A Conjuntura Negra Brasileira, ou onde é que o calo dói


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Marcha contra o genocídio do jovem negro, Vitória, Espírito Santo, 2014 foto: André Alves

por marcos romão

As análises de conjuntura política da sociedade brasileira feitas por vários amigos e amigas, ativistas ou acadêmicos ou os dois juntos do Movimento Negro, são ótimas, qualquer facção de extrema esquerda de qualquer partido de esquerda, ou setor do Movimento Negro de ultra esquerda assinaria embaixo sem piscar.

Temos sido nestes vinte anos a “borra da borra” do café dos setores de esquerda do Brasil, buscando paralelo no conceito branco ” creme do creme” , quando nos referimos ao que teria de mais puro e genuíno em um “processo revolucionário”. Isto se revelou muito bem nas últimas eleições para presidente, em que no primeiro turno o racismo e as discriminações sociais, econômicas, de gênero e religiosas, das quais no Brasil em especial, este mesmo  racismo é o motor e a matriz, ganhou lugar de destaque nos palanques, na grande imprensa e nas redes sociais.

Esteve subjacente nos discursos de todos e todas as candidatas no primeiro turno a questão racial, ora clara, morte de jovens negros, ora camuflada em discriminação ao “nordestino”, vis a vis, preto e índio, e não os brancos Collor, Cids e Sarneys que também são nordestinos, ou no ataque aos médicos cubanos, que são iguais a pretas empregadas e porteiros de prédio, e não aos médico argentino Che Guevara ou “jesuíta” espanhol Fidel Castro, no imaginário branco nacional.

Vimos desde ruivinhas de cabelos encaracolados, passando por louras de cabelos laqueados, até narizes de ferro, dizendo nos palanques que tudo fariam pelos mais pobres, em resumo os negros. Vimos também o tempo todo nas redes sociais, que as discussões foram centradas nas discriminações em geral, contra ou a favor das cotas, contra ou a favor de homossexuais, ou contra ou a favor da pena de morte, e contra ou a favor de bolsa família e planos sociais. Subjacente a todos este temas, o racismo e a questão racial podiam ser vistos sem lupa. Nunca vi uma campanha em que o racismo estivesse tão escancarado, tanto nos palanques quanto nas ruas e redes sociais. O voto negro “amorfo” e sem pai nem mãe decidiu ao fim e ao cabo as eleições no segundo turno. Amorfo, desesperançoso, desesperado, mas um voto que foi consciente, na escolha entre qual seria o melhor carcereiro, ou o carcereiro mais brando, na falta de escolhas

Mal ou bem nosso discurso do Movimento Negro dos 70 prá cá, tomou conta do mercado de almas eleitoras nas últimas eleições. Voto por falta de opção, somado com nulo dados ou não dados pelos negros decidiram a a eleição na reta final.

Aos que pensam que faço uma análise megalômana da “força negra” e do racismo no Brasil, respondo, que é mais uma constatação trágica, pois os marqueteiros e ideólogos brancos, conhecem mais esta força do que nós do Movimento Negro, e  usaram este conhecimento para si e os partidos para os quais venderam o “Produto Negro”.

Eles fizeram uma análise da conjuntura nossa, os negros, analisaram todo tempo a “nossa conjuntura” e nosso estado depauperado de conhecimentos e propostas globais e nacionais. Analisaram nossos fraccionamentos, e ignorância teóricas, e a antropofagia do cafre ad eterna que “eles” sabem muito bem manipular.

O mote do branco do Brasil poderia muito bem ser parafraseado de Alexandre Herculano pelo neocolonialismo brasileiro: ” O negro passou a ser nosso melhor escravo, depois que deixou de ser escravo nosso.”

Uma análise da conjuntura nossa é o que falta ser realizada por nós.

Onde estão, e nas mãos de quem, por exemplo, os nossos milhares de jovens ativistas e ou acadêmicos, nossos cérebros novos, em resumo?

Nos setenta éramos quantos, 100, 200 em todo o país, ativistas negros e negras mostrando a cara? (ressalto aqui, negros que podiam mostrar as caras, pois os mais velho estavam obrigados a se esconder ou por perseguição ou medo de perseguição). Nós, esta pequena centenas de jovens nos 70 e início dos 80 éramos inocentes e não sabíamos o poder que enfrentávamos, por isso ao contrário dos mais velhos mostrávamos nossas caras.

Sorte ou tática, não sei, o poder não sabia lidar com esta batata quente, que era “esse pessoal” atacando a “democracia racial”. Sorte nossa que tanto o poder ditatorial, e as esquerdas, nos achavam café-com-leite no espectro político nacional, e quando muito imitadores de “Blackies Americanos”.

Éramos para o Brasil um monte de macaquinhos sem cérebro dançando Soul nos subúrbios e nada mais. Nem na telinha aparecíamos. Ainda bem que tem o acervo do TELÃO NEGRO da NGURARIJO da Vick e do Ras Adauto, incorporado hoje pela Cultne para provar que não falo de fantasias.

Estes espaços eram os lugares de aprendizado político, em que os “um pouco mais velhos” passavam para os “um pouco mais jovens”, conhecimentos sobre a autonomia de nossa luta nacional contra o racismo e restruturação do Brasil sobre novas bases, em que tenhamos a igualdade política plena. Base que para que tenhamos avanços que nos garantam conservar, sem depender da boa vontade de governos, conquistas políticas e sociais, que tenhamos alcançado.

Dos 90 para cá, os jovens negros perderam seus espaços de discussões autônomas para se alimentarem das demandas engendradas nas discussões entre negros. Nossos cérebros caíram de boca nos partidos, sindicatos e academias.
Para não falar do que conheço pouco, cito apenas o exemplo do Instituto de Pesquisas das Culturas Negras e Sos Racismo, que conheço muito. São exemplos de como praticamente todas a entidades negras existentes até então, foram aniquiladas pela nova conjuntura do Movimento Negro em busca de espaço nos partidos e administrações governamentais.

Onde estão hoje os jovens negros “cerebrais”, que agora já não se contam às centenas e sim milhares neste Brasil?

No Rio de Janeiro em que eu frequento o movimento social e as manifestações desde a Rio+20, vi negros e negras empunhando bandeiras das mais variadas tendências partidárias ou não, em meio a jovens brancos na linha de frente. Nada melhor para um foto mediática, do que um carvãozinho com cabelos crespos no meio de coxinhas brancas.

Quando a cobra fumou, preto com ou sem culpa foi quem dançou e não teve habeas corpus que desse jeito.

Nas academias tenho visto a “borra da borra” do café intelectual negra. Estudos avançadíssimos e de nível internacional têm sido realizados.

Nos organismos de governos tenho visto negros e negras jovens que Franz Fanon iria se admirar de tanta erudição.

Mas ao fim e ao cabo tenho visto jovens negros em todo o país, com um bom arcabouço político e analítico sobre a conjuntura nacional e internacioanal, mas que não sabem, simplesmente não sabem o que fazer, quando discriminados na porta de um banco ou de restaurante ou supermercado, nem encarar um policial ou funcionário do SUS ou Seguro privado, que lhe retiram a dignidade ao lhe darem um baculejo, recusarem a entrada, ou recusarem um serviço a que tenham direito como cidadãos, que pagam e caro pelas migalhas que conquistaram!

E os velhos, ou os antigos, como tem uma garotada moderna e “afrocentrada” nos tem chamado. Onde é que está este pessoal com experiência acumulada na luta negra brasileira?
Nas redes sociais vejo poucos. À exceção de uma ou outra sessão de prêmio ou homenagem memorial, vejo poucos na vida pública. Ou estão nos seus escaninhos continuando seus trabalhos de formiguinhas conscientizadoras, ou desistiram e volta e meia postam fotos de netos no facebook, ajudados pelas netinhas que entendem desta máquina.
Os antigos pagam um preço bem caro por esta falta de espaço próprio para conversar sobre conjuntura negra e outras hipocondrias.

Mas acontece que a conjuntura, a vida, pois não existe conjuntura sem existência e ação individual ou de grupos, está aí. Florescente como jamais vi, ou nunca antes, como costuma dizer um branco, que soube muito bem usar a “força negra” para seus propósitos individuais e partidários.

Felizmente os velhos ou antigos negros de hoje, não têm um quadro do novo Getúlio na parede de casa. Os tempos mudaram;

A garotada está pululando, tá agitada. Claro que ainda estão nas mãos das tendencinhas guetistas dos partidos e do Movimento Negro, é natural, faz parte da seiva da vida política. O vírus da CS (convergência socialista), inoculado em 1978 no Movimento Unificado Contra a Discriminação Racial (MNUCDR) deu filhotes, e hoje todos os grupos e tendências imitam este erro de nascença, e se especializaram em pescar negros jovens ” revoltados”, de forma acrítica para suas ideologias ou interesses dentro dos partidos. Importante ressaltar que estes negros e negras “cerebrais”, acabam caindo nos guetos de tendências nos partidos, que não têm nenhuma expressão, poder ou voto no direcionamento dos partidos onde estão. Mesmo quando se tornam candidatos a cargos eletivos majoritários, são apenas efeitos simbólicos para interesse dos partido onde estão. Gastam suas granas de de suas famílias, para colherem a frustração da derrota. E quando pior, passam a se revoltar contra a política em geral em se tornam um zero a esquerda no processo de influência sobre a conjuntura nacional.

Não acuso estes jovens. Tiveram a quem imitar. Tiveram os exemplos anteriores de muitos negros e negras que eleitas desde 82, se destacaram no discurso conjuntural disso ou daquilo, mas se afastaram de suas “conjunturas negras”, se afastaram das cosmogonias e mundo negro que os elegeram. 2014 foi uma ultrassonografia cibernética de alta tecnologia, revelada nas redes sociais, do distanciamento corporal e físico, entre as cabeças dos negros e negras cerebrais “antigas”, e o corpo negro e jovem revoltado do país.

Salvo um ou outro piado não compartilhado e não repercutido nas redes sociais, imprensa e nas ruas, nossas “cabeças cerebrais negras” eleitas, em cargos acadêmicos, vestidos de lideranças sindicais ou partidárias não perceberam que haviam os “corpos” de uma Cláudia “Arrastada”, ou um Amarildo “Desaparecido” na tal de “Conjuntura Nacional”.

A conjuntura política negra viveu neste momento seu ápice esquizofrênico iniciado lá em 1978. Nossas cabeças cerebrais ficaram sem saber o que dizer e como agir. Ficaram sem saber o que dizer, não porque não estivessem revoltados e não soubessem como agir. Nossas cabeças cerebrais eleitas ou  nos guetos partidários, precisaram antes ouvir uma ordem de seus partidos ou tendências sobre o como agir. Eram seus calos que doíam, mas precisavam antes ouvir um diagnóstico dos seus líderes brancos, de que dedo era a dor que eles deveriam gritar.

Leões sem dentes, esqueceram, que pessoas do movimento social participa dos partidos para levarem as reivindicações dos seguimentos que os colocaram lá. Sem dentes e frustrados, passam então a dar patadas no movimento social que esqueceu que eles existiam. Pois a CONJUNTURA  de quem o calo dói é sempre outra.

Uma pista para análisar a conjuntura negra atual no plano nacional, para saber quem somos nós, negros e negras neste novo momento político. Pode-se procurar ao se fazer uma fotografia dos votos na Rocinha, no Rio de Janeiro, a favela que engoliu Amarildo.

Lá os dois deputados mais votados foram pessoas de espectros políticos opostos, o Bolsonaro e o Freixo. Um pertence à área de defesa dos direitos humanos, outro à turma do prende e arrebenta.

Se cruzarem o número de votos que um candidato a cargo federal e outro a cargo federal tiveram, podem chegar à conclusão que grande parte de votos dos dois, foram dados pelas mesmas pessoas.

Seria um paradoxo? Seriam votos de ignorantes políticos e inconscientes raciais do que estão fazendo e querendo?

Vejo isto como uma análise apressada. Poderia dizer que votaram na indefinida cidadania com direitos e humanos e na indefinida “segurança com porrada” que lhes foram apresentadas, quer nas ruas, quer nas redes sociais durante a campanha eleitoral. Os dois “brancos” estavam falando sobre os calos que doem para todo mundo, brancos, pretos e índios. Falaram de direitos humanos e segurança, cada um a seu jeito, e abocanharam as cabeças negras. Simples assim.

Do nosso lado, o silêncio sepulcral de nossos e nossas Capa-Pretas sobre os temas da ” Conjuntura Negra”, resultou esta catástrofe nas eleições proporcionais em todos os estados do Brasil. Catástrofe que é representada crua e nua na composição dos secretariados e ministério, dos estados e do planalto. Não temos representação negra. Perdemos, ou demos de mãos beijadas, o quase nada que conquistamos em 45 anos.

Os negros que chegaram ao parlamento foram eleitos por seguimentos religiosos. Eles também prometem aos seus eleitores, segurança na terra e direitos humanos no céu. Ganham fácil o nosso voto.

Ao contrário do que pregam alguns de os nossos intelectuais negros, ativistas ou acadêmicos, ninguèm gosta de estar “entregue própria sorte”. Em nossa vida individual e cotidiana em nossas famílias e círculos de amigos, nos agarramos no que pudermos para sobrevivermos junto com os nossos.
Mas e nossa conjuntura negra, como é que vai?

Como avô negro me preocupo com três coisa básicas.

1- Se cada um membro de minha parentada, inclusive eu, espalhada por várias cidades, chegamos vivo ao final do dia.

2- Se vai ter café da manhã prá todo mundo e se ninguém vai ser despejado, ter luz ou água cortada e ou ter penhorada sua televisão, por falta de pagamento.

3- Se nenhum dos filhos ou filhas de amigos ou amigas de e amigos de amigos, não foi preso, maltratado ou eliminado pelas forças policiais, ou assaltados e mortos por eles, ou pelo seguimento chamados de bandidos “puros” e “autônomos”.

Com estes três itens prescrutados e acalmados, tenho então algum tempo para pensar nos meus vizinhos, na minha cidade, no meu estado, no meu país e na Conjuntura Mundial; Sem estas coisas básicas não passo de de um analista platônico da minha vida. Não passo de uma bolha flutuando para onde o vento me leve. Saber disso aumente a minha consciência de cidadão de um mundo globalizado.

Por sorte, converso volta e e meia com o meu peixeiro de poucas letras, o Bahia, de nome, não de apelido, como os negros espertos e falantes, costumavam serem chamados no Rio dos 60. Vejo, que ele tem sempre uma resposta na ponta da língua, para explicar a sua visão do particular de sua vida, e de sua visão do plural do mundo.

Me disse noutro dia: ” Tá ruim mas escolhi, podia ser pior”. Ao resumir como estava situação nacional e internacional.

Com sua tirada, eu não poderia encontrar melhor análise da conjuntura do negro brasileiro no atual momento.

“Disse tudo”, diria minha sábia jovem sobrinha.

“Voltar às raízes”, eram um mote do movimento negro na década de 70.

” Não deixar cortar as árvores plantadas”, diria eu em 2015, ao propor uma nova análise da conjuntura em que vivem os negros e negras no Brasil atual.
Não tem que esperar solução de algum governante para o futuro.

Estou engajado há anos na luta contra o morticínio e genocídio do jovem negro no Brasil. Tenho que reconhecer que ao contrário do Mão Branca de 70, quem nos executa hoje são mãos pretas a serviço do racismo branco. Os executores e os mortos são pretos. Não os distingo entre policiais ou bandidos. Numa sociedade menos racista, todos nós negros e negras teríamos uma maior expectativa de vida, sejamos policiais, bandidos, ou meros cidadãos debaixo do fogo cruzado. Somos todos prisioneiros do mesmo gueto que nos empurra a matarmos uns aos outros.

Esta é a conjuntura básica em que vive a pessoa negra brasileira, seja em que seguimento ou classe a que pertença;

Para que tenhamos uma visão da conjuntura nacional como um todo. Temos que saber o que queremos todos e e todas, aqui e agora, temos que tomar  conhecimento da diversidade e riqueza que nós somos. A solução para as dores, as mortes, a tortura e os maltratos,  nos será apresentada por todas as idéias de todas estas gentes negras e antirracistas.

Ou botamos os dedo em nossas feridas e a tratamos, ou os “outros” vão continuar jogando fel em nossos machucados, dizendo que é bálsamo dos deuses.

Comecemos a nos reconhecer e a nos respeitarmos.

Não batamos nem deixemos que batam em nosso e nossa companheira e companheiro.

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3 pensamentos sobre “A Conjuntura Negra Brasileira, ou onde é que o calo dói

  1. Dá-lhes Romão. Texto oportuno. Chamada geral à razão. Estamos junt@s sempre nessa pregação de que é preciso nos olharmos nos olhos, sabermos de fato com quem, para quem e sobre quem estamos falando. Definir estratégias e desencadear ações coletivamente, ainda que com divergências. Mas precisamos ter “escureza” de que é essa nova rapziada que vem chegando que vai assumir as principais responsabilidades da luta contra o racismo/Promoção da Igualdade racial/Contra o viés racial das Desigualdades sociais, e vai por aí… Que tal apresentarmos o IPCN a elas e eles? História e Estrutura bem digeridas e dirigidas não fazem mal a ninguém – podem vir de qualquer partido, sindicato, governo. O principal, como dizia Amilcar Cabral é reunir as pessoas com sangue nos olhos, consciência e paixão revolucionária.

    • Vamos continuar conversando e ampliar a discussão para mais e mais gente, caro Amauri Pereira. Seu livro “Pa além do racismo e do antirracismo, a proudção da Consciência Negra na sociedade brasileira”, pode ajudar em muita as discussões.

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