Professor e Pesquisador Negro do IPEA sofre perseguição racista, leva um ” MATA-LEÃO, e é preso por Policiais Civis do Distrito Federal.


 OPINIÃO

Mata-leão, puxões, chaves-de-braço, este é o dia à dia dos negros brasileiros frente às forças policiais do Estado Brasileiro. Prendem e arrebentam para depois perguntar. Qualquer semelhança com o caso Eric Garner nos EUA, morto com uma “gravata”, não é mera coincidência, é a crua realidade.

Não fossem as Redes Negras Étnicas de Comunicação que se espalham pelo Brasil, como o “Correio Nagô“, ninguém tomaria conhecimento, das humilhações, constrangimentos, agressões e violências por parte de policiais, que o professor universitário Carlos Alberto Santos de Paulo sofreu na tarde e noite da última sexta-feira (12/12), justamente no Distrito Federal, a capital da República;

A grande imprensa brasileira “baba” de prazer ao relatar com falsa solidariedade, os conflitos raciais e as mortes de negros que acontecem nos EUA. Violência contra o negro no Brasil. é assunto só para as páginas policiais e programas de televisão e rádio com apresentadores jornalistas que bebem sangue de negros.

A frase mais ouvida nos últimos tempos por parte dos jovens negros no Brasil é a de que  “o negro brasileiro está entregue à sua própria sorte”.

As últimas campanhas políticas no Brasil se caracterizaram por uma ferocidade racista jamais vista a olho nu nas redes sociais e nos papos em botecos e churrascos da “elite branca” brasileira.

Se temos crise econômica é porque os pretos recebem “boca família”.

Se tem o “mensalão” e “petrolão” e por roubalheira e boquinhas executivos brancos vão para os xilindrós, lugares até então reservados para negros e brancos pobres, só pode ser por conta da tal da cota…

A perversidade do racismo brasileiro chega a tal ponto, que quando governadores e a presidente da república anunciam que vão se associar para darem mais “segurança” à sociedade, as mães negras tratam de esconderem seus filhos menores, pois sabem que o jargão “segurança nacional para todos”, usado pelas autoridades desde 1960 até agora no alvorar de 2015, significa insegurança para quem não faz parte do “Clube do Todos”, os pretos os índios e os pobres.

Em uma favela ou bairro de periferia, a palavra segurança por parte das autoridades, significa “licença para polícia matar” em nome do Estado. Significa containers improvisados em salas de tortura, assassinatos e execuções em nome de um Estado em que negro, índio e pobre está fora. As balas se perdem nas cabeças de nossos jovens negros e o silêncio sepulcral da grande imprensa ensurdece e ensandece a nação.

O Estado e a grande imprensa incita a violência contra os negros e as populações dos campos e periferias, como se fosse a coisa mais normal do mundo.

Esta política só tem um objetivo, tornar todo e qualquer cidadão, inclusive negros, em um potencial linchador de negros, por medo de que aconteça algo à sua família e por não poder vislumbrar que vivemos em um sociedade extremamente racista.

Uma pequena classe média negra que se formou nas franjas do desenvolvimento econômico dos últimos 2o anos, foi engabelada ao ser convencida que o racismo acaba com melhoria econômica e que seria melhor não falar do racismo, para não despertar mais racismo.

Foram 20 anos de política em que os negros se repetiam, “se não nos mexermos, o cachorro do racismo não nos morde”.
Felizmente este mantra da autocomplacência com o racismo que cada um sofre, estimulado pela imprensa com seus “pelés” de plantão, começa a ser rompido.

O exemplo do goleiro Aranha foi um ato único, foi um gesto jamais visto de um negro famoso que em seu lugar de trabalho, deu um grito de basta ao racismo. Muito negro e negra que vem sendo humilhado amorosamente por seus colegas de trabalho, seja na faxina de um de um prédio, seja no corpo docente de uma escola ou até no STF, devem ter se alertados que é possível reagir ao assassinato de caráter que cada negro sofre a partir do momento em que nasce no Brasil.

Correio Nagô nos  traz este relato pungente e corajoso de um professor universitário negro.

Está na hora de todos nós negros e negras irmos para as ruas com um “habeas corpus preventivo”, contra “mata-leões, torturas, assassinatos e desaparecimentos.

Se a sociedade brasileira não quer ver , nós negros e pessoas de todas as cores que sejam antirracistas, somos obrigados a vermos e denunciarmos o genocídio do negro brasileiro, iniciado nas campanhas de desfavelização das cidades (vide Lagoa Rodrigo de Freitas em Ipanema) e que hoje assume um refinamento e crueldade jamais visto na história dos negros do Brasil República.

Nem na escravidão se matava tantos negros como hoje em dia. Na escravidão servíamos para carregar os senhores e senhoras. Hoje servirmos para o estado a cada dia justificar a compra de mais armas, aumentar os efetivos policiais e consagrar sua política genocida de todo um povo e tantas culturas. Marcos Romão- Editor da Mamapress e coordenador do Sos Racismo Brasil e da Rede Radio Mamaterra.

Professor universitário e Pesquisador do IPEA sofre perseguição racista e é preso por Policiais Civis do Distrito Federal.

 

O professor  universitário e  técnico do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas Carlos Alberto Santos de Paulo, compareceu hoje (15/12), às 14h na sede do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios – MPDFT, para formalizar denuncia contra quatro policiais civis. A acusação leva em conta episódios ocorridos na tarde e noite da última sexta-feira (12/12).

Com 52 anos, Carlos Alberto, que é negro, foi sem motivo algum interceptado por uma viatura da policia civil descaracterizada, quando dirigia seu carro, modelo Tucson, nas imediações da QI 23 do Lago Sul, área nobre do Distrito Federal.  Após sofrer revista truculenta,  este informou aos policiais que registraria a ocorrência no 30º Distrito Policial de São Sebastião.

Mantendo a calma e já no estacionamento da delegacia, Carlos Alberto  que possui  mestrado e doutorado (recém concluído na Universidade de Brasília) na área de políticas sociais e é colaborador do Grupo de Trabalho de combate ao racismo da Polícia Militar do DF, GT  criado  após a revista humilhante e ofensas racistas sofridas pela advogada Josefina Serra, em 7/10 na Esplanada dos Ministérios. Foi imobilizado com um “mata leão” e algemado sendo então impedido de usar seu aparelho celular durante todo o tempo em que esteve preso.

 

A vítima, que também é militante histórico da pauta racial no Brasil, conta que “ao delegado de plantão, Claudio Rego Pantoja, os policiais o acusaram de direção perigosa. Forjaram um crime que não cometi, inclusive porque a via estava totalmente congestionada naquele final de tarde”.  Após todas as situações de humilhação ocorrida no transito e até a chegada do delegado, a vitima nos relatou que “Decidiu levar a denúncia adiante porque este não é um fato isolado; tem sido uma prática freqüente e o Estado precisa tomar atitudes: melhorar a formação de seus quadros e coibir a truculência das forças policiais que prestam um serviço público. O sentimento, de profunda revolta, hoje toma conta dos meus familiares e amigos”, acrescenta.

Abaixo depoimento da Vitima

Bom dia todos(as)

A mensagem deve ser curta e definitiva. Ontem ás 18h15, me dirigia para casa, sentido QI 23 ao Condomínio Belvedere Green, transito totalmente engarrafado, na altura do Mac Donalds, há uma rotatória, estando eu parado no engarrafamento, eis que surge um veículo com 4 jovens brancos dentro, sendo um casal na parte da frente do veículo, pedem passagem, insistentemente, alego não ser possível dar ré no carro para que eles possam passar. E conformo isso é a realidade de Brasília, nisso sigo na direção do acostamento para sair do fluxo emperrado. Após alguns metros o mesmo veículo, me interpela com os jovens com arma em punho e pede que me posicione para ser revistado, mãos entrelaçada na cabeça, pernas afastadas. Pedem em seguida minha habilitação e documento do carro, pergunto qual a alegação, pede para eu ficar calado, e me pergunta quem você pensa que é? Respondo: -Um cidadão.

 

Em uma última olhada, alegam que minha habilitação está vencida( data de validade 28/11/2014) portanto dentro do prazo administrativo tenho um mês para regularizar. Insisto qual a alegação do procedimento autoritário e pergunto a lotação dos agentes , um deles informa 30 DP, em seguida entram no veículo de placa JHF 9124.

 

Decidi não deixar essa situação passar impune, me dirijo a 30 DP, em São Sebastião, o que sou acompanhado de perto pelos supostos agentes, ao adentrar o estacionamento eles entram também e o mesmo agente, vem em minha direção e pede que eu estacione direito o carro, faço sem contestação( importante ressaltar que o meu carro estava afastado da faixa amarela algo em torno de 20 a 30 centímetro. ao descer meu objetivo era de registrar uma ocorrência contra o arbítrio da abordagem, o mesmo agente fala para mim que ele não havia me autuado, mas agora ele o faria . . Pergunto qual a alegação, ele pede minha documentação, eu informei que só a apresentaria ao titular da delegacia, ele me aplica uma chave de braço, momento em que me desvencilhei com relativa facilidade, mas dois outros agentes descem as escadas da delegacia já com as armas em punho e o referido agente me aplica um manta leão e diz que usaria a força, sou levado até o local em fica os presos e o mesmo agente pede que me algeme, nesse momento ainda com o telefone, ele me subtrai e peço que me devolva ele alega ser procedimento.

 

Como havia conseguido falar com o Coronel da PM Marcos de Araujo, ele ligou para o comando local que por sua vez informou que eu fazia parte de um grupo de Trabalho na PMDF, o delegado titular Dr. Wellington, não estava na delegacia, por 1h fiquei algemado, após esse período um outro delegado jovem apareceu Cláudio Rêgo Pantoja, me perguntou por que eu estava algemado, apenas solicitei que ele perguntasse aos seus agentes. No que o mesmo tirou as algemas e pediu que eu sentasse em uma cadeira. Perguntou o que aconteceu informei que havia sido vítima do abuso e despreparo dos agentes, ele disse que eu havia feito manobra perigosa no transito. Em seguida foi conversar com os agentes.

 

Após mais 1h fui dar meu depoimento, e o delegado foi muito cordial informando que ele muitas vezes é vítima da grosseria das pessoas que vem até a delegacia e que mesmo ele sendo policial delegado quando abordado mantem uma serenidade. Informei para ele que tenho a mesma conduta, mas há agravantes, há o racismo como parâmetro. Ele me perguntou se eu já havia presenciado uma abordagem policial em São Sebastião, disse que não era preciso, o modus operandi é o mesmo, mas naquele caso se tratava do lago sul e não lembro de ter visto algo assim, apesar de morar há muitos anos ali.

 

Após o depoimento ele me sugeriu ir no IML, para registro, conversei com o Coronel, brevemente por que meu celular estava descarregando, segui algumas orientações, liguei para o Promotor Pierobom, que fez algumas considerações e perguntas como ele entregou a cópia da ocorrência, não, apenas me entregou um termo de compromisso de comparecimento e um memorando para encaminhamento para o IML, que não adiantou muito, lá apenas o agente me perguntou se eu estava com algum hematoma, pedi para que ele fizesse um exame toxicológico e ou bafômetro, ele alegou que se o delegado não pediu ele não poderia fazer nada.

 

Resolvi fazer por conta própria, fui até o Hospital Pronto Norte, a médica de plantão disse que lá não faria, mas que eu tivesse fé em deus que tudo se resolveria.

 

Encerro essa narrativa dizendo, não consigo respirar…os avanços jurídicos apesar de pífios no que diz respeito a questão racial e as ações pontuais de políticas de governo, tem suscitado uma contra ofensiva violenta por parte da sociedade que se sente ameaçada com essas pequenas garantias . . .penso que não se trata de mais um caso, mas acima de tudo de uma sucessão de fatores que deveria nos levar a pensar o que queremos fazer ?

 

Peço que me ajude a pensar estratégias para dar visibilidade nacional e internacional, precisamos conectar essas ações com a realidade do resto do mundo, não dá para o Governo brincar de nos fazer de gente grande por portar um PIN, e usar as prerrogativas de representante do governo federal se não há um real compromisso. Para finalizar me dirijo a vocês apenas para dar ciência do que qualquer um poderá passar . . .seguirei articulando formas de amplificar nosso cotidiano. Enquanto os jovens estiverem preocupados em demarcar posição entre os nossos, os jovens deles estão marcando a ferro e fogo os nossos jovens mais pobres, enquanto estivermos desconfiando que o nosso colega poderá dar uma pernada em nossas aspirações eles tem reiteradamente cortado nossas pernas.

 

Aguardo manifestação não apenas de apoio, mas sobretudo, ação o que fazer? Como fazer? É possível unidade nessa estratégia?

 

No mais, estou aos poucos descobrindo . . .que a idade tem uma função . . .ficamos serenos( ou seria endurecidos?) penso que uma coletiva é fundamental Sioney, mas uma, dessa vez é um homem negro . . .pretendo também ir a corregedoria da polícia civil, na segunda irei ao Ministério Público.

 

Carlos Alberto Santos de Paulo, professor  universitário e pesquisador do IPEA, Militante do Movimento Social Negro Brasileiro

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s