“Racista filho da puta”


“O genocidio do povo negro e indigena é a marca da democracia republicana no Brasil” – RBispo.

Por Reginaldo Bispo

Reginaldo Bispo

Reginaldo Bispo

A primeira vez que ouvi isso foi em 1970, quando procurava emprego, então com16 anos.

Em uma manhã de segunda feira, eu e meu irmão Reinaldo, mais novo e com mais melanina que eu, de 14 anos.  Saímos cedo de casa, em Guaianazes, comprei um jornal de anúncios de emprego: ” PRECISA-SE DE 92 AUXILIARES DE ESCRITÓRIO.”

E lá fomos nós. Meu irmão não procurava emprego, apenas me acompanhava para aprender andar em São Paulo. O primeiro lugar que fomos foi no Sindicato da Construção Civil em SP, se bem me lembro, era no Baixo Glicério.

Chegamos na hora que abria. Perguntei a um jovem branco na porta.

-Vim pelo anúncio de emprego, com quem posso falar? Ele nos indicou o 3° ou 4° andar. Não me lembro. Para falar com o senhor X. Como me lembraria do nome depois de tanto tempo.

Tomamos o elevador e descemos no andar indicado. Perguntei no balcão: -Por favor quem é o senhor “XIS”?

Um engravatado branco, de cerca de 40 anos, respondeu, ” sou eu, pois não!”.

_ Quero me candidatar para o emprego do anúncio! Respondi. E ele retrucou:_As vagas já foram preenchidas!

Agradeci e nos retiramos.

Já saindo, encontrei o mesmo rapaz branco que nos recebera e indicara o andar.

_E a, como foi lá?

Respondi-lhe que as vagas rinham sido preenchidas. Ele retrucou>

_Não entendo, o anúncio foi feito no final de semana, e vocês são as duas primeiras pessoas que vem aqui hoje. E balbuciou:

_ Racistas filhos da puta!

Fomos embora, com a sensação que algo tinha acontecido de errado naquele sindicato.

O anúncio em questão, continuou sendo publicado no mesmo jornal nas  duas semanas posteriores.

A ironia do destino era que meus tios Álvaro José de Oliveira, e Josué Alves de Oliveira, ambos nordestinos,  um deles negro, faziam parte da maioria dos trabalhadores da categoria que sustentavam aquele sindicato.

Pouco antes, em 1966, tinha descoberto o que era o racismo, agora confirmava a falsa democracia racial brasileira. Passei a me informar sobre o assunto, me tornando modestamente militante em 1968, e me orgnizando em 1973 em Campinas. Como podem ver, há muito sou obrigado a me enfrentar com os racistas. Sou um revoltoso.

Reginaldo Bispo-OLPN/MNU De Lutas

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Um pensamento sobre ““Racista filho da puta”

  1. Irmão Reginaldo Bispo, não desista da luta contra o racismo. Sou branca, filha de pai loiro e ólhos azuis, minha mãe era filha de imigrantes italianos amorenados, e meu pai, músico militar, sempre teve amigos afrodescendentes que, se moravam longe, quando vinham visitar-nos, hospedavam-me em nossa casa. E nunca nenhum deles desrespeitou os 6 filhos (3 casais) de meu pai, ao contrário de um falso amigo branco, que tentou se aproveitar de mim, quando iniciava adolescência. Então, minha experiência é diferente e sou amiga de tantos afrodescentes como de indígenas, a quem ajudo há anos, e vivo dizendo que precisamos de uma nova Lei Áurea no Brasil e noutros países, para ressarcir os africanos e indígenas escravizados. Acompanho o MamaTerra com muito interesse e divulgo vários artigos entre amigos brancos, vermelhos, amarelos, afros etc. Um abração.
    Áurea de Andrade

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