” Casa da Vovó”, é como os torturadores expressam suas saudades dos porões da ditadura; O Doi-Codi.


“A Casa da Vovó” é a forma como era chamado o DOI-Codi por muitos dos militares que trabalharam no local, porque, segundo eles, “lá é que era bom”. Livro relata história do órgão e tem com relatos de 25 agentes.

fonte: Deutsche Welle

Mais de cinquenta anos depois do golpe, há militares que ainda se orgulham das torturas realizadas durante o regime, disse o escritor Marcelo Godoy, em entrevista à DW Brasil.

O jornalista acaba de lançar o livro A Casa da Vovó, fruto de mais de dez anos de pesquisa sobre o DOI-Codi em São Paulo, um dos principais centros de tortura do regime. Subordinado ao Exército, o órgão de inteligência e repressão política foi criado em 1969 – a princípio com o nome Oban (Operação Bandeirantes).

Até hoje, afirma Godoy, muitos dos militares que passaram pelo DOI preferem chamar o local de “Casa da Vovó”, porque, segundo eles, “lá é que era bom”. O jornalista ouviu, para a sua pesquisa, 97 pessoas, das quais 25 agentes que trabalharam no Destacamento. Para eles, os tempos passados no DOI são “memoráveis”. Nas entrevistas, os agentes descreveram a morte de 66 pessoas, dentre as quais 39 sob tortura após a prisão.

DW Brasil: Você conversou com muitos agentes. Eles se arrependem dos seus atos?

Marcelo Godoy entrevistou agentes sobre torturas

Marcelo Godoy: Todos eles se justificam. Mas alguns ainda têm muito orgulho do que fizeram e dizem que fariam de novo. Outros, apesar de conviver com fantasmas, não buscam denunciar publicamente o que aconteceu.

Eles usavam termos como “viajar” para se referir ao assassinato de alguém. Esses eufemismos eram apenas códigos ou serviam para amenizar o que faziam?

Eles sabiam muito bem do que se tratava. Eu acho que há uma tendência desses grupos de criar uma linguagem. O vigiado era “paciente”, o torturado era “cliente”. Havia um glossário, um léxico, até como forma de identidade. O “açougue” e a “Casa da Vovó” eram o local de trabalho. Isso é extremamente revelador. Tem um grau de deboche e de normalidade burocrática nisso.

No livro você relata que foi ameaçado. A pessoa diz que “essa época” não passou, se referindo à ditadura. O que isso significa?

O que ainda não passou é o sequestro intencional da verdade. Organizações militares se recusam a entregar documentos e a falar o que sabem, como uma forma de preservar indivíduos ou instituições. Mas essa salvaguarda de um assunto sigiloso, 40 anos depois, não me parece razoável, nem justificável.

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