Uerj, I Seminário Fela Kuti: um debate teórico que foi frustrado



por Memorial Lélia Gonzalez

 

Fela Kuti

Fela Kuti

Dentre tantos momentos importantes de reflexão e avanço sobre as questões tratadas no “I Seminário Fela Kuti da UERJ – A educação, os movimentos sociais e a África que incomoda” que teve lugar no Rio de Janeiro (de 13 a 17 de outubro, UERJ), com “Manhãs de Oficinas e Minicursos”, “Tardes de debates, Conversas e Café” e “Noites de Conferências”, é estarrecedor que “uma” conferência do dia 14/10: “Marxismo, panafricanismo e racismo nos movimentos sociais do mundo”, tenha levado aos participantes (ávidos por conhecimento) equívocos fundados em ocultamentos históricos, que um certo academicismo insiste em impor, transformando a “plateia” em tábula rasa que, como plateia seria, a priori, mera espectadora!!!

O título da Conferência, com palavras fortes e necessárias para a compreensão e a transformação da realidade do mundo e do Brasil, hoje – marxismo, panafricanismo, racismo, movimentos sociais -, (como, aliás, todo o Seminário) chamava os/as participantes para um fundamento teórico que possibilitasse, inclusive, situar cada aluno/a da UERJ num espaço de maior conforto por estarem usufruindo da primeira universidade brasileira a instituir o sistema de cotas (como parte das necessárias ações afirmativas – Lei 3708/01 | Lei nº 3708, de 09 de novembro de 2001). Sim, situar “cada aluno/a”, não alunos/as negros/as e pardos/as, como citado na Lei, mas a todos e todas, na medida em que a exclusão de quem quer que seja diz respeito a todos e a todas, especialmente a quem está incluído (via de regra, neste caso, incluído “naturalmente”).

Nada é natural na realidade humana! Toda possibilidade humana é construída a partir de conceitos e preconceitos, de teorias e acomodações que algumas teorias insistem em impor.  Assim é com o racismo! Assim é com todas as formas xenófobas de olhar e tratar a quem quer que seja.

O estarrecedor é que “argumentos” contrários ao cerne do debate – não tendo condição de sustentação nas teorias e na história da humanidade – sejam dirigidos a palestrantes e participantes (não plateia!) como ofensas pessoais; e que movimentos de fundamento da luta racial no Brasil – como a Frente Negra Brasileira – sejam vilipendiados e, mesmo, “xingados” de fascistas (com a mesma virulência que militares (saudosos da ditadura recente) de partidos políticos que se autointitulam “cristãos” e “democráticos”, insistem em colocar liminares e mais liminares contra as cotas nas universidades e nos concursos públicos), simplesmente porque o “velho e querido” Marx não tratou da questão racial em seus textos!!!

Os marxistas de “boa fé”, de todas as cepas, continuam (como no título de um texto em inglês) “ainda esperando a análise marxista sobre raça”. E vão continuar esperando, pois Marx fundou sua importante obra de maturidade “O Capital” em bases que envolve também a Hegel, aquele mesmo que afirmou que a África não tem história¿!?¿

Para os marxistas o problema mais sério é a luta de classes.  E o que já foi provado (inclusive em Cuba) é que quando se tenta acabar com “classe”, o racismo permanece…

Como muito bem nos evidencia Carlos Moore: “a escravidão racial não é recente e, ao contrário do que a maioria das pessoas supõe, remonta há mais de mil anos. Logo, o racismo está há muito tempo estruturando a sociedade, a visão religiosa, os padrões estéticos e culturais, o imaginário social e um monte de coisas. O racismo é um fator histórico estruturante. … Trata-se de um arranjo sistêmico que engloba a totalidade das interações entre os seres humanos. Mas, para enxergá-lo desse modo, há que vencer uma série de obstáculos, incluindo os obstáculos epistemológicos.”

Talvez uma maneira de começar a superação epistemológica – especialmente alguns partidos políticos e alguns “movimentos sociais” – seja (1) estudando os pensadores negros, do continente africano e da diáspora africana;  (2) buscando entender que a realidade humana, desde sempre (inclusive no Brasil), foi e continua a ser pautada por “cotas” e “ações afirmativas” (de quem pode mais!) e aquilo que os movimentos negros continuam reivindicando é o mínimo do que a humanidade deve ao povo negro; (3) reler as teorias fundamentos do marxismo; (4) estar atento para não se aventurar em estruturas partidárias de “esquerda”, de “direita”, “cristã” ou “democrática” que criam grupos “negros” de conveniência, defendendo bandeiras brancas, cuja única finalidade é o aparelhamento na máquina ideológica da guerra partidária que quer, a todo custo, impor o imobilismo aos movimentos da realidade, estes, sim, movimentos de base! Vale lembrar que ser oprimido por “igual” é degradação imponderável!  Mas, primeiro que tudo, proponho conhecer o que é a “democracia”, a grega, aquela que prega a liberdade e igualdade, mas que pratica a escravidão, o racismo e o sexismo.

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