A Morte de minha Avó no meu Carnaval de Menino!


máscara de morcegopor Ras Adauto

Foi num sábado de carnaval de manha que a minha avó Maria de Lourdes caiu mortinha na sala dos aposentos da Cabeça de Porco em que morávamos em Cascadura. Eu teria 5 anos de idade e nunca mais me esqueci do filme que passou na minha frente naquele dia.

Minha mãe aos berros com as vizinhas que acorreram para ajudar. E eu e minha irma sem entender patavinas do que estava acontecendo.

Vestiram minha Avó na melhor de suas roupas e a colocaram em cima da mesa cercada com 4 velas.

E eu não entendia porque a minha avó estava ali deitada e não terminava a minha fantasia de Morcego que ela estava fazendo para mim e que me vestiria no domingo de Carnaval.

Começou a chegar gente. Vieram os urubus da Funerária “Boa Viagem” trazer o caixão da morta e chegou meu pai do trabalho e trazendo a minha máscara de Morcego.

E durante aquele sábado todo, um povaréu se instalou na casa e fizeram o gurufim.

Mas eu rondava a mesa onde minha avó estava deitada, perguntando quando ela terminaria a minha fantasia, pois o meu pai já tinha trazido até a máscara. E por que a fantasia estava lá na máquina e ela ali deitada sem fazer nada?

Minha mãe tentou me explicar que a “vovó tinha ido para o céu e não podia mais fazer a minha fantasia”.

Fiquei pelos cantos emburrado até o dia seguinte na saída do enterro.

Domingo de Carnaval – Antes do enterro sair, corri até o portão, pois havia chegado o coche para levar a minha avó embora. Era um coche todo dourado e roxo, puxados por dois cavalos magníficos, um preto e um branco, com rédeas douradas, roxas, brancas e pretas e com estrelas prateadas nas testas.

Veio um berreiro lá de dentro da casa e surgiram vários homens, com meu pai à frente, carregando o caixão da morta. Passaram por mim no portão e quando iam colocar o caixão vinha vindo um bloco de sujo todo animado pela rua Felício. Quando viram o caixão sendo colocado no coche, pararam a fuzarca e ficaram em silencio. Os que tinham chapéus, tiraram e ficaram parados até o coche se movimentar. Aí, alguém deu um apito e um bumbo bateu três vezes e voltou a fuzarca. E lá se foram eles, o Cortejo fúnebre e o Cortejo momesco descendo à rua Felício até sumirem lá embaixo.

Voltei para dentro de casa e coloquei a minha máscara de Morcego e retornei para o portão. Mas era uma folia sem graça naquele domingo cheio de Carnaval.

Isso foi há 60 anos atrás, na Rua Felício 33, em Cascadura.

Negra Panther.

imagem/art: “máscara da fantasia de morcego”

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