PARTES DE PEDAÇOS PARTIDOS EM FRAÇÕES E A DIVISÃO DO POVO NEGRO – 1ª Parte


Por Reginaldo Bispo.

publicado originalmente em 20 de novembro de 2014partidos em pedaços 1

A experiência dos europeus com os partidos vem do século XVIII. No Brasil, os partidos surgem no II Império, sem que haja diferenças ideológicas e programáticas entre monarquistas e liberais, ambos escravistas. Os segundos eram uma dissidência dos primeiros, por disputas locais de poder e insatisfação com a distribuição de privilégios pelo imperador. Dos liberais surge a dissensão republicana, que também defendia o escravismo e um projeto de poder para as elites europeias, o subjugo e exclusão dos negros e indígenas, e  privilégios para os europeus.

Foi assim que a partir de 1840, que na Câmara de deputados imperial no RJ, e na Assembleia Legislativa de SP, tramam as estratégias de eliminação e genocídio dos negros e sua substituição pelos imigrantes europeus. Celia Maria Marinho e José Júlio Chiavenato denunciam em suas respectivas obras “Onda Negra e Medo Branco” e “O Negro no Brasil, da Senzala à Guerra do Paraguai”.

Porém é a opção pelo envio exclusivamente de negros á Guerra do Paraguai e a importação de imigrantes em massa que comprova a estratégia de genocídio do negro pelas elites, através da substituição da mão de obra negra, e o impedimento à organização politica dos mesmos.

A exclusão, pelas elites, do negro na participação politica, e as bandeiras não atrativas para a maioria do povo, criou uma casta elitista nas agremiações partidárias, e manteve os negros  e o povo distantes da politica até 1930, ainda que o Partido Comunista tenha sido criado em 1922.

Foram poucos os momentos de liberdade de manifestação politica da sociedade brasileira, desde o império, mas os negros só conseguem criar pequenas organizações de ação social e politica, porém jamais foram aceitos em partidos. Nos anos 1910-20 organizam-se a imprensa negra em SP e outras cidades; em 1930 surge um momento propicio à organização politica, com a criação da 1º Organização Politica Negra -, A FNB – Frente Negra Brasileira.

Na ilegalidade, o PCB, na maior parte do tempo, é um partido composto por intelectuais e lideranças operárias de esquerda, que não se identificavam com os negros, por entender  a classe, como algo absolutamente incolor. Não percebiam sequer, que os negros ficaram forçosamente fora do mercado de trabalho até 1937, quando o Estado Novo, baixa uma lei proibindo a imigração europeia, e obrigando as empresas terem 2/3 de trabalhadores nacionais

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Dada a falta de uma legenda com a qual se identificassem os negros, em 1937, a FNB transforma-se no primeiro partido negro, encerrando suas atividades em seguida, com o fechamento das agremiações partidarias pelo estado novo de Getúlio Vargas. A retomada do interesse por seguimentos numericamente consideráveis da comunidade, por partidos, ocorre em 1945 [em um país de população predominantente rural], com o retorno à democracia, agora fortemente dominados pelas oligarquias, favorecida pela politica de Getúlio, de organização de muitos partidos locais, e uns poucos nacionais coligados em apoio ao seu governo. É a época dos currais eleitorais!

É quando alguns poucos negros ilustres, passam a filiar-se individualmente, sem perspectiva coletiva, servindo de massa de manobra, de modo que a organização partidária continuasse não respondendo há quaisquer das questões de seu interesse enquanto povo.

Entretanto, desde fins da década de 30, até 1964, o PTB – Partido Trabalhista de Vargas (Getulio tinha um 2º partido, o PSD, das elites, que rivalizava com a UDN, a conquista dos votos das oligarquias), é quem disputa com o PCB a hegemonia na conquista do voto do trabalhador e do negro. Certamente não para organizá-los. No longo período da ditadura militar 1964, os negros dividem-se entre voto na: Situação (ARENA) -, na área rural, nos pequenos municípios e nas regiões atrasadas industrialmente e na: Oposição (MDB), nos grandes centros urbanos e industrializados do sudeste, agregadas com base nas referencias passadas e enquadrados no bipartidarismo.

A partir de 1980, com o retorno do multipartidarismo, abre-se a temporada de caça ao eleitor, a militância organizada do MN se filia em vários partidos, a maioria no entanto, permanece no PMDB, e a juventude ativa a partir da fundação do MNU em 1978, volta-se para uma proposta nova de esquerda – O PT – Partido dos Trabalhadores, formado por uma conjunção de esquerdas Marxistas, Leninistas, Trotskistas, Maoístas, comunidades católicas populares, estudantes, intelectuais e sindicalistas. Acreditávamos que estivéssemos  construindo um poder para os trabalhadores.

O PT, é o primeiro partido que incorpora em suas premissas as demandas do MN, entretanto, sua direção, Lula, Zé dirceu, Olivio e Jacó Bittar, assim como as correntes de esquerda nunca nos levaram a sério, dificultando nossos espaços de atuação internamente. Foram criadas as Comissões, secretarias do negro, depois, de combate ao racismo, que nunca tiveram apoio da direção, nem participação das mesmas nessas iniciativas. Neste período ganha destaque a criação dos Conselhos Estadual da Comunidade Negra pelo governador Franco Montoro, do PMDB-SP, depois a nomeação de negros para varias secretarias dos governos Brizola, influenciados por Abdias do Nascimento.

Em todos os casos, os negros tinham pouca influencia na organização da vida e da direção partidária, piorando depois com a pulverização das legendas a partir de 1988, ainda que quase todas criassem secretarias de negros ou de combate ao racismo, bem como (depois do advento da criação da Seppir, no primeiro governo Lula), a pulverização de Coordenadorias e secretarias de governos municipais e estaduais.

Aparentemente coerêntes pelas necessidades, com o aumento do racismo, que se torna cada vez mais violento e assassino depois de 2003, fez com que todos partidos e governos criassem mais de 600 coordenadorias e secretarias por todo o Brasil, entretanto, eleitoralmente banalizando essas medidas na contramão da historia. Essas  repartições passaram a se constituir em guetos para agraciamento dos negros nos governos de plantão, um verdadeiro cala-te a boca geral na negrada, sem utilidade real na luta contra o racismo ou para avançar as demandas do povo negro..

Ao longo da historia dos povos negros e indígenas, na África, nas Américas ou na Ásia, as organizações partidárias de direita ou de esquerda legitimaram a ideia da disputa e pela alternância do poder, dentro da ordem, sob a égide das regras vigentes, portanto, aceitando e confundindo os oprimidos com leis contraditórias, provocando uma realidade onde ninguém mais sabe qual a diferença conceitual entre democracia & capitalismo, ditadura & democracia, esquerda & direita, capitalismo & socialismo, ditadura & esquerda, ou as funções de um partido: Se para governar para o bem comum, ou para os próprios políticos, como se fossem apenas palavras sem sentido, sinônimos ou antônimos. A responsabilidade é da incompetência da esquerda (e do MN), que se acomodou conformados com a sua “derrota” ou “aceitação”.

Organizações negras no Brasil, como a FNB-Frente Negra Brasileira e MNU-Movimento Negro Unificado, foram representativas, mobilizadoras e definidoras de rumos no Brasil, antes dos interesses partidários se instalarem em seu interior. A experiência histórica mostra que quanto mais cresce a influencia e as disputas partidárias intestinas, mais as organizações populares e da população negra, perdem em visibilidade, representatividade, organização e poder de mobilização, porque a prioridade agora são os projetos e as bandeiras dos partidos, não do povo, dos negros ou dos oprimidos. Todos os políticos e seus funcionarios, se dizem preocupados com “os que mais precisam”, os trabalhadores, os pobres, assim confundindo a maioria negra e indígena marginalizada, que eles não reconhecem com direitos e como povo.  – SP, 24/11/2013. Reginaldo Bispo – MNU de Lutas, Autônomo e Independente.

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