Reação de Aranha ajuda a virar o jogo


Por Laura Capriglione****, em seu blog

Onda de indignação após ofensas ao goleiro do Santos Aranha, espalha-se, produz cenas de dignidade e pode servir de antídoto à maré conservadora

Onda de indignação após ofensas ao goleiro do Santos Aranha, espalha-se, produz cenas de dignidade e pode servir de antídoto à maré conservadora

A decisão inédita do STJD (Superior Tribunal de Justiça Desportiva), de excluir o Grêmio da Copa do Brasil por causa dos atos racistas perpetrados na quinta-feira (28/08) por seus torcedores, é para ser comemorada em grande estilo. Passará para a história.

É bem verdade que o STJD não tinha como se esquivar da punição, depois que o goleiro Aranha, do Santos, correndo inclusive o risco de ser expulso do jogo, denunciou abertamente a tentativa infame de humilhá-lo. Partida paralisada, as câmeras do estádio puderam flagrar gremistas covardes enquanto gesticulavam e xingavam o gigante negro:

“Ma-ca-coooo!”

Mais do que a punição do time gaúcho, porém, o maior saldo político da reação do goleiro, agora convertido em herói nacional, foi ter mostrado o poder transformador e contagiante da indignação. Desde a quinta-feira (28/08), dia do jogo Grêmio X Santos, as redes sociais são aqui e ali estufadas por vídeos que “bombam” em comentários e apoios. Neles, os protagonistas são negros indignados como Aranha, revoltados com episódios de racismo explícito.

Como foi o caso do o assessor parlamentar Claudinei Corrêa, de 45 anos, negro, que no dia seguinte ao jogo fatídico, em pleno calçadão de São José dos Campos (SP), enfrentou a polícia e protegeu com o próprio corpo o filho Jefferson, de 20 anos, e o genro Fabiano, de 18, injustamente acusados de roubo.

Foi o de sempre: diante de uma denúncia de assalto no calçadão, os soldados da Polícia Militar foram direto para cima dos dois garotos negros. “Encostaram a arma no Jeferson e disseram: ‘Vai neguinho, passa a arma, perdeu’. Em seguida, falaram a mesma coisa para mim”, contou Fabiano.

Ao portal G1, um homem que viu a abordagem confirmou que os soldados “já chegaram empurrando e chamando eles de ‘neguinhos’… As pessoas se revoltaram pela ação da polícia”.

Claudinei, que acabava de comprar um par de tênis para o filho, correu para acudir os rapazes, que são, aliás, trabalhadores e estudantes universitários, tentando explicar a situação. Mas a polícia não lhe deu ouvidos e já se preparava para levar os jovens para o DP, quando os vendedores da loja Tennisbar, solidários aos acusados, levaram a nota fiscal ao pai, provando as compras recém-realizadas.

“No Brasil somos 52% da população. Existe negro sem vergonha como existe branco sem vergonha…”, gritou o pai.

Da multidão que acompanhava a abordagem policial logo surgiu o protesto: “Racismo!”, que os demais traduziram em coro: “Preconceito, preconceito, preconceito!” O pai continuou:

“Brasil, isso não pode mais. Chega de racismo neste país, chega de genocídio neste país! Chega, chega, chega, cansei!” 

Veja o link: https://www.youtube.com/watch?v=3mghaSLqZAA&list=UU2oCgcR6FqIwlKTvfPJZiCQ

Pai, filho e genro registraram boletim de ocorrência contra os policiais e disseram que pretendem processá-los por injúria qualificada e racismo.

Nesta quinta-feira (4/09), mais um caso chacoalhou as redes sociais… Desta vez, divulgado por uma menina que enfrentou com inteligência e coragem os comentários sarcásticos dirigidos por um passageiro do coletivo em que ela se encontrava. O alvo, desta vez foi o cabelo “black power” da menina, o mesmo estilo usado por gigantes da luta pelos direitos civis dos afro-descendentes americanos, como os panteras negras Angela Davis e Stokely Carmichael… Nada é por acaso.

“O engraçadinho da van quis fazer piada com o meu cabelo. Ele não… não esperava MESMO que receberia uma resposta minha que o deixou em silêncio por toda a viagem, refletindo! Não deixe passar certas coisas… Principalmente, quando se tratar das suas escolhas e da sua moral! Não deixe passar. Deixa o recalque bater no seu black e voltar!”

Veja o link: https://www.facebook.com/video.php?v=822883794442452&set=vb.100001625183942&type=2&theater

São negros e negras brasileiros que resolveram enfrentar as desculpas, dissimulações e mentiras deslavadas que dizem inexistir racismo por aqui, que o Brasil possui uma linda “democracia racial”, que somos todos iguais.

Não somos.

Depois de quase 400 anos de escravidão, o Brasil ainda segue aprisionado pelo racismo mais perverso, o que finge não existir –lembre-se que Ali Kamel, o poderoso diretor geral de jornalismo e esportes da TV Globo até escreveu um livro, com o desconcertante título “Não Somos Racistas”, defendendo essa tese…

Para superar tais mentiras, é preciso escancará-las, como fez o goleiro e como estão fazendo cada vez mais os negros e negras brasileiros. Esta é uma grande e importante notícia!

*** Laura Capriglione

Laura Capriglione, 54, é jornalista. Nasceu em São Paulo e cursou Física e Ciências Sociais na USP. Trabalhou como repórter especial do jornal “Folha de S.Paulo” entre 2004 e 2013. Dirigiu o Notícias Populares (SP), foi diretora de novos projetos na Editora Abril e trabalhou na revista “Veja”. Conquistou o Prêmio Esso de Reportagem 1994, com a matéria “Mulher, a grande mudança no Brasil”, em parceria com Dorrit Harazim e Laura Greenhalgh. Foi editora-executiva da revista até 2000.

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