“Preto, pobre e gay é tratado nesse país como animal de abate”, diz amigo de bailarino morto a facadas


Uma das estrelas do Balé Folclórico da Bahia, o bailarino Reinaldo Pepe dos Santos foi sepultado ontem, um dia após ser morto a facadas em casa, na Saúde

reblogado do Correio da Bahia

Amigos e parentes de Reinaldo Pepe dos Santos, 40 anos, já estavam acostumados a aplaudir o bailarino. O reconhecimento como artista e o fato de ser considerado exemplo entre os amigos puxavam a saudação. Ontem, porém, quando ele foi velado e sepultado, no Cemitério Campo Santo, na Federação – depois dos aplausos e quando o artista saiu de cena -,  tristeza e a revolta  assumiram a sua marcação no palco.

Reinaldo Pepe dos Santos realiza a coreografia A Corte de Oxalá, em apresentação do Balé Folclórico da Bahia (Foto: Wendell Wagner/Divulgação)

Para José Carlos Santos, o Zebrinha, 60, essa era uma tragédia anunciada.  “Preto, pobre e gay é tratado nesse país como animal de abate. Está aí à disposição para ser abatido a qualquer hora. É muito mais caro o quilo de uma galinha Avipal do que a vida de um preto, pobre e gay”, afirmou, revoltado, o diretor artístico do prestigiado Balé Folclórico da Bahia (BFB), do qual Nado (como Reinaldo era conhecido) era solista, ou seja, uma estrela da companhia.

Quem conhecia Nado o descrevia como um homem forte, cheio de vitalidade. Por isso, foi uma surpresa a notícia de sua morte, na madrugada de domingo, em casa, no bairro da Saúde, por um homem ainda não identificado. “A gente não consegue ver aquele homem forte sendo morto. Dizem que a casa estava cheia de sangue para todos os lados. Ele certamente lutou muito”, afirmou Vavá Botelho, diretor do BFB.

Força
Com o balé e a capoeira, Nado ganhou força e agilidade. Aos 13 anos, começou a dançar na Escola Estadual Professora Candolina, no Pau Miúdo. “Ele enfrentou todo o preconceito. Tinha o apoio da família. Lembro de nossas montagens de Ave Maria. Já era um artista grande”, recorda a professora de dança Itamar Arapiraca, 64, que ensinou os primeiros passos ao bailarino.

Reinaldo era de uma família de seis irmãos – o caçula entre os quatro homens. Soteropolitano, morou a maior parte da vida em Castelo Branco, onde tinha  uma casa perto de sua  mãe e outros parentes. “Ele sempre foi um xodó, um menino doce. Minha mãe dizia ‘é o menino que já gosta de beijar mamãe’”, conta a irmã Ruth Pepe dos Santos.

“Era um cara alegre e a gente se encontrava para reunir a família sem precisar de data comemorativa. No último domingo nos vimos”, recorda Ruth.  Segundo ela, a família o acompanhou durante toda a carreira. “Ele sempre se dedicou à dança e se tornou quem é, essa pessoa amada e reconhecida, por causa dos seus esforços”, completa Ruth.

A direção do Balé Folclórico destaca que,  como professor da instituição, ele sempre foi dedicado aos alunos. Joseildo Santos, ex-aluno de Nado, não continha as lágrimas, ontem, na despedida ao mestre. “Foi lindo nosso último ensaio, sábado. Ele sempre era brincalhão”, disse, saudoso.
“Pelo reconhecimento que tinha como profissional, ele  sempre tinha as portas abertas na companhia”, afirma Vavá. No BFB, Reinaldo ficou, ao todo, 12 anos, entre idas e vindas. Todos os anos tinha uma saída programada no período junino por conta das atividades na quadrilha Capelinha do Forró, de São Caetano.

Crime
Zebrinha conta que, na sexta-feira, Reinaldo deu aula no balé em seu lugar (era o seu professor substituto) e que quando chegou na sala e viu sua firmeza, pensava que já tinha para quem passar a sua cadeira. “Era um homem que todo mundo se orgulhava. Não estou enfeitando. Ele sempre deixou sua marca positiva e isso estava presente na sua maneira de educar”, elogia.

Horas após a morte de Nado, em um imóvel de dois andares da Rua do Alvo, na Saúde, onde ele havia alugado uma quitinete desde o final do ano passado, o receio tomava conta de outros inquilinos. Porém, o proprietário do imóvel orientou os ocupantes a não dar declaração sobre o crime.

“Ele era uma pessoa boa, rapaz educado, passava por aqui sempre e cumprimentava as pessoas. Era reservado, não andava por aqui o tempo todo. Saía para trabalhar e voltava”, comentou um morador da mesma rua. Outra vizinha, que não quis se identificar, disse que na noite em que foi morto, Nado comprou cigarros em sua venda, que fica perto da casa, e estava acompanhado do suspeito do crime. Depois, os dois foram em direção à casa. Um senhor, que disse morar no local há 50 anos, afirmou que Reinaldo costumava sair de casa cedo. “Ele saía cedo e voltava tarde, imagino que por causa do trabalho. Mas, no dia que aconteceu, viram ele com um homem”, comentou.

Ainda de acordo com o morador, apesar do crime, o clima não era de tensão na rua. “Como nem todo mundo conhecia ele e parece um caso isolado, estamos tranquilos. A rua é calma”, contou. Apesar de nunca ter visto o bailarino acompanhado, o morador disse que encontrou o suposto assassino. “Eu estava chegando, quando ele foi embora. Passou por mim com uma camisa preta”, disse, sem comentar se o homem estava com o pé ensanguentado, como relataram outros moradores à polícia. O assassino seria um homem branco que vestia camisa e bermuda pretas no dia do crime e tinha o cabelo com um corte baixo e   com uma franja.

Revolta marcou enterro: polícia caça suspeito em Dias D’Ávila
Centenas de pessoas foram ao Cemitério Campo Santo se despedir do bailarino Reinaldo Pepe Santos, 40, ontem. A maior parte das pessoas estava vestida de branco,  como forma de pedir paz e, também, por  uma tradição religiosa, já que Nado era adepto do candomblé. O sepultamento foi marcado pelas manifestações e cânticos em línguas africanas. “Ele era de Xangô e tinha muito orgulho disso”, afirmou Zebrinha, amigo e colega de trabalho.

Edna, mãe de Nado, amparada pelo filho mais velho em sepultamento

Antes, houve  músicas românticas e cristãs durante o velório. O ator Jorge Washington, do Bando de Teatro Olodum, foi ao sepultamento. Ele conta que apesar de não ter sido amigo de Reinaldo, o reconhecia de longe pelo profissionalismo. “Chega de tanta violência. Não dá nem para chamar de animal um sujeito que faz isso com um ser humano tão encantador”, declarou. A mãe de Nado, Edna Edvirgens Pepe, 72, acompanhou a cerimônia amparada pelos parentes.

“Eu só quero que haja justiça”, afirmou ela durante o sepultamento. O caso é investigado pela 3ª Delegacia de Homicídios (BTS). Ontem, o  CORREIO não conseguiu contato com o delegado Guilherme Machado, responsável pela apuração.

A assessoria de imprensa do órgão informou que há depoimentos agendados para hoje e que, desde ontem, há equipes na rua levantando informações. Para a polícia, Nado saiu de uma boate no Pelourinho com o suspeito no sábado. Naquela noite, ele havia se apresentado no Teatro Miguel Santana e, segundo amigos, teria desistido de sair com amigos para uma boate por causa de dores na panturrilha, e avisou que ia para casa.

Segundo a irmã Ruth, ele se mudou de Castelo Branco por conta dos ensaios. “Ele disse a mainha que ficaria nessa casa por seis meses por causa dos horários do ensaio; que estava ruim de voltar para casa”, explicou. Nado se preparava para se apresentar em maio em uma turnê em Nova York, nos EUA.

Há suspeita de que o autor era conhecido da vítima, embora a família afirme não ter conhecimento sobre sua vida íntima. “Os vizinhos dizem que (o autor) era uma pessoa que, pelo menos na última semana, foi vista lá umas três vezes”, afirma Vavá. Nado foi morto a facadas. No local do crime havia sinais de luta corporal, segundo a polícia. Ele foi atingido no abdômen e no pescoço e  quase foi degolado.

Policiais ouvidos pelo CORREIO afirmaram que um suspeito havia sido identificado em Dias D’Ávila, na Região Metropolitana, e que equipes da Polícia Civil estavam fazendo diligências na cidade.

Em 2013, Augusto Omolú foi morto em sua chácara
Era também um domingo, dia 2 de julho de 2013, quando, de forma violenta, a dança baiana perdia outro nome de peso. Augusto Omolú tinha 50 anos e morava sozinho em uma chácara em Buraquinho, Lauro de Freitas, onde foi morto pelo ajudante de pedreiro  Cléverson dos Santos, 20 anos.

O coreógrafo e bailarino do Balé Teatro Castro Alves (BTCA) teria, segundo apurou a Polícia Civil, negociado um programa por R$ 100 com Bobô, como era conhecido o criminoso. O rapaz diz que só aceitou o convite por conta da aproximação do período junino. O crime aconteceu, segundo Cléverson, quando Omolú “tentou contra ele”. Ao término da relação sexual combinada, o coreógrafo propôs uma inversão de papéis. Cléverson responde por  homicídio doloso e furto.

Procurada ontem  pela tarde, a  Secretaria de Administração Penitenciária e Ressocialização pediu um prazo para confirmar a permanência de Bobô no sistema penitenciário e não o fez até o fechamento da edição, às 22h. O processo ainda está em andamento.

Familiares e amigos de Augusto Omolú rejeitam a versão do acusado que diz ter assassinado o bailarino depois de ter sido convidado para fazer um programa na casa dele.  Ontem,  Jaciara Maria da Purificação, irmã  de Omolú, levou uma faixa ate o velório de Reinaldo cobrando por justiça no caso da morte do irmão.

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