Quando um homem esfrega teoria na nossa cara: sobre Jean Wyllys e a mulher negra que ousa falar


atrasadA
eu tô um pouco sim (…)
seu jogo é sujo
e eu não me encaixo…

(“Negro Drama”, Racionais MCs – com as devidas adaptações de gênero)

No Mina Explosiva

A véspera do dia 20 de Novembro não foi nada fácil para nós, mulheres negras. Como se não bastassem os recorrentes ataques deslegitimadores daqueles que evocam a “consciência humana” – ou, ainda pior, a “consciência branca” (a cidade de Sertãozinho que o diga) -, tivemos uma série de acontecimentos que afetaram diretamente nosso círculo feminista negro.
O primeiro deles foi o ataque a nossa irmã do Blogueiras Negras, Charô Nunes, que acabou sendo vítima de um cara cuja profissão (sic) é a própria manifestação da barbárie misógina promovida contra mulheres negras: Julio César, o autointitulado “mulatólogo”, fez um post em seu blog expondo nossa companheira e deslegitimando seu trabalho. O discurso desse indivíduo recorria, como era de se esperar, à constante desqualificação do lugar da mulher negra empoderada: o tal “mulatólogo” chega, inclusive, a duvidar da formação intelectual de Charô, afirmando que ela “se autointitula arquiteta” (como se “mulatólogo” fosse algo além de uma invenção perversa da cabeça dele…). Felizmente a sororidade preta não falha, e nos unimos numa campanha em apoio à Charô para acabar com esses ataques preconceituosos e deslegitimadores.

O segundo caso teve a participação da desastrosa série Sexo e as negas, dirigido por Miguel Falabella, ambos severamente criticados pelos círculos feministas negros. Jean Wyllys, parlamentar do PSOL e também proclamado “defensor das minorias”, esqueceu de ouvir a uma delas (mulheres negras) e soltou um vídeo em sua página no facebook em apoio ao seriado global, para uma campanha chamada#euamosexoeasnegas. No vídeo, o deputado afirma adorar a cultura de massa, especialmente as telenovelas, e destaca a importância do diretor do seriado machista, a quem credita muita generosidade por dar “oportunidade” aos intérpretes negros. Jean ainda reclama de uma parte do movimento negro que, segundo ele, criticou a série sem antes assisti-la e a julgou “apenas” pelo título. Ele fala que a série, ao contrário do que afirma essa suposta “ala radical do MN”, é “inteligente” e trata de uma “nova representação dos negros na TV”. Em seguida,  Jean pede a Falabella uma segunda temporada de Sexo e as negas

Ao apoiar e, por extensão, legitimar o seriado dirigido por Falabella, Jean silenciou nossas críticas. Só quem é mulher negra sabe o que significa ter sua identidade associada a hiperssexualização, algo que a Rede Globo sempre explorou muito bem em suas produções. Só quem é mulher negra periférica sabe o quanto pesa a repercussão diária das produções desta emissora, que visam arquetipar a favela e aquilo que a pertence. De Adelaide de “Zorra Total” (uma personagem negra que vive a pedir esmola nos vagões de trem, interpretada por um ator que se utiliza da técnica “blackfaced”) às personagens rasas de Sexo e as negas, temos um ponto em comum: a construção da mulher negra periférica que convém à elite branca global, aquela que pena na miséria do possível e que se encontra distante do espaço de produção do conhecimento. Afinal, onde estão as autoras negras de telenovelas? De seriados humorísticos? Onde estão as intelectuais negras para compor as mesas redondas de debates políticos, tão comuns nos telejornais?

O terceiro episódio, novamente protagonizado pelo deputado, ocorreu em Brasília durante o evento SERNEGRA, em que um dos debates contou também com a presença de Maria de Fátima, técnica em enfermagem e mãe do dançarino DG, assassinado brutalmente pela polícia carioca. Nesta mesa, Jean se utilizou de um espaço de fortalecimento das mulheres negras para, novamente, deslegitimá-las.  Em sua defesa apaixonada pela cultura de massas – principalmente pelo aspecto da possibilidade de ressignificação que as classes populares podem conferir  à obra televisiva –  o deputado reitera sua última leitura de Sexo e as negas, confirmando que a série pode ser apropriada, na perspectiva de leitura ambivalente, e produzir um conteúdo questionador. A estratégia retórica de Jean no espaço do SERNEGRA é, obviamente, diferente daquela utilizada no vídeo de veiculação virtual. Ao firmar os dois pés no espaço acadêmico do IFB – aliás, muito bem acomodados, graças ao salário milionário de deputado – Jean assume a persona pedante de professor universitário. O tom de sua voz é firme e resistente (resiste a quê?), seus gestos são incisivos: ele quer nos iluminar – ou como ele mesmo diz, “não fala de achismo”. Jean se utiliza de seu vasto currículo parlamentar em prol das minorias para legitimar seu discurso. Distorce a fala de uma mulher negra, afirmando ter sua negritude desqualificada, quando o que estava em jogo era o respeito ao protagonismo de mulheres negras. Depois se coloca na posição de especialista em teoria da comunicação. Cita Jean Baudrillard. Gramsci. Différance, de Derrida.  Ao empreender a tarefa da abstração, Jean Wyllys violenta simbolicamente aquelas cujo incômodo parte da concretude e dureza de ser mulher negra diariamente. Ignorar a leitura da mulher negra, que parte de sua vivência, e assumir a via academicista da carteirada, é uma das formas mais perversas de nos afastar de espaços que historicamente nunca nos pertenceu. Constantemente a mulher negra que ousa falar em espaços acadêmicos é deslegitimada. É recorrente ouvirmos: “você está desrespeitando a instituição”,  “você precisa estudar mais para entender sobre isso”, “você utiliza a sua vivência para entender algo que você não entende”, “você está muito apegada a sua experiência”, “acalme-se” etc. Curiosamente, muito do mote dessas frases foi reproduzido durante a discussão.

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Jean também esquece de analisar o custo da inserção de culturas não-hegemônicas (principalmente a cultura negra e periférica) no cenário mainstream. Para isso, a fala de Maria de Fátima surge num contexto muito apropriado. Ao ser perguntada sobre a exploração midiática em torno da morte de seu filho, Fátima denuncia a direção do programa Esquenta e sua apresentadora, Regina Casé. A mãe de DG, além de ter sido coagida e utilizada em prol do sensacionalismo televisivo, foi proibida de afirmar que seu filho foi assassinado pela polícia do Estado do Rio de Janeiro. Disputar os meios hegemônicos tem seus custos: enquanto a emissora visa atender a demanda de uma nova classe consumidora e, para tanto, precisa dos nossos para que ela se sinta representada, em contrapartida nós, dentro desses espaços, ficamos com as migalhas.

Se Jean curte tanto assim debater cultura pop, deveria se lembrar que há um elemento essencial nessa discussão: a representatividade. Um homem branco compondo uma personagem mulher negra jamais pode ser considerado uma “nova representação dos negros na TV”. Isso é apenas a manutenção do que sempre existiu: nossas vozes e experiências silenciadas e nossos corpos coisificados para atender a demanda do consumo. Não adianta falar em “disputar os veículos de massa” se não estamos nele – ou ainda, se somos apenas estereótipos. É necessário falarmos por nós mesmas. Em primeira pessoa. E parece que com monopólio midiático isso está longe de acontecer.

O que fazemos aqui, na blogosfera feminista negra, tem muito a ver com a crise generalizada de representatividade. Nem a mídia a favor da burguesia, que está nas mãos de seis famílias, nem a imprensa tradicional de esquerda – com seus colunistas quatrocentões – consegue nos representar. O que fazemos aqui é trabalho intelectual. Doe a quem doer. É no espaço virtual que encontramos lugar privilegiado para pautarmos nossas demandas, narrarmos nossas histórias, trocarmos experiências e leituras. Foi graças a esse espaço que conheci muita mulher de luta (inclusive a Charô, citada no começo desse texto) e, com elas, muitas leituras. Também foi aqui que tive acesso a autoras que jamais tive a oportunidade de ler, nem na escola e nem na universidade.

Não duvido da necessidade de lermos Gramsci e Derrida, mas se os lemos é para destruí-los.  A prioridade é conhecer e divulgar os nossos e principalmente as nossas. Fortalecermos umas as outras.

A disputa, Jean, tem que ser completa. E se você pretende continuar “representante das minorias”, aprenda a nos ouvir. Por isso você e seu discurso academicista não me representa.

Saiba mais sobre o caso “Charô versus  o Mulatólogo”

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