O Velho Jornalista morreu. Viva o Velho Jornalista.


por marcos romão

impren11A pauta da mesa redonda de agosto do sindicato de jornalistas de Hamburgo (DJU) é jornalismo Online e Fundraising.
Nestes encontros estão em geral os cobras dos grandes jornais e revistas da Alemanha, que hoje “semi” ou desempregados vivem no precário e fazem cursos de jornalismo online financiados pelo “social” do Ministério do Trabalho. Aprendem enfim, o be-a-ba da era cibernética, como aprender a fazer blogs, elaborar tabelas e etc. Aprendem a dirigir a carroça da Mercedes do prestígio passado, quando a garotada já está andando nos Porshes feitos em casa que interativos “fazem” as notícias aparecerem.
Anarquistas de Portugal, durante a ditadura de Salazar, chamavam suas bases e gráficas clandestinas de “Padaria do Povo”. Como o padeiro que levava o pão em casa além de tê-lo feito com os colegas de trabalho, o jornalista que produzia a notícia, ao distribuir com sua “brochura clandestina” as notícias, voltava para o “aparelho/padaria do povo”, com mais notícias, agora acrescidas das críticas dos fregueses leitores, que lhes falavam se o pão-notícia lhes apetecia ou se estava enxertado de farelos/fakes.
Com a queda da ditadura colonial portuguesa, o velho PC do Cunhal pegou em mãos, o mais tradicional e poderoso jornal do país até 1974, que era “O Século”, onde cheguei a trabalhar antes que fechasse por mofo e falta de modernidade.
A linha dogmática de esquerda que assumiu a direção de então, limpou o jornal dos jornalistas independentes, ou anarquistas, ou conservadores ou os que não coubesse na máquina ideológica que se implantava.
O pão-notícia virou um só, os criativos de várias posições debandaram para novos jornais e revistas e “O Século” morreu por não estar mais no meioda notícia, produzia pão sem trigo ou informação múltipla que faz o pão crescer com consistência.
Não é por coincidência que o jornalismo português de hoje, com sua penetração em África, com notícia “quentes” e originais, agradece à influência das escolas da Padaria do Povo na formação de jornalistas, que não vivem da empáfia do prestígio que as grandes redes jornalísticas ofereciam antigamente aos seus escolhidos, quando o que valia não era a notícia mais o nome dos “repórteres-donos-da-padaria”, dependentes de seus focas que lhes traziam o pão para eles empacotarem e colocarem seu carimbo.
Mal comparando 1975 em Portugal com 2014 no Brasil e na Alemanha, os jornalistas tradicionais brasileiros e alemães estão em choque, tanto com a queda dos grandes “Impérios da Redações”, quanto com a derrubada do “Muro do Prestígio” que separava a notícia de seu produtor.
Meus colegas jornalistas de Hamburgo, cidade que 30 anos atrás era uma redação só, com ante-salas exclusivas para jornalistas em todas as esferas de poder, faziam suas mesas-redondas de 2005 a 2010, em meu cafofo chamado Quilombo Brasil, antiga sede da Radio Mamaterra, por não terem mais um espaço autônomo nas redações, que reduziram seus espaços (racionalização do trabalho com demissões e terceirizações). Os encontros agora são na Taverna Romana, restaurante com preços acessíveis para jornalistas precários aprendizes de surf na internet.
Nestes encontros em minha casa-agência-jornalística, os colegas hamburgueses olhavam com curiosidade os computadores onlines ligados com o mundo, como se fossem briquedos perigosos e pior, passageiros e produtores de bulhufas.
Nada diferente encontrei ao retornar ao Brasil em 2012 . Colegas desempregados ou atuando como acessores de empresas ou governos e a produzierem pão dormido/press release. Quase pensei em voltar ao ver tantapão dormido.
Por conta de um contrato ainda da Alemanha e projetos da Radio Mamaterra, pude me sustentar nos primeiros meses enfiado na Aldeia Maracanã ou circulando pelos Quilombos do RJ. Como uma coisa puxava a outra, fui conhecendo uma garotada em movimento com suas câmaras e velhos jornalistas que ainda não tinham entregue a rapadura.
A queda do “Muro do Prestígio Jornalístico” que aconteceu em julho de 2013 não me surpreendeu. A notícia pão quente estava sendo produzida em padarias-redações populares e, ao contrário do que os tradicionais afirmam, não eram produzidas de forma caótica e as possíveis “barrigadas” eram corrigidas online na hora, pois como os jornalista se conheciam das ruas ou online, a checagem inbox rolava o tempo todo. Mentir nesta área de confiança das redes sociais é perder o trigo com que se faz o pão da notícia.
O melhor exemplo de ação rápida em busca da verdade investigada de forma jornalística, foi o caso “ Molotov do Palácio Guanabara”, em que um rapaz acusado de “vândalo incendiário” pela polícia e a grande imprensa, foi inocentado com provas gravadas 4 horas depois. Isto foi o resultado de uma ação online de jornalistas que nem se conheciam durante toda uma madrugada, em um trabalho ainda anônimo e gratuito infelizmente.
Como se adaptar às novas tecnologias, produzir notícias e se sustentar, eis a pergunta. A grande imprensa e os serviços de comunicação oficiais, empresariais, religiosos e partidários estão correndo atrás do trigo/notícia. Tentam imitar os métodos de produção e distribuição das notícias das redes sociais, redes sociais que nada mais são que a multiplicação do rol de fregueses da padaria do seu Manel, padaria onde de manhã, você sabe realmente o que acontece em sua esquina o que não dá certo pois confiança não se compra.
Confiança e solidariedade entre si e respeito à notícia e para com a pessoa noticiada, deveria ser uma regra de ouro para jornalistas.
A grande imprensa perdeu a confiança do leitor, o que respingou para os jornalistas que cairam no engodo corporativista passè.
Está aí uma grande chance dos jornalistas retomarem o controle do seu trigo-conteúdo. Grandes redações não irão mais existir, pois deram lugar aos grandes conglomerados que se alimentam de notícias gratuitas, mas com conteúdo repetido ou reload.
Jornalistas que se associam em grupos locais para venderem seus “conteúdos” tem sido a resposta, para a independência e autonomia jornalística em vários países, aos avanços rapinantes no mercado de produção de notícia.
O quadro não é dos mais alvissareiros, o velho jornalismo tá morto, mas o velho jornalismo está mais vivo que nunca, pois os acontecimentos estão aí, e o negócio é descobrir como se apropriar da tipografica-forno produtora da notícia, ao invés de entregar a rapadura pros googles da vida.

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