O Bacalhau encantado, o sacerdote abissínio, e o inexplicável


por Jones Almeida***

Jones Alberto de Almeida

Jones Alberto de Almeida

Neste 11 de de janeiro de 2015, o relógio me acena que só eu o reconheço às 01:30 h. O sono é sagrado, mas parece haver algo além do sagrado que não vislumbro e que me impede de dormir. Temor e tremor. Como um Kierkegaard sub equatoriano busco as causas desta insônia rara. Revisito o dia e indago que mistério afetou minha alma . Ela esboça um sobrolho pensativo e sugere num sussurro – o Bacalhau Encantado.

Sim, agora tudo faz sentido, somente a experiência incomum, numinosa*, do encontro do dia anterior na casa do meu amigo Romão, poderia provocar este arrebatamento em minha alma, que se recusa a abandonar a vigilia. Explico, para os desconhecidos. A cerimônia do bacalhau encantado consiste em um ritual que todos os convidados consomem um bacalhau, que possue o predicado da eternidade, por ser indestrutível.

Apesar de ser devorado desde os primórdios encontros por seus adoradores ele permanece sempre o mesmo e nunca acaba apesar de, na realidade sensível, desaparecer dos pratos em que foi generosamente servido.

Se trata de algo incomum, de um fenômeno que demanda uma profunda exegese. Peço auxílio, suplico aos áulicos , recordo os filósofos, grito ao Uno de Parmenides, as Formas de Platão, imploro a eternidade do marrano Espinosa. Nada alivia a queståo  – o enigma,  o paradoxo do bacalhau encantado.

O Bacalhau Encantado

O Bacalhau Encantado e o Sacerdote Abissínio

Reflito que a Psicologia possa contribuir com seus inumeráveis conceitos, mas a tentativa, também resta infrutífera . Talvez a explicação possa ocorrer na idiossincrasia do fenômeno , ou seja, na dimensão mágica do ocorrido, na psique do anfitrião que elaborou o convite , em seus poderes paranormais (vejam a foto ao lado, onde ele surge paramentado de sacerdote abissínio).
Revejo a complexa personalidade do meu amigo Romåo. Descendente de coloniais franceses, lambuzado de negritude brasileira, recém chegado em nossas terras após 25 anos de imersão na cultura alemã de Hamburgo. Sem nenhuma dúvida , no que se relaciona a preocupações ontológicas com o erro, deveria portanto se tornar o nosso último hegeliano, no entanto, o que vemos é que ele se recusa a decretar o fim da historia no vazio ávido de sua própria consciência.  Mais do que isso ao tentar ultrapassá-la, parece ainda querer conservar na síntese final a tese inicial, ou seja, o bacalhau não pode ser destruído pois na negação ativa, efetuada na luta e pelo trabalho, daqueles que o consomem desde os primórdios ele é o que é, ele permanece em seu devir.

Não conseguimos consumi-lo porque não estamos  satisfeitos plenamente com o real. Deveríamos concluir que ele é o portador do Dom é aquele que impede que a Historia termine, pois nos incita com seus convites , que são irrecusáveis, demonstrando em nossa ação incessante a  insatisfação de nossos desejos.

A busca de uma explicação pragmática, fora de uma leitura quase mística destes acontecimentos poderia nos servir melhor? Foi o que tentei realizar ao analisar o encontro em si mesmo, aplicando o método etnográfico, descritivo de Marcel Mauss.  Aceitei as prerrogativas dos nativos da Polinésia , o ensaio sobre o Dom. Revisitei as regras da generosidade – dar, receber e retribuir.

O problema com esta tese é que ele tem como pressuposto que não há uma deliberação individual para o encontro. Nós, entretanto, acredito que fomos ao encontro com a intenção de contribuir para a não extinção do bacalhau, pois somos racionais e sabemos que o bacalhau não tem o predicado da eternidade. Porém o que percebi é que todos vieram e aquele que não veio teve a casa inundada. Punição ?

Outro fato que parece impor uma reflexão sobre a nossa autonomia e liberdade de ir ou não ao encontro, é que se não existisse algo imperioso sobrepondo- sem a nossa vontade o encontro pareceria impossível. Senão, vejamos:

No dia do encontro marcado fazia um calor infernal, a canícula estava senegalesca, a distância impossível de transpor ( o local não possue aeroporto disponível), devido aos serviços precários de transporte.

Os convidados não se conheciam, o sal do bacalhau é impeditivo para os hipertensos e muitos eram portadores da patologia.

Pior de tudo o local não facilita o acesso, pois o prédio não tendo porteiro ou campainha, obriga que os convidados fiquem gritando o nome do anfitrião debaixo  de uma temperatura de 50 graus.

Quem conseguiu ser atendido, viu que a porta se abriu sob o comando de um sacerdote abissínio, que mais tarde descobri se tratar de uma das faces do meu amigo Romåo.

Refleti sobre a improbabilidade do encontro e pensei estarmos sob algum efeito mágico – um constrangimento coletivo? Também não parece esta hipótese ser esclarecedora, pois estavam todos satisfeitos em estar ali – algo parecido com aquela tese de que sou livre quando aceito as leis que eu mesmo me dou.

Em suma, a ida ao bacalhau encantado não foi uma deliberação individual nem um constrangimento coletivo. O que, então, explica o fenômeno?

***Jornes Alberto de Almeida. 62, sociólogo, filósofo, professor e cardiologista, auscultador de chaves de portões sem endereço fixo em vários mundos.

* Numinosa:  Segundo a filosofia da religião de Rudolf Otto, aplica-se ao estado religioso da alma inspirado pelas qualidades transcendentais da divindade.

 

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3 pensamentos sobre “O Bacalhau encantado, o sacerdote abissínio, e o inexplicável

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