Cunha e Dirceu. Atire a primeira pedra. A cabala moral de quem fez 18 anos durante a ditadura.


por marcos romão
cunhao

Me espanto quando vejo que o Cunha não é mais velho que eu.

Eu pensava que ele já estava beirando os 70, como é a impressão que tenho da idade que aparentam ter, ao avaliar também as fotos dos vetustos do STF e do parlamento.
Devo estar noutro mundo, pois apesar de nas fotos parecer gente do século XIX. O Cunha é um franguinho do século XX
O cara, também chamado Consentino, nasceu só em 1958, ano em que o Brasil foi pela primeira vez campeão mundial de futebol e eu escutava as firulas do Garrincha através do rádio transitor do meu tio Etiènne, durante os racionamentos de luz em Niterói.
O cara então, tinha só 18 anos em 19765, quando a ditadura matou Vladimir Herzog e já tinha matado Oswaldão e, desfilado com seu corpo pendurado em um helicóptero para a população campesina ver, e baixou um manto de escuridão no país, para eliminar tudo que respirasse com cheiro de oposição remanescente das eliminações e execuções anteriores.
1975, ano em que Cunha completou sua maioridade, se alistou-se, eu não sei se serviu exército, foi o ano em que o núcleo duro das forças armadas, pretendeu instalar o regime em que o Brasil alcançasse finalmente a paz dos cemitérios do Araguaia às cidades de todo o país.
18 anos de idade é uma época, que para qualquer um, marca uma vida. É um ano de passagem, de indefinições e definições. É um momento simbólico em que todos nós demarcamos nossos valores éticos e morais para toda uma vida. Não é uma idade de valores definitivos, mas fica para todos nós como uma baliza. A partir de então nossas vidas, ora pendem prá cá, ora prá lá. Mas a baliza fica.
Que fazia a este tempo Cunha e muitos de sua geração, que hoje estão no poder em Brasília?
5 anos mais velho, eu estava andando pelas sombras da faculdade e da América Latina. A maioria dos meus amigos de geração, estavam calados e escondidos e quem saísse da toca, mostrasse a cara e falasse era calado ou eliminado. Que fazia Cunha e os conservadores que estão hoje no parlamento?
A maioria dos jovens em 1973/75, só sentia os reflexos do terror que se passava. Admirava um Simca e via Hebe Camargo na televisão. Um punhado ia para as dunas dos baratos, e menos ainda iam para a guerrilha.
Com a anistia de 79, início do final de uma ditadura que durou ainda mais 6 anos, minha geração e os oposicionistas mais novos e mais velhos que eu, que durante 21 anos, vivemos por necessidade uma vida dupla, em que nossos sentimentos, opiniões e ações, por absoluta imposição para nossa sobrevivência física, eram mantidos em segredo, esquecemos de avisar internamente e à sociedade, que a era de clandestinidade e moral dupla acabara. Esquecemos de avisar que a consolidação de uma democracia, exigia uma absoluta transparência nas ações políticas de cada um.
O resultados desta cegueira política, tivemos evidenciado pelo lado das esquerda, no mensalão e seus filhotes, em que aturdidos assistimos toda uma geração de lutadores contra ditadura, ficar sem ação e emparedada pelo comportamento criminoso de lideranças ex-guerrilheiras, que muitos amavam e confiavam. Tentaram justificar seus erros, através da falsa interpretação de Maquiavel, utilizando a máxima do príncipe, que “os fins justificam os meios”.
E quais foram os resultados da perniciosa vida sob a ditadura e suas continuidades residuais, para a maioria silenciosa e para os conservadores de hoje, que completaram 18 anos de idade, durante os 21 anos de ditadura, que hoje estão no espaço de idade entre 69 e 58 anos invernos?
Com nosso esquecimento no lembrar valores, que estavam sendo construídos antes da ditadura e que desejávamos construir depois da ditadura. Nada foi passado para toda esta gente e para os que estavam chegando, sobre princípios morais e de convivência digna entre grupos humanos. Nenhum mecanismo de controle social de fortalecimento da cidadania foi estabelecido.
Durante a ditadura e durante a luta contra ela, haviam princípios morais respeitados de lado a lado. Não se traía companheiros, nem se enganava quem estava junto na luta. Ostracismo e até a morte eram as penas não oficiais. Era a guerra.
Acabou a ditadura, e dela só ficou o jogo sujo de uma guerra surda que se perpetua, só ficou a tortura e a morte que se disseminou institucionalmente. Só ficou principalmente, a lei do silêncio e do “omertá”.
Nos calamos e afloraram nas esquerdas e nas direitas, os comportamentos estilos Dirceus e Cunhas.
Cada lado escolhe o seu culpado.
Desde 1979 estamos vivendo à Bangu”, diria meu avô, sobrevivente de Verdum na I Guerra Mundial.
Somos uma geração castrada pela ditadura durante 21 anos, em nossas possibilidades de vivermos e aprendermos a construir um estado democrático e transparente.
Estamos em 2015 e ninguém com acesso à internet precisa da Polícia Federal, para investigar quanto custa cada mensalão e canda mensalinho nas trocas de ministérios e secretarias federais, estaduais e municipais. Basta olhar qual o custo do somatório dos ganhos de cada cargo comissionado oferecido em troca de apoio e votos para se manter o que agora chamam de governança.
Somos uma geração em que todos nós, temos um pouco de Dirceu e de Cunha.
O modelo da República Velha ganhou “Smartphone” e “What´s Up”e verniz “social”, mas continua o mesmo e não dá para comparar qual o modelo é mais brutal e mais reacionário e conservador. Fato é que são modelos impedidores da construção de uma democracia, em que toda a sociedade participe das decisões sobre seu destino.
Estamos próximos de um golpe de estado, alguns analistas das periferias me informam, que por lá já está acontecendo. Me pedem para olhar os dados que informam que as polícias dos governadores se armaram até os dentes, com a verba federal para a Copa 2014, e que o povaréu nem chance tem de fazer o gol de honra.
O “caso Cunha” parece ter dado uma freada nos conservadores e na direita já de posse de alguns poderes.
Mas o buraco é mais embaixo, segundo a maioria silenciada. A pergunta que se faz, é trocar o que pelo que?
O que resta desta geração 64/85 que apostou na democracia e nas liberdades democráticas, tem uma responsabilidade enorme.
A grande maioria destes que lutaram pelas liberdades democráticas, nos quais me incluo, não tem poder nem armas. Ao poder sempre procuraram influir através de manifestações e voto. Armas nunca precisamos nem é nossa opção, pois temos a palavra, a dignidade e a história na memória.
Se não existisse esta maioria silenciada até hoje, muitos dos que estão no poder não estariam mais vivos. Teriam sido executados ou desaparecidos nos anos das trevas.
Por esta história que muita gente que está calada tem, é que digo, que se pode falar do estilo Dirceu e do estilo Cunha, que trato aqui apenas como “tipos ideais” pegos com as mãos na botija, de um comportamento generalizado, institucionalizado e aceito pela classe política brasileira.
Por isso insisto e digo, abramos a tampa da nossa história tapada e trancada a ferrolho pela “Anistia Ampla Geral e Irrestrita”. Para isto não há necessidade de decretos, basta começarmos a falar.
Se as novas gerações vão fazer alguma coisa com o que falarmos para as gerações atuais e futuras, será responsabilidade delas.
Nosso silêncio é responsabilidade nossa.
O torturadores por ofício e medo morrerão calados. O Coronel torturador Paulo Malhães que começou a falar morreu assassinado pelos colegas, mas dava para ver em seus últimos depoimentos, que morreu em paz consigo mesmo pela revelações.
Nosso silêncio de lutadores pelas liberdades democráticas, produziu o que vivemos hoje, que é uma sociedade sem baliza moral e ética, onde dignidade e a vida humana nada contam.
Podemos não mudar nada com o que falarmos, mas quem acredita, deve informar para as novas gerações, que direitos humanos, dignidade, ética, respeito à vida humana e liberdades democráticas são coisas boas para respirar e, fazem pesar menos os nossos caixões quando formos para o túmulo.
Em nossos velórios, quem chegar poderá ver nossos sorrisos matreiros de paz alcançada por termos cumprido nosso dever, em passarmos o que sabemos para nossos filhos e netos e todas as gerações futuras.
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Um pensamento sobre “Cunha e Dirceu. Atire a primeira pedra. A cabala moral de quem fez 18 anos durante a ditadura.

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