Cabula: SOBRE A BAHIA, SEUS LIXAMENTOS E CONFINAMENTO RACIAL.


Quando na II Marcha Internacional contra o Genocídio do Povo Negro em 22 de agosto do ano passado, em Porto Alegre, dizíamos que marchavamos com os nossos mortos não era figura de linguagem.
Os dados estão aí, agora confirmados pela Anistia Internacional, 30.000 jovens negros são vítimas de homicídio por ano no Brasil e a pergunta que não quer calar é p/q esse fato não entra na análise de conjuntura de quem pretende transformar a realidade extremamente injusta do País?
No 20 de novembro, nos recusamos a participar da marcha oficial em Porto Alegre e construímos uma marcha independente, nos recusamos , mesmo tendo ciência de que seriamos acusados de divisionistas, por aquelxs , que para manter os seus soldos como serviçais da Casa Grande, são coniventes com a matança e transformam o nosso sofrimento em moeda de troca para manter a sua zona de conforto.
Descaracteriza-se o 20, como se descaracteriza as nossas expressões negras e populares à exemplo dos ícones do Carnaval Baiano, com o sorriso aberto ao lado do Governador Baiano Rui Costa enquanto o terror seguia no Cabula em Salvador.
Os massacres, chacinas e mortes são naturalizados, nossos corpos criminalizados e tudo se justifica numa conivência social com o genocídio.
Para nós, este é o principal fator da Conjuntura e é, a partir dele, que devemos dialogar com todas as outras pautas, pois, para andarmos de ônibus, lutarmos por salários, regularização fundiária, educação, cultura, garantia dos nossos territórios temos que estar vivos! pela redação Onir Araújo

Nossa Gente não tá Nem Aí: Para seu Carguinho, Seu Tutorial de Versinho, Seu Classificado de Editais e Sua Arrogância Acadêmica.

 

por Hamilton Borges dos Santos (Walê)

Cabula-walê 1Escrevi dias atrás sobre a truculência das Rondas Especiais (Rondesp), seu caráter genocida, a forma com que zomba da vida e da dignidade humana.

A Rondesp é uma polícia produtora e coletora de corpos pretos, agindo como uma ave de rapina e tem endereço certo em sua forma de agir: nossos locais de moradia, nossas comunidades, que nem sentem o cheiro das políticas públicas, que essa gente perfumada tanto fala nas intermináveis conferências que se faz nos intervalos do circo eleitoral.

Nossa gente vive sem a presença do Estado, com exceção do “ESTADO DE EXCEÇÃO” que a polícia incrementa.

A quem é endereçada a máquina de guerra do governo de Rui Costa, que age veemente na defesa do indefensável modus operandi de uma policia baseada no confronto, enfrentamento e morte, que afasta de si o principio da legalidade que o governador tanto reclama sem entender?

O Governo acha que nossa vida está em jogo. Jaques Wagner erigiu o baralho do crime inspirado nos Ases do Mal da guerra total americana.

Rui trata sua policia genocida como artilheiro num jogo de futebol. Tirar nossas vidas é um gol de placa: ele goza com os aplausos dos oficiais da polícia mais violenta do Brasil.

Nós, pretos e pretas, moradores de bairros populares, maconheiros, analfabetos e semianalfabetos, ex-detentas e mulheres de detentos, de detentas e ex-detentas, ex-presidiários, professoras, advogados, dentistas, trabalhadores braçais, uma imensidão de gente que sente rugir nas hemácias, no sangue historicamente derramado, o solavanco do colonialismo engendrado pelas falácias politicas de um governo de supremacia branca no Estado mais negro do Brasil somos, na visão desse governo, inimigo a ser abatido e eles, os brancos de todas colorações ideológicas, não poupam as escritas legais para justificar esse massacre. Os argumentos do governador sobre se tem ou não passagem, a rendição do Ministério Público Estadual aos apelos do governo, a hipocrisia de ativistas esquizofrênicos entre seus salários para nos amaciar nas ruas e invisibilizar nossa luta e enfrentamento criam um caldo em que não podemos mergulhar: NÃO É TUDO MISTURADO E PRECISAMOS SEPARAR A NÒS DOS TRAIDORES.Cabula-walê 2

A nossa dor sai do tambor das armas dos soldados  que os debatezinhos sobre CONSEG (Conferencia de Segurança Pública com Cidadania) ou a colaboração no PRONASCI fizeram girar.

Os cúmplices desse escândalo moral tentam tatear uma ideia de que fazem seu papel ao lado do inimigo, mas todas e todos sabemos a quem servem esses bocais, silenciosos na sombra da casa grande. Que faturem seus salários e aprovem seus projetos, mas não em nosso nome. Somos um Movimento de Maioria Negra filiadas e filiados a 4ª Internacional  Panafricanista.

Nesse momento de profunda dor, choramos a morte dos abatidos no Cabula. Mas também dos abatidos ainda no Viradouro em Cachoeira, no Beiru , na Liberdade, Vitória da Conquista e em toda essa Bahia mergulhada em sangue. Não esquecemos dos corpos tombados durante a eleição passada e sabemos quem se calou e entrou em choque com a Reaja para eleger o que está aí.
“VOTO NEGRO CONSCIENTE , DILMA RUI E OTTO PRESIDENTE”

 

Cabula-o-nome1A Reaja não se comove com esse choro hipócrita que não faz nada além de se lamentar na internet. A Reaja segue com os familiares de vitimas que estão ameaçadas por policiais, policiais estes que nos ameaçam em rede social.  Somos ameaçadas diuturnamente, através das redes sociais, telefones e no corpo a corpo. Queremos proteção pra todo mundo e agora e não uma viagem confortável a Brasília pra resolver nosso problema pessoal.

Já nos acusaram de Messias do Arrebento, dando a entender que nossa tática seria sazonal e que se perderia no limbo da cooptação ou no universo pomposo das palestras, encontros e coquetéis. Disseram que queríamos “nos aparecer” com nossa abordagem contundente sobre o escarnio que vivemos. Até aqui seguimos, já anunciamos nosso silêncio por não vermos mais sentido em cobrar do Estado o respeito a nossa dignidade. Mas somos chamados por nossas comunidades, ocupadas pelos poderio militar que muito preto e preta de mercado ajudou a construir.

Nossa gente nos chama para ser o muro de contenção nas manifestações justas que o tempo exige. Temos um comando que vem das ruas, somos o comando com nossas bandeiras pretas e nossas falas sem cabrestos. Não submetemos nossas dores ao calendário político-eleitoral. Nosso tempo de luta é agora e diante de tanta dor, sofrimento, sangue, corpos negros no chão, famílias negras sofrendo e chorando não podemos adiar nossa disposição de luta e mobilização a contento dos interesses diversos, se não do nosso povo.

A Conjuntura nos pede para prosseguir, organizar na base, refletir os rumos que devemos tomar daqui pra frente, proteger-nos dos ataques que disferem contra nós. Articular com irmãs e irmãos pelo mundo e com quem reconhece nossa luta cotidiana sem massagens. Agradecemos aos amigos e amigas que nos apoiam nessa dura jornada. Repudiamos quem ainda espera nos jogar nos ostracismo. Nossa visibilidade se dá pela imprensa branca da Bahia e pela imprensa negra e de combate do Brasil.

Criar invisibilidade sobre o nosso sacrifício é nos chamar de inimigos. Inimigos da REAJA, DA ASFAP E DA ASSOCIAÇÃO DE FAMILIARES DE VITIMAS DO ESTADO RACISTA BRASILEIRO, núcleos que formamos e que se preparam nas vilas, favelas e presídios para seu grande pulo.

Escrevemos sobre a Rondesp e seu longo rosário de execuções e mortes, agora,  falamos de nossos mortos, honramos nossos mortos chamando-os para que nos acompanhem nessa jornada por justiça, nossos mortos deixaram suas mães, irmãs , irmãos pais e avós sangrando na Bahia, foram vitima de um linchamento secular que nós combatemos agora vamos gritar seus nomes.

 

Tributo a Negro Blul e aos mortos da Vila Moisés

Contra o Genocídio do Povo Negro Nenhum Passo Atrás

 

 

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