A vaca tussiu


Por Rui Martins, de Genebra

Rui Martins

Rui Martins

Faz duas semanas, não consigo escrever minha coluna para o Direto da Redação. Aparentemente, assunto não falta. Os jornais europeus dão destaque e publicam artigos sobre a corrupção no Brasil, considerada algo digno do livro de recordes Guiness.E, para os jornalistas autores desses artigos (seriam golpistas europeus?), não resta dúvida sobre o envolvimento da presidente Dilma Roussef, “pois tinha sido ministra das Minas e Energia, tinha sido presidente do Conselho da Petrobras e foi chefe da Casa Civil”. Pior ainda, alguns colegas e correspondentes ousam tocar na figura do ex-presidente Lula, insinuando estar também metido nessa história de escândalo da Petrobrás, chamado de Petrolão por analogia com outro escândalo mixuruco, denominado mensalão.

Mas quando decido, enfim, escrever, resolvo abrir alguns sites e blogs de companheiros de esquerda e outros de petistas, num esforço para saber se toda essa onda ou tsunami, em vias de envolver o Alvorada e terminar a temporada de Dilma, é verdade ou mera intriga (e que intriga), da oposição.

Alguns dos nossos melhores colunistas nos poucos jornais de esquerda, gente que sempre li com respeito, garantem  e jurariam em nome de deus, se nele acreditassem, ser tudo um golpe montado pela direita, pelos tucanos, pela grande imprensa para tirar Dilma do poder e enfraquecer o PT. Em outras palavras, seria uma tentativa de golpe! Ufa, sinto um certo alívio…

Como me intriga o fato do principal responsável pelo escândalo ser um juiz, me garantem ser alguém comprometido com os tucanos e que não devo levar nada a sério. Todas essas prisões de empreiteiros são parte de um complô para tirar a esquerda do poder na América Latina. E me aconselham a usar minha arte e verbo em favor da combatida presidente, que agora ninguém mais chama de presidenta.

“O que você deveria fazer agora, mesmo porque anda mal informado por viver na Suíça, influenciado por aquela mentalidade moralista calvinista, é telefonar para o seu xará Falcão e lhe prestar solidariedade”. Por falar nisso, me lembram, que nunca telefonei para o José Dirceu, mesmo se haviam me aconselhado, para lhe prestar solidariedade.

“Nós gostamos de você, gostamos desse seu lado de jornalista independente, mas por via das dúvidas não republicamos mais seus artigos na nossa quase centena de blogs, que muitos dizem serem chapas-brancas, mas não são não”, me asseguram.

É verdade, no meu livro sobre Maluf, corrupção e contas secretas, que o Luiz Fernando Emediato teve aquela ótima inspiração de entitular “Dinheiro sujo da corrupção”, em 2005, eu não colocava em dúvida o mensalão mas fazia vista grossa e justificava como “financiamento de partido”, coisa praticada dentro de certas medidas por muitos partidos europeus e, de certa forma, método legal usado na Suíça, onde, no dizer do amigo Jean Ziegler, o Parlamento é colonizado pelos banqueiros, laboratórios farmacèuticos, empresários e, poderíamos acrescentar, empreiteiros… Essa colonização, através da oferta de cargos de vice-presidente de conselhos de administração, é uma maneira indireta de comprar o voto de deputados e senadores.

Ninguém me puxou as orelhas por acreditar no mensalão, que para os fiéis petistas era explicado como sórdida mentira da grande imprensa. Vi mais tarde que meu colega Paulo Moreira Leite chegou até a publicar um livro provando não ter havido mensalão, por não haver provas e ser tudo baseado numa tal teoria jurídica do domínio do fato, de origem teutônica e aplicada pelo ex-ministro irascível do STF, Joaquim Barbosa. Não li o livro do PML para ver como se prova o contrário do óbvio e, cheguei mesmo a crtiicar o Quincas Barbosa, nobody is perfect.

Também ninguém deixou de me telefonar e de compartilhar meus artigos, quando dei a bronca (quem sou eu?) ao ver Lula levando Haddad para cumprimentar Maluf. Era normal, eu tinha perdido meu emprego na CBN por falar das contas do Maluf na Suíça (o Heródoto Barbeiro pode jurar que não) e, de repente, aquele para quem eu tinha pedido um terceiro mandato, recupera o homem das contas secretas suíças. Ou eu sou ingênuo ou virei mesmo um calvinista aqui na Suíça!

“Tá certo, Rui, mas você não entendeu, foi para termos mais tempo na televisão”, me explicaram. Opa, simples demais, e eu não tinha pensado… Não engoli, não concordei, mas fiquei quieto. Não sei como o Haddad administra, parece não ter nada a ver com Maluf e, como já virei um tanto europeu e ecologista, sou fã das suas ciclovias e de suas faixas exclusivas para o transporte público. Se sua chefe maior, lá em Brasília, desse também valor à ecologia, e por tabela à proteção das florestas e dos nossos índios contra o agronegócio, eu não teria preferido votar na Marina.
Mas entendi que, em política, segundo me disseram, era preciso fazer acordos para se poder chegar aos objetivos a alcançar. Tudo bem, valeu pelas ciclovias e pelos ônibus, mesmo se eu não faria aquela foto…

Vou no site 247, que pelo jeito deve  ser a Voz do Brasil na Internet, em busca de um argumento que me libere a alma e me dê uma ajuda para entender esse angú de caroços. Então, me explicam, editores e os bloguistas, ser tudo uma armação golpista, ninguém roubou ninguém, os delatores são uns mentirosos industriados pelos tucanos. A Dilma é uma santa, basta se olhar para ela para ver. Isso é tudo obra desse juiz Sérgio Moro, que não tem nada a ver com a Operação Mãos Limpas do juiz Falcone contra a Máfia italiana.

Encontro uns amigos petistas – “Mas não há provas Rui, são só delações, o foco agora devem ser as terceirizações que vão afetar os trabalhadores”. Mas, leio logo depois, as delações podem fazer parte do processo jurídico porque ajudam a encontrar as provas e os culpados, como escreveu o mal afamado Quincas Barbosa.

Ninguém mais fala nas terceirizações, porém aqui na Europa, depois de explicarem como o governo usava da Petrobras na distribuição de propinas e se assustarem com o volume de dinheiro usado, falam agora na inflação brasileira e a imagem do Brasil no mundo financeiro, econômico e político parece ser agora a mesma daqueles 7 a 1.

Alguns bancos suíços também já confirmaram depósitos de denunciados, porque estão numa fase de querer limpar a barra e acabar com aquela fama de serem cavernas de Ali Babá. Então, não são mais denúncias sem prova, mas por que continuam querendo a pele do juiz Sérgio Moro se, na verdade, ele está levantando o tapete de algo inimaginável? Essa batelada de gente sendo presa não é uma brincadeira, meteram mesmo a mão e logo onde? Na Petrobras, que cinicamente dizem querer proteger mas, que, por culpa deles e não de outros, se fragilizou e, quando essa tempestade passar, poderá ser sacrificada!

Com a inflação, o dinheiro que o pessoal tinha posto na poupança está derretendo, aperta-se o cinto, mudam-se leis previdenciárias, cortam-se bolsas de estudo e faz-se economia na educação quando se dizia na campanha eleitoral que educação seria prioritária. Ninguém se lembra do pré-sal como fonte de gastos na educação. Um banqueiro dirige nossa economia, quando essa nunca foi bandeira e nem programa da esquerda. Pior: dizia-se que a outra candidata faria isso.

O que foi que andaram fazendo para dar tanta zebra? Incompetência? Agora dizem que há uma conexão entre o Petrolão com o Mensalão e tem gente lamentando a prisão do antigo responsável pelo programa nuclear brasileiro, quando se bem me lembro, foram os militares que iniciaram essa história de nuclear, durante a ditadura. O Brasil virou de ponta-cabeça?

E o que eu vou escrever? Que é verdade a corrupção do Petrolão, que em lugar de ser chamado de golpista, o juiz Sérgio Moro está fazenco realmente um trabalho de limpeza como fizera o juiz Falcone, com as Mãos Limpas? Que a maior vítima dessa história vai ser a esquerda, pois o povo vai confundir os ideais da esquerda com os do PT? Que tudo quanto nós louvávamos nestes últimos anos, a inclusão social dos pobres numa sociedade menos desigual, o acesso às universidades para os filhos do povo e um Brasil respeitado lá fora vai ser comprometido?

… Que a vaca tussiu e que vamos todos pro brejo?

Rui Martins, jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, pela recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes. Escreveu Dinheiro Sujo da Corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A Rebelião Romântica da Jovem Guarda, em 1966. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil, e rádios RFI e Deutsche Welle.
É o Editor do Direto da Redação.
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