exposta como num mercado de escravos. Sobre as repercussões negativas e depreciadoras da mulher negra e de todos nós, que esta chamada poderia provocar.

Pedi também uma resposta imediata, antes que publicasse um artigo e tomasse providências legais para denunciar este equívoco racista.

Não tive resposta. Depois de consultar várias ativistas negras, reparamos em mais um fator agressivo em relação às mulheres negras e aos homens negros. Que é o alerta benevolente dado pelos “acadêmicos”  às negras e negros que porventura aceitem o convite sobre o debate, ” A Visibilidade do Negro na Sociedade Brasileira”:

cópia do facebook

cópia do facebook

Os acadêmicos preocupados em não constrangerem as negras e negros que porventura se arriscarem a se tornar visíveis no LOCAL, explicam didaticamente para os negros incautos e ingênuos:

“ATENÇÃO PARA O TRAJE: NÃO É PERMITIDO ENTRADA DE PESSOAS DE SHORT, BERMUDA E CHINELOS NO LOCAL.” 

Só faltou escreverem, que é proibido aos estudantes, mestres e doutores negras e negros que lá apareçam,  subirem nas cadeiras, pendurarem-se nos candelabros, tocarem tambor e cuspirem na cara dos racistas bem intencionados, que senhorial e magnânimos lhes oferecem um pouco de visibilidade.

Como a palestra que eu dera na quinta-feira, tinha como título, ” Guerreiro Ramos no Facebook”, me inspiro nesta luz profética em 1950,  do que seria o racismo acadêmico que vivemos em 2015,  para definir e resumir o que é a “boa intenção” para com negras e negros, tomada por estes estudantes de história e sociologia da FGV:

Como uma manifestação de racismo enlatado, colonial, acadêmico,cordial, cretino e asinino.

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6 pensamentos sobre “O Racismo bem intencionado do Centro Acadêmico da Fundação Getúlio Vargas

  1. Prezad@, concordo que a imagem escolhida pela organização do evento pode ser polêmica, ainda que a imagem em questão seja uma das mais recorrentes para simbolizar Dandara, uma das guerreiras de Palmares que, durantes séculos, teve sua imagem e história invisibilizada. Por isso, considero importante conhecermos o que estamos criticando. Falo isso por conhecimento de causa: sou a professora que fará uma das apresentações do evento e mais: sou professora de grande parte dos alunos do Centro Acadêmico Dahcs Carlos Eduardo Sarmento. Essa será a primeira vez que a FGV fará um debate sobre e na semana da Consciência Negra, sobre a questão negra. Um debate que foi chamado, organizado e divulgado pelos alun@s, muitos deles negros e negras, porque sim: eles existem e estão na FGV. O aviso sobre a não entrada de bermudas e chinelos é uma praxe (questionável, é verdade) da instituição. Mas, por hora, é assim que as coisas funcionam por lá, por isso todos os convites de eventos na FGV-Rio têm esse lembrete. Acho irresponsável tachar a iniciativa de alun@s e funcinari@s como racista, sem ao menos entender minimamente como as coisas funcionam nessa instituição. Por isso, reforço o convite para os interessados e os incomodados com o evento. Precisamos discutir a questão negra no Brasil em todos os espaços!

    • Prezada Inaiê,
      Polêmica é a imagem, você concorda. Polêmica e ressaltada depreciativamente no contexto do texto do Cartaz.
      Houve, provavelmente uma consulta via Google, onde existem várias opções como podemos ver https://drive.google.com/file/d/0Bz40P7tYvK6HNkxyNUx2TVFJOFE/view?usp=sharing
      Edições de cartazes são entregues a diagramadores em geral, uma pós-filtragem de seu impacto, necessita ser feita. Alunos e alunas negra participam da organização do debate. Pode se um aprendizado sobre a distância entre intenção e ato.
      A imagem parece ter sido utilizada a primeira vez na capa do livro de cordel, “Dandara de Palmares”. Está em um contexto plausível e explicativo.null
      Ainda este ano a Fundação Getúlio Vargas, realizou profundos debates em discussões de teses sobre o racismo institucional, que causaram repercussões nacionais e internacionais.
      A Fundação leva o nome de Getúlio Vargas, que foi o primeiro estadista a criar chances e “cotas” para negros no mercado de trabalho ao criar a lei dos 2/3. Apesar disso ainda está longe, de se desvencilhar das formas enlatadas( para lembrar Guerreiro Ramos) de abordagens das relações raciais. Você são pioneiros e parabenizamos.
      Usar sapatos, já usamos, é sempre bom lembrar. Normas da casa insistem em nos lembrar como temos que nos comportar, compreendo.
      A polêmica está em público, e talvez indiretamente apareçam mais pessoas interessada em participar do debate com um tema e oportunidade que parabenizamos.
      Quem sabe todos percebam, que já acabou o tempo de negro entrar pelas “frestas” permitidas, pelo racismo institucional amoroso e cordial?
      Estamos aberto para o debate fora dos muros. Façamos tudo para o nosso crescimento coletivo

  2. A mensagem “ATENÇÃO PARA O TRAJE: NÃO É PERMITIDO ENTRADA DE PESSOAS DE SHORT, BERMUDA E CHINELOS NO LOCAL.” é incluída em todos os convites para eventos na FGV.

  3. A regra do traje é colocada nos eventos provavelmente para evitar uma situação incômoda de alguém ser impedido de entrar, porque quem frequenta todos os dias a FGV já está familiarizado com essa regra: de chinelo e bermuda não entra, seja quem for. Eu, quando aluna da graduação, já fui impedida de entrar de short quando fui lá num sábado buscar um livro.

  4. Entendimento requer humildade e o mínimo informação. As regras de indumentária são para TODXS e não para negros e negras, como maldosamente está escrito no texto. A FGV como instituição expõe suas restrições, podemos aceita-las ou não. Quanto a imagem de Dandara, prefiro não comentar, pois, pela falta de argumentos fortes inventa-se um, e ainda assim fraco e ilegítimo. Devemos ter mais responsabilidade e buscar informações sólidas antes de emitirmos opinião para não enfraquecermos nossos próprios irmãos!
    Fico triste, mas continuaremos seguindo. Axé!

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