O pessoal “daquela peça” perdeu a noção do perigo. A Pedra do Sal e a Cultura Negra sem Negras!


por Antonio José Do Espirito Santo

O que vai ficando evidente no caso: Alexei Weinchenberg, o autor da tal peça inseriu no seu projeto uma atriz da TV Globo, a ex-malhação Cristiana Peres (que mudou seu nome, recentemente para Christiana Ubach) para chamar mídia. Por isto Patrícia Kogut, colunista de TV do jornal O Globo (por acaso mulher de Ali Kamel, o editor chefe do jornal) deu nota com máximo destaque.

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foto do projeto porto da memória

Em contrapartida, Alexei teria decidido então (ou foi solicitado pela “grande atriz”, como condição) criar um papel especial e de destaque para a moça. Até aí, são atos artisticamente pouco éticos, muito questionáveis, porém corriqueiros. A rigor, tudo certo até aí.

Só que, de forma irresponsável Alexei (junto com Christina, quem sabe) teria decidido criar um improvável papel de uma mãe de santo ilustre, a qual, obviamente, tratando-se de um espetáculo histórico, com trama transcorrendo no início do século 20, TERIA que ser feito por uma negra, incorrendo aí num ato, inquestionavelmente racista.

(Como se viu, Christiana Ubach, branca e de olhos verdes, vestida com um look “mãe de santo fashion” ficou uma imagem bizarra)

Mas ainda há um outro complicador aí: É óbvio que a decisão provocaria polêmica, atraindo o debate que está criando (e aí residiria um eventual e mui escroto oportunismo). Muito falada, a peça atrairia então mais mídia e mais espectadores. Não parece ser, portanto uma atitude de um autor/diretor algo medíocre e racista, meramente ignorante. Seria, isto sim, uma “armação ilimitada”, deliberada, uma provocação mal intencionada, cheia de más intenções.

Christiana Ubach caracterizada como Mãe Wanda de Omulu para o espetáculo "João Alabá e a Pequena África", dias 20 e 21 de junho, na Pedra do Sal. Hoje, dia 12 de junho, na coluna da Patrícia Kogut (O Globo). Assessoria de imprensa/ fonte: Equipe D Comunicação  Foto: Leo Farah.  Figurino: Yanna Bello. Visagismo: Pedro Moreira.

Christiana Ubach caracterizada como Mãe Wanda de Omulu para o espetáculo “João Alabá e a Pequena África”, dias 20 e 21 de junho, na Pedra do Sal. 

Seria uma típica ação de apropriação indébita de artistas brancos predadores, uma prática, infelizmente muito comum hoje em dia, depois que se começou a abrir canais de patrocínio institucional para cultura, para a arte e para a história negra do Brasil.

Tentam operar uma “cultura negra sem negros” conceito que adotei em meu livro para definir este fenômeno sutil.

Todo mundo passou a querer ser preto agora, num cinismo vergonhoso. Já detentores de vantagens históricas, estes brancos, estes “pretos fake”, vão ocupando então, rapidamente todas as frestas, todos os espaços, ganhando todos os editais, inserindo em seus elencos um pretinho ou uma pretinha figurante, aqui ou ali, para justificar.

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foto do projeto porto da memória

Neste movimento os artistas pretos reais continuam a ser preteridos e excluídos. Continuam invisíveis e sem chances de trabalho, sem poder de expressão e representatividade.

foto internet

foto do projeto porto da memória

É uma questão política por suposto.

Eu acho muito grave isto. Melhor os interessados agirem logo, com toda firmeza e decisão neste caso. A hora é justa e é esta.

A peça tetral “João Alabá e a Pequena África”, portanto, parece ser mesmo uma ação oportunista de gente branca racista e irresponsável, protegida de alguém. A “Malhação” que está recebendo e todos os protestos e boicotes que se puder mobilizar são necessários.

Fazem juz ao nosso firme repúdio. Deviam ser expulsos da Pedra do Sal, “pacificamente”, com gritos de ‘Pega Ladrão!”

saiba mais sobre os protestos

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  1. Pingback: The danger of cultural appropriation – the ongoing whitening of Brazilian history | Black Women of Brazil

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