A MARCHA QUE MUDOU O MOVIMENTO NEGRO


Por Amauri Mendes Pereira

Artigo publicado em 2008 no blog Aldeia Griot .  baixe em formato PDF clicando aqui.
Marcha contra o racismo 1988 – Foto Januário Garcia

“Espero que vocês compreendam, o problema não é comigo, é com os de  verde.” (frase de HÉLIO SABOYA, então Secretario de Polícia Civil do Rio de Janeiro)

Aludia desta forma as pressões do Comando Militar do leste que prometia reprimir a manifestação. Hélio Saboya, então Secretario de Polícia Civil, em 1988, visivelmente preocupado, repetia esta frase aos membros do comando da marcha, que foram convidados por ele para conversar em seu gabinete horas antes do evento.

O susto
No dia 11 de maio de 1988, o Centro da cidade amanhece ocupado pro forças militares. Os pedestres não entendiam o que estava acontecendo e os boatos corriam soltos. O fato é que tamanho aparato visava impedir que a Marcha contra a farsa da abolição, programada para o fim de tarde.

Os militares cercaram e depredaram os palanques montados pela Riotur em frente à Central do Brasil, reprimiram e prenderam militantes que chegavam dos subúrbios e da Baixada Fluminense nos terminais ferroviários e destruíram faixas, cartazes etc e se posicionaram em maior número frente à igreja da Candelária e início da Av. Presidente Vargas, onde seria a concentração.
A sua principal desculpa  para impedir a marcha que era a alegação de que pretendíamos agravar a imagem de Duque de Caxias – caiu por terra no momento em que concordamos avançar pela pista do lado contrário da avenida – passaríamos quase a cem metros daquela estátua – e mesmo assim, eles permaneceram irredutíveis.

O que, de fato, levara os militares a reprimir a nossa manifestação?

Uma resposta inicial era a perplexidade com o grau de mobilização alcançado pelo Movimento Negro (eles possuíam informações). Dificilmente poderiam controlar evento com a envergadura que advinhavam. Mas é claro que não era apenas isso. Conversas posteriores, deixavam patente o racismo. A maioria deles não perdoaria a ” ousadia” do Movimento Negro.

Afinal, “o centenário da Abolição deveria ser festivo, comemorando a integração racial. As reclamações desses negros não têm sentido, são antipatrióticas… Além disso, aquela postura idelógica preconizava outras implicações. Pela primeira vez, o percurso da marcha invertera o sentido usual das manifestações políticas – seguíramos na mesma direção do “mar de gente” que abandona a cidade no horário do rush(da Candelária à Central), o que potencializaria a nossa manifestação, ampliando o alcance de nossas mensagens e o nosso êxito. Ainda mais que finalizaríamos em grande estilo, no maior ponto de circulação de massa do Rio de Janeiro.

A construção
Compreensivelmente, a maioria dos militantes comemorou o sucesso estrondoso daquela ação, acompanhada por máximo interesse pela mídia nacional e internacional – “todo mundo viu o racismo no Brasil” -, vibrava a massa! Mais de 20 mil pessoas. O comando da Marcha, no entanto, cometeu um erro fundamental: se desmobilizou no fim da marcha ao invés de concentrar esforços para multiplicar a repercussão e veicular a sua voz, consagrando a sua visibilidade e a conquista de espaço.

Marcha contra o racismo 1988 – Foto Januário Garcia

As razões para a insensatez dos dirigentes estão nas diferentes concepções que orientam a militância quanto ao papel do M ovimento Negro na Luta Contra o Racismo e a importância dessa transformação da sociedade brasileira.
Poucos perceberam que havíamos conseguido algo inédito e de suma importância – estava nas mãos do Comando da marcha – se tornar o centro das atenções, no momento em que toda a sociedade ” respirava” as emoções das memórias da escravidão/abolição, sem dúvida, a referência histórica mais incrustada no âmago do povo brasileiro.

Marcha contra o racismo 1988 – Foto Januário Garcia

Nunca antes havíamos construído uma ação daquela forma- o entusiasmo da militância superando as desavenças e limitações das entidades, a partir de uma forma embrionária de organização muito mais ampla e ágil: os comitês.
Foram oito meses esde os primeiros contatos e a divulgação de uma postura estratégica crucial: não deveríamos nos preocupar com as atividades oficiais quase sempre diversionistas e desagregadoras em nosso meio. O mais importante era concentrar esforços na construção de um momento nosso, do Movimento negro. As alianças e adesões de outros setores viriam naturalmente amedida que definíssemos o nosso campo de força. O que determinou aquela posição foi a visão de que desde o início de 88, teríamos “os ventos a nosso favor”:

A) nível de sensibilidade social em função do Centenário, o quê obrigaria a mídia em geral a tratar do tema.

B) O avanço da Consciência Negra e da Luta Contra o Racismo, capaz de respaldar um plano objetivo de mobilização.
C) A existência de entidades negras fortes e de uma militância que se espalhava por vários setores da sociedade (foi fundamental a participação dos religiosos do Movimento Comunitário, de sindicalistas…) e por todo o estado do Rio de Janeiro.

Construção para quê?
Muita gente assistiu ao vídeo “A Marcha da Abolição”, da Enugabirjo( Adauto e Vick). Nele se mostra claramente o clima de terror impingido pelas forças policiais e militares. Quando o Comando da Marcha chegou ao local da concentração se deparou, por um lado, com a disposição da “massa”, que não se intimidava; e por outro, com o assédio dos oficiais militares que “tinham ordens para impedir a Marcha e evitar o perigo da radicalização de ânimos e da degeneração do conflito aberto”. A nossa decisão de concentrar e marchar de qualquer maneira instalou o impasse. Foi o próprio Secretario de Polícia Civil que veio negociar com o nosso deslocamento…”até onde o racismo ia deixar”.
Menos de um quilometro separaram a alegria da vitória – Vamos caminhar, pessoal!- de uma decisão que violentou sonhos e vontades tanto tempo represadas.


Marcha contra o racismo 1988 – da Enugabirjo( Adauto e Vick
Gente próxima a Biblioteca Estadual Celso Kelly, na Avenida Presidente Vargas, ao lado do Campo de Santana (barrado a passagem), um formidável contigente de PMs e soldados do Exército, por trás, viaturas empurrando a massa; pelas laterais, cercando completamente os manifestantes, mais soldados do Exército e PMs. Se multiplicavam as reclamações e pequenos rusgas
* Texto publicado em 1998 pelo jornal impresso Questões Negras, do Rio de Janeiro.

Nota da Mamapress: A base para a organização desta marcha foi o Instituto de Pesquisas das Culturas Negras-IPCN através de seu programa SOS Racismo, Cidadania Direitos Humanos e Civis.

O IPCN na época, era uma entidade forte e ainda prestigiada pelas lideranças negras com mandato político. Lá se reuniram todas as entidades e iniciativas negras do Estado do Rio e recebeu apoio de entidades negras de todo o país, como a exemplo do Olodum na Bahia e Cedenpa no Pará.

2014 é tempo de voltarmos a fortalecer nossas entidades negras, berço do que temos hoje de consciência negra no Brasil.

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