A ESTÓRIA DA MENINA PRETA QUE TOCA SIRIRICA NO BANHEIRO DA ESCOLA.


O pequeno texto de Deley de Acari mostra o dilema e a tragédia de uma favela onde as forças comunitárias se dividem e se movem em interesses diversos. (J.R. de Almeida)

Do original blog Deley Acari- Poeta Criolo

por Deley do Acari

deley do acariA estória da menina preta que toca siririca no banheiro da escola eu conto. mas não digo o nome da menina,nem da escola, nem das outras meninas que tocam sirica com ela.

Elas já quase levam um fragrante da inspetora e, dar o nome delas seria enxová-las. Tudo bem?

Então a estória é assim:são cinco meninas no vestiário da escola enquanto as turmas estão se formando e só saem quando toca o sinal. Enquanto não toca o sinal elas ficam tocando suas campanhias do prazer. Cada uma tocando a sua, claro, não uma da outra… Ainda não.

A menina preta é a única menina preta das cinco meninas. Se bem que uma também é sarará.

Assim que termina o primeiro tempo de aula e a professora sai elas se juntam numa mesma carteira, na ultima fileira e ficam sussurrando quem delas “conseguiu” e com quem. Dessa vez todas conseguiram.

-Caraca! Eu consegui! Puxa! Justin bieber

Outra menina:

– Ih! Foi…fui com ele também, gostosinho,NÉ? E ainda esses meninos machistas chamam ele de jutin biba.

Mais outra menina:

-Advinha? Cauã Reinald…

– Tem vergonha não? ele é muito velho pra você.

A menina preta parecia ainda estar em êxtase. Foi “acordada” com um “pedala Robinho” por uma das meninas. E aí fala… com quem?

A menina preta:

-Puxa! Dessa vez foi a melhor de todas, muito bom… Estou “viajando” até agora…

Das outras vezes não foi tão bom assim…

Uma das meninas:

-Para de meme. Diz logo com quem foi.

A menina preta:

-Com o Cris!

Uma das meninas:

Aquele do “todo mundo odeia Cris?”

Menina preta:

Que odeia o que! Eu amo o Cris…

As quatro meninas com muito espanto numa só voz:

– Mas ele é preto!

No fim das aulas todas as cinco meninas tiveram anotado nos cadernos, um bilhetinho alertando que elas ficam tempo demais no banheiro e quase sempre entram atrasadas para a primeira aula e que, se forem pegas fazendo coisa feia serão suspensas.

A menina preta chegou em casa e mostrou a anotação no caderno pra mãe.

A mãe logo se ligou:

Vocês ficam tocando,né?

A menina preta: é! Quer dizer, não, sim! Cada uma se toca em si mesmo, nós não somos

sapatão não, mãe!

Mãe: sapatão, não… lésbica!… Mas vocês não tem medo de serem “pegas” não, é?

Menina preta:medo a gente tem, mas vale a pena, e hoje foi tão bom pra mim. A primeira vez que consegui pensar num menino preto e ir com ele até o fim. Mas só que… E não vou falar não!

Mãe: ah! Agora fala…

Menina preta:

– No meio do meu pensamento, o Cris sumiu…

Mãe: que Cris, menina?

Menina preta: o Cris, menino preto por quem eu tava tocando e pensando nele. Então,de repente ele sumiu e apareceu a Juliana Alves.

Mãe: caraça! A Juliana?!

Menina preta: quase que ela fica no meu pensamento e vou até o fim e consigo com ela. Fiz um esforço danado pra voltar a pensar no Cris e ir até o fim com ele. Tá amarrado eu pensar na Juliana e ir com ela novamente.

Mãe: e daí ela também é uma mulher preta.

Menina preta: tá amarrado mãe!…

Mãe: De repente não seria tão ruim assim.

Menina preta: Ih, mãe… Como é que você sabe? Mãe: esquece…

Menina preta: Esquece nada, mãe. agora que fala é você.. Vai? Você já foi sapatão?

Mãe: Sapatão, não! Lésbica!

Menina preta: mãe!!!

Mãe: não cheguei a ser. Mas tive umas relações livres com umas meninas, quando tive presa na -Santos Dumont quando tive presa lá depois da morte do seu pai.

Eu estava  muito triste com a morte dele, passei três dia no beliche corando sozinha, uma menina branca, grandona e mais velha que eu cismei que ia ser minha marida e que ia me proteger. Eu resisti e ela me bateu, muito. Uma menina preta, mais ou menos da minha idade, me socorreu e me levou pro banheiro e me ajudou a me lavar.

Tocou no meu corpo com a mesma delicadeza que seu pai tocava em mim. Quando dei por mim, estávamos nos amando e nos tocando no beliche.

Ficamos juntas os três meses que fiquei lá.

Menina preta: ela ficou sendo sua marida?

Mãe: não, nunca! O tempo todos fomos duas amigas, duas mulheres carinhosas e ternas uma com a outra, bem femininas! Nada de uma ser a macholona da outra, sapatão! Éramos um par de melissas. Nem sei por que me lembrei disso agora, faz mais de 15 anos…

Menina preta: lembrou porque eu falei da Juliana Alves.

Mãe: Será que quando eu tiver “indo” eu for com a luliana Alves até o fim é porque eu estou virando sapatão/

Mãe: Sapatão não! Lésbica! Que isso bobagem! Você ainda vai fazer 13 anos…

Menina preta: Então? Se ela aparecer e eu for com ela até o fim e eu conseguir com ela?

Mãe: E daí: pode ser tão bom como foi com o Cris!

Menina preta:

Pena que no banheiro da escola tem que ser tão rápido. Puxa eu queria ir duas vezes com o Cris

Mãe;

E tem que ser no banheiro da escola? Porque não no banheiro daqui de casa? Na hora do banho? Acorda 15 minutos mais cedo. Seu irmão só acorda lá pra 8 horas pra ir pro treino…

Menina preta: puxa! 15 minutos? Acho que eu consigo até três vezes com o Cris! Nunca pensei que podia ser tão bom assim com um menino preto que nem eu.

Mãe: três vezes? Vai quebrar a campainha.

Menina preta: Ih! Será que quebra mesmo!

Mãe: Nada! Brincadeira! Nossa campainha do amor, quanto mais agente toca melhor ela fica e com o a musiquinha dos nossos suspiros mais bonitos.

Menina preta:

-Mãe e se eu gostar de menina de verdade o que a senhora vai fazer?

Mãe:

– vou rezar pra minha mãe Oxum que você encontre uma menina que ame você como uma mulher feminina como você. Pra gostar de uma pessoa que te oprima, te humilhe, te trate como um macho trata uma mulher?…

Menina preta:

– Se eu gostar de homem, como gosto do Cris, vou querer só se for assim igual a ele: preto que nem eu, fofinho, carinha de carente, gostosinho e gentil igual a ele.

Estória contada por Dalila Txumbin

Mãe da menina preta.

Dalila é  uma personagem  contadora de história de uma favela imaginária do meu blog.

Txumbin é seu apelido desde os 16 anos quando ficou viúva pela terceira vez.

Muié xumbinho é o apelido de mulheres jovens que são viúvas de dois ou mais maridos.

Xumbinho vem do raticida xumbinho terrível usado para matar ratos. Comeu, morreu.

Dalila tem 30 anos, vivi sozinha com um filho de 15 anos, uma filha de quase 13 e uma outra de 11. Cada uma de um pai.todos já falecidos.

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