Um bate papo entre gerações de pessoas negras


Um bate papo entre gerações de pessoas negras:

editado por marcos romão

O primeiro é um jovem
“O avestruz tem um comportamento totalmente louco
perante um caçador: ele corre e enfia a cabeça no primeiro buraco que
encontra. Talvez seu instinto lhe diga que se ele não vê o caçador, este
também não o verá. Tolo engano, pois fica com seu enorme traseiro à
mostra para o caçador enfiar-lhe o cano da espingarda! Esse estranho
comportamento do negro em não discutir o preconceito com seus filhos ou
com seus amigos deixa o branco agir à vontade sobre o destino da raça
negra. Ele nada tem a temer, pois o negro além de não o enfrentar, nem
sequer sabe conspirar, seja na intimidade da família, seja com os amigos.
Este é o motivo básico da postura de pateta que o negro assume perante
um branco, qualquer branco, mesmo o ralé.”
O segundo é um jovem de 60 anos:
Baobá_panoramico1“Acertou na mosca, caro Israel Santos. Ou numa das moscas da perpetuação do racismo à brasileira. A mosca racista que está na formação dentro de casa. O que parece uma autodefesa, uma prevenção e proteção contra o racismo, que é os pais não falarem das questões raciais dentro de casa, leva as jovens negras e os jovens negros ao irem para as ruas, a ficarem iguais a patinhos na lagoa esperando tiro de escopeta cano curto.
Este é um grave problema que minha geração de pais e mães negras e negros tem uma grande responsabilidade.
Eu pessoalmente já vivenciei, e já escutei de muitos e muitas amigas de minha idade a mesma experiência, pois já entrei na minha adolescência sabendo o básico sobre como lidar com a polícia e com o racismo em volta. Este básico me ajudou a não chorar e segurar a barra de meus amiguinhos quando aos 12 anos de idade, levamos o primeiro baculejo da polícia, que passou até as mãos nos nossos saquinhos debaixo dos shorts sem cuecas que usávamos na época.
Este aprendizado cedo serviu para anos depois me ajudar a enfrentar o racismo até nas universidades pelo mundo afora. Toque racista conheço a cem metros de distância.
Depois de 20 anos de volta ao Brasil me espanta o buraco que existe entre as gerações de negras e negros atualmente no Brasil.
Através da página de SOS Racismo Brasil , que criei no Face, tenho tido a experiência dolorosa de receber de todo o país, perguntas sobre como responder desde o racismo mais rasteiro do dia a dia, até o mais sofisticado que ocorrem nas academias.
E isto acontece não por falta de negras e negras intelectuais das ruas, das redes sociais, dos partidos políticos, dos governos e das academias, pois nos 70 não passámos de cem no país todo e demascaramos o mito da democracia racial brasileira e hoje são milhares de negros e negros punjantes atuando no país inteiro.
Isto acontece porque em algum momento dos últimos 20 anos, por motivos que desconheço, a palavra racismo foi varrida do mapa político de nossa sociedade.
Foi como se a falsa proteção familiar que muitas família negras professam ao nã falarem do racismo trivial e rasteiro, se estendesse a todo o movimento negro.
De dois anos para cá o quadro tem mudado positivamente e as ações de “reaja ao racismo” tem ressurgido coletivamente, em que pese a grande resistência entre negras e negros que se iludiram com as possibilidades de eliminar o racismo com pequenos ganhos e melhorias sociais que de fato aconteceram.
Apesar dos negros e negras que voltarama mexer no cancro do racismo terem sofrido, ameaças perda de emprego e desprezo com radicais infantis do movimento negro, hoje 2014 eles provaram que tinham razão quando finalmente toda a sociedade brasileira passa a discutir o racismo, como se vê desde o caso Aranha e agora virou tema fundamental na decisão de quem e como se governará o país, pois todo o movimento social fala de racismo, mesmo que na maioria das vezes de forma ingênua.
Está na hora de juntarmos as geraçôes, estou muito feliz com o que tenho aprendido dos jovens ativistas negros no Brasil, pois estão batendo de frente com o racismo neo e pós colonial. A questão racial virou questão nacional, como o meu amigo Januario Garcia, fala ao final do filme “Quando é que o Crioulo Dança”, de Dilma Loes.
Como o buraco agora é muito mais embaixo, só a troca de experiências entre negras e negros de todas as idade poderá nos dar base para encontrar os caminhos para ultrapassar esta fase do racismo à brasileira.
Quem disser que tem a verdade e sabe o caminho estará mentido, estará imitando o branco europeu, pois nossa história de construção da verdade está no caminho quepercorremos e não no fim que colonizadores ou neocolonizadores brancos ou pretos nos apresentarem;

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