9 de novembro de 1989. Preguiçosos, indolentes, pouco afeitos ao trabalho, incapazes, sem iniciativa, era assim que eram chamados os “Ossis”, os “nordestinos” da Alemanha


Berlin-Wall9 de novembro de 1989

por marcos romão
Preguiçosos, indolentes, pouco afeitos ao trabalho, incapazes, sem iniciativa, era assim que eram chamados os “Ossis”, os “nordestinos” da Alemanha.
Convidado a falar em 1994 na Universidade de Hamburgo sobre os mecanismos de instalação do racismo no Brasil.

Os estudantes se espantaram que eu tenha dedicado 2/3 de minha conferência a descrever o que eu havia lido e observado nas relações entre os dois lados alemães, então unificados.

Comecei falando de um médico alemão ocidental, que me falara que os “Ossis” do leste alemão( Ost=leste), tinham uma pele mais branca e amarelada por terem recebido pouco carinho nas creches que existiam para todas as crianças na DDR-Alemanha Oriental, e que provavelmente seus males de barriga eram causados pelo fato de fazerem cocozinho em banheiros coletivos em que todos ficavam de frente para o outro ferindo a privacidade infantil.
Segui relatando que eu tinha sido testemunha ocular de talvez o maior êxodo expulsório da história mundial, em que de um dia para o outro, 16 milhões de pessoas mudaram de país e ideologia nacional sem sairem de suas moradas. De “Ossis” e comunistas, passarem a ser ocidentais e capitalistas com 100 marcos de presente para começarem a vida.
Perguntei aos estudantes e professores se eles, nascidos e criados livres no ocidente alemão, podiam imaginar o deus nos acuda silencioso que se passou em cada família dos libertados de lá, quando viram que caiu o muro. Se poderiam  enquanto ocidentais e nascidos “livres”, se colocarem nas peles de cada Ossi, quando viram suas redes de vida e sobrevivência desmancharem, e cairam na selva do capitalismo individualista.

Só um velho professor, disse que sim, pois sua familia teve que sair durante a guerra de sua região, e os avós piraram, o pai sumiu e sua mãe levou uma vida amargurada.
Falei dos estudantes sobre o que eu lia nas manchetes de jornais. Que os alemães orientais eram pouco empreendedores, que iriam acabar com a economia da Alemanha e correrem para a a ajuda social, algo como “bolsa família” de lá. Que os alemães orientais eram pouco afeitos à inventividade e por aí afora.
Foi uma hora de conversa sobre a Alemanha, ficaram chocados em estarem vendo pela primeira vez o que estava na cara. O nascimento de um novo racismo entre eles.
Na útima meia hora da palestra ficou fácil para mim explicar como se engendrou o racismo no Brasil.
Preguiçosos, indolentes, pouco afeitos ao trabalho, incapazes, sem iniciativa, assim eram chamados os índios quando os europeus chegaram ao Brasil.
Preguiçosos, indolentes, pouco afeitos ao trabalho, incapazes, sem iniciativa, assim foram chamados os negros libertos em 1888.
Perguntei aos participantes do papo, que agora já não eram mais platéia, se eles podiam se colocar na pele de um negro brasileiro recém liberto, que nem um centavo de marco recebeu para viver no novo país que era o mesmo que ele nascera.
25 anos depois da queda do muro, os alemães começam a criar equipes de profissionais nas áreas sociais, para superarem o fosso de visão de mundo e psicológico entre as duas Alemanhas unidas no papel. Já tem até uma dama de ferro Ossi, a Angela Merkel, mas ainda não chegaram juntos. Nesta semana mesmo se discute se pode haver uma coalizão em Brandenburgo entre os Sociais Democratas e o partido Link, que é um partido formado por pessoas do antigo sistema.
O alemão oriental, se quiser ter sucesso na sua nova pátria, é obrigado a viver e se comportar como ocidental. Toda a cultura que acumulou ou joga fora, ou esconde. Não pega bem mostrar o que realmente é.
No Brasil a mesma coisa, para ser um bom negro brasileiro. Se é obrigado a esquecer que é negro e nordestino. Apagar o sotaque se for possível.
2014 o muro caiu lá e aqui. Seus fantasmas estão presentes, atuam e crescem enquanto não se conversa sobre o assunto.

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