Deu na Afropress: Desconstruindo Marina


Desonstruindo Marina.

por Dojival Vieira

Dojival Vieira Jornalista,advogado, ativista do Movimento Negro

Dojival Vieira
Jornalista,advogado, ativista do Movimento Negro

Não estou vinculado a nenhuma campanha. Também não tenho vínculos com quaisquer partidos. Mas, é de indignar observar a tentativa de desconstrução da candidata Marina Silva (PSB/REDE), após se tornar candidata oficial à Presidência, no lugar do ex-governador Eduardo Campos, morto no trágico acidente aéreo em Santos.

Bastou que as pesquisas de opinião a colocassem novamente no páreo e logo começou o tiroteio por meio das redes sociais, onde não faltam as bem treinadas – e, em alguns casos, pagas – línguas de aluguel.

Na verdade a ação nefasta começou já no velório do ex-governador pernambucano, em Recife, que reuniu milhares de pessoas (as estimativas variam entre 130 e 160 mil) no Palácio do Campo das Princesas e terminou no Cemitério de Santo Amaro. Marina teria tido comportamento leviano ao aceitar posar para selfies diante do caixão na companhia da viúva Renata Campos e filhos.

Completo absurdo porque o comportamento da ex-senadora, e agora candidata, como é sabido, é naturalmente discreto em qualquer circunstância. No velório, manteve-se o tempo inteiro sentada numa cadeira na segunda fileira, atrás da família do morto.

Se a cerimônia adquiriu tons de ato político, esse foi dado pela viúva e filhos, o que também não é nada de estranhar, tendo em vista as circunstâncias trágicas da morte do ex-governador, em pleno auge de sua vida política e no começo de uma campanha eleitoral em que se apresentava junto com Marina – sua vice – como alternativa à velha política.

Também não custa lembrar ser Campos neto do ex-governador Miguel Arraes, levado preso do mesmo Palácio em que se realizou o velório durante o golpe militar e exilado durante anos na Argélia. O recado da viúva e dos filhos seria esse mesmo e a maior homenagem que poderiam prestar seria a demonstração perante as milhares de pessoas que se reuniram no domingo de que o legado da família Arraes continuará tendo o protagonismo que sempre teve na política pernambucana e brasileira.

Aliás, ao contrário: louve-se a firmeza dos adolescentes filhos de Campos, crianças ainda, e da viúva que, marcados pela profunda dor e tristeza da tragédia, sepultaram o morto – ou o que sobrou do seu corpo, pulverizado na explosão do choque da aeronave – sob palavras de ordem “Campos, guerreiro do povo brasileiro!”.

Mas, o que mais chama a atenção na tentativa de desconstrução política de Marina – a candidata que agora ameaça o projeto lulodilmista de poder, e a pretensão tucana de encerrar o ciclo de 12 anos de governos do PT -, é a participação de lideranças negras no papel de massa de manobra dessa batalha.

Alguns, afoitos, a chamam de “racista”, epíteto que passa a ser um xingamento na boca de alguns, muito provavelmente pela ausência de argumentos para dar combate aos verdadeiros racistas camuflados sob o mito da democracia racial brasileira. Outros, ressuscitaram artigo da filósofa Sueli Carneiro, em que, de forma infeliz, Marina saiu em defesa do deputado Marco Feliciano que, segundo ela, estaria sendo atacado por ser “evangélico e não por suas posições políticas equivocadas”.

A mesma filósofa, em entrevista para José Arbex, da Revista Caros Amigos,  manifestou-se assim em fevereiro de 2.000, sobre o fato do então prefeito Celso Pitta, à época acusado de corrupção na Prefeitura, usar como álibi “estar sendo perseguido por ser negro”: “Não me consta que o Pitta não tenha consciência de sua condição de negro. Não se tem notícia dele como ativista. (…) Somos seres humanos como os demais, com diversas visões políticas e ideológicas. Eu, por exemplo, entre esquerda e direita, continuo sendo preta” (“Caros Amigos” n° 35, fevereiro de 2000).

A frase, à época, soou como uma defesa enviesada do ex-prefeito malufista, ainda que possa não ter sido essa a intenção da filósofa, e ainda hoje é repetida como um mantra por quem, de forma acrítica, acha correto em pleno capitalismo, transformar as contradições de classe numa questão biológica – vale dizer: ser ou não ser negro – e não política e ideológica. Sem levar em conta o extremo conservadorismo que é reduzir a luta política numa sociedade de classes à esfera da biologia, trata-se de um evidente equívoco, como se vê.

Também no caso da defesa de Marco Feliciano (a entrevista é do ano passado, e estar sendo convenientemente requentada) a ex-senadora, teve uma posição corporativa do campo religioso em que se situa, tese tão conservadora, quanto a que pretende ignorar que a luta política e ideológica não está subordinada à raça, qualquer que seja.

Os ataques a agora candidata do PSB por ser evangélica e ter, em determinados temas, posições conservadoras é parte da campanha de desconstrução da sua imagem pública e tem um único objetivo: a erosão de sua densidade eleitoral, que é suficiente para fazê-la chegar ao Planalto, conforme demonstrou a pesquisa Datafolha em que aparece com 21% das intenções de voto, ainda que a campanha esteja apenas começando.

Marina, tanto quanto Lula, independente da fé que processa, tem uma história e um perfil que se identificam com a maioria do povo brasileiro. Seringueira pobre, se alfabetizou aos 15 anos de idade e foi companheira de Chico Mendes assassinado pelo latifúndio nos seringais do Acre. Tornou-se uma referência não só brasileira, mas em todo o mundo, da luta pela preservação e pela defesa da sustentabilidade. Foi durante anos Ministra do Meio Ambiente do primeiro Governo Lula, de onde saiu por conta própria, sem jamais ter merecido qualquer reparo dos que agora a atacam.

Passou a ter mais defeitos – do que os que efetivamente tem – depois que teve a ousadia de se afastar do Governo para ser candidata a Presidência, primeiro pelo PV – obtendo quase 20 milhões de votos, nas eleições de 2.010.

É negra, ainda que jamais tenha estado na linha de frente na luta antirracista, nem assumido protagonismo na defesa desse tema. Como defensora de teses ambientalistas e da sustentabilidade – a ponto de se chocar com os poderosos interesses do agronegócio – é impossível, que seja indiferente à chaga do racismo, essa patologia social que se constitui em elemento estruturante da desigualdade social brasileira, que tanto nos envergonha.

Pretender sua desconstrução, apenas por ser evangélica, é um ato de intolerância religiosa, tão condenável quanto os que são sofridos por Pais e Mães de Santo das religiões de matriz africana, vítimas cotidianas de perseguições que condenamos.

Ou é o mero propósito das línguas de aluguel em ação, próprias e ou terceirizadas, a serviço de interesses outros que não ousam dizer o nome. Quem condena a intolerância com os nossos, não pode ser intolerante com os outros.

 

 

“Este artigo reflete as opiniões do autor e não do veículo. A Mamapress e a Afropress não se responsabilizam e nem podem ser responsabilizadas pelas informações, conceitos ou opiniões do (a) autor (a) ou por eventuais prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso da informações contidas no artigo.”
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