Pelo fim da tortura no Brasil!


por ,  do original Ninja

‘Vocês deviam todos morrer’ diz PM para repórter NINJA presa. Leia o relato completo

Karinny Magalhães durante transmissão ao vivo na Abertura da Copa do Mundo em Belo Horizonte. Foto: Maria Objetiva

Karinny Magalhães durante transmissão ao vivo na Abertura da Copa do Mundo em Belo Horizonte. Foto: Maria Objetiva

Com cara na parede, mãos imobilizadas para atrás do corpo, ouvia aquela voz, que já tinha me xingado algumas vezes, justificar o porquê de tanta agressividade e ódio: – Vocês são o câncer do mundo, deviam todos morrer.

Dia 12 de junho. O ato que marcou a abertura da Copa na capital mineira foi campo de luta e resistência em todo país. Em Belo Horizonte os participantes concentraram-se na Praça 7 e antes mesmo do início da manifestação foram abordados pela PM de forma truculenta durante o procedimento de revista. Iniciamos a transmissão por volta de 12h, quando vários movimentos já estavam reunidos no local. A passeata percorreu as ruas de Belo Horizonte até chegar a praça da liberdade, onde o relógio da FIFA – monumento que fazia a contagem regressiva dos dias para o evento – permanecia isolado e escoltado pela tropa de choque da Polícia Militar.

Na chegada ao relógio, a tropa nos atacou com balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo. Ficou claro o nível de despreparo, ou talvez a má intenção da PM mineira, que usou a força e praticou uma violência desmedida para “manter a ordem” de uma manifestação que até então era totalmente pacífica. Após o ataque, os grupos que participavam do ato se dispersaram, e foram divididos pela policia. Não consegui encontrar os membros da equipe de cobertura do NINJA e segui transmitindo o confronto da tropa de choque contra os manifestantes, que neste momento já eram minoria em relação ao contigente policial.

A violência começou a se intensificar entre PM e manifestantes, mas segui transmitindo ao vivo e narrando os acontecimentos, fazendo o que estava lá para fazer.

Segui um longo trajeto entre a Praça da Liberdade e a Praça Raul Soares e ao chegar na Av. Paraná 10 policiais correram para me imobilizar junto a outras pessoas que eu não conhecia. Depois de ser imobilizada fui alvo de agressão física e verbal. Tapas na cara, golpes de cassete na perna e nas costas – foi esse o protocolo da Polícia Militar ao fazer a abordagem.

No áudio da transmissão ouve-se facilmente ofensas machistas direcionadas à mim. Sou mulher, sou ativista, sou mídia e sou livre. Estava no direito de cumprir o meu trabalho documentando o que via nas ruas.

Fui conduzida à um posto policial próximo ao local que fui abordada com mais 3 pessoas. Chegando no local, mais agressão. Tapas, chutes, pancadas de cassetes e dessa vez até cuspe para nos dar as boas vindas. Quando me identificaram como a narradora do live, me tomaram o celular que estava transmitindo. Mandaram eu fazer o desbloqueio do celular para a “averiguação” do aparelho, mas como eu não sabia a senha, pois o celular era de outra NINJA, fui isolada do grupo e colocada sobre uma mesa, onde 05 políciais – homens e mulheres – que me bateram para forçar que eu dissesse a senha.

No momento do espancamento, um deles me acertou o lado esquerdo da cabeça. Desmaiei por um tempo. Quando me dei conta, estava acordando à base de mais tapas com os gritos de “Acorda, filha da puta!”, e quando recuperei a consciência, estava novamente junto aos 3 manifestantes que também foram recolhidos. Em seguida, fomos algemados e mantidos de pé por cerca de 2 horas, onde ouvimos calados os xingamentos, recebemos de olho aberto os cuspes e empurrões. Além de ter que aguentar isso, tive que escutar cantadas fajutas que me chamavam de “Gostosa!”, sendo declaradas em baixo tom para que não fosse ouvido por muita gente. Nojo Define!

Depois de consultarem minha ficha no sistema, descobriram que meus pais exercem a função de policiais civis, no Amapá – meu estado natal. Constatado isso, passaram a ironizar a minha participação no ato. Como se a profissão dos meus país fosse um motivo para inviabilizar minhas lutas e o exercício de minha atividade como midiativista.

Somente depois de uma hora e meia reclusa neste posto policial (fato que não consta nos autos do processo) fui conduzida até a “Delegacia da Copa” como se referiam os policiais. A principio, esta delegacia especial foi criada para receber todos os cidadãos que forem presos durante as manifestações. Chegamos por volta de 19h30, e fomos recepcionados por um grupo de advogados voluntários e da defensoria pública que foram muito atenciosos, e nos instruíram e apoiaram o tempo todo. Com a presença dos doutores, o tratamento mudou completamente, a tal ponto que os mesmo policiais que me chamaram de filha da puta, pediram desculpas quando fizeram um pouco de força ao tirar as minhas algemas.

Na delegacia desde o começo da noite, só consegui comer depois que os advogados – que me acompanhavam o tempo todo – conseguiram levar um sanduíche até a sala onde eu estava. Fui agredida por volta das 18h, e mesmo me queixando das dores que sentia logo que cheguei a delegacia, só fui levada ao hospital às 3h da manhã. Felizmente não quebrei nada, o que eu apresentava eram lesões leves, segundo os médicos de plantão. Saindo do hospital fui ao IML fazer o exame de corpo de delito , e quando voltei a delegacia fui encaminhada para prestar depoimento. Na presença de dois advogados, relatei exatamente o que aconteceu, mas mesmo diante do meu relato e da intervenção dos advogados, o delegado afirmou que as declarações dos policiais eram soberanas as nossas e que eu seria presa e indiciada.

Às 5h da manhã, fui oficialmente declarada uma presidiária do estado de Minas Gerais e às 7h cheguei ao CERESP, mas tive que voltar ao IML para fazer o exame de corpo delito, necessário para minha inclusão no presídio, porque o laudo feito anteriormente tinha misteriosamente “desaparecido”. Ao voltar a outra DP para fazer o exame, o segundo médico sequer tocou em alguma região dos machucados pelo meu corpo.

Sem notícias de nada do que estava acontecendo, da mobilização nas redes e do próprio processo jurídico, ao chegar novamente ao CERESP Centro-Sul, por volta das 9h da manhã, encontrei meus companheiros do Fora do Eixo e o deputado federal Nilmário Miranda, que estavam ali para garantir que os atos de agressão não voltassem a se repetir no presídio.

À tarde, fui levada até ao Ministério Público para prestar depoimento para a Promotora Nívea Mônica na presença do presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB-MG, William Santos e da Defensora Pública Fernanda que naquele momento já estavam responsáveis pelo caso e gentilmente me atualizaram do processo judicial em curso. Ao cruzar os corredores do MP pude novamente rever os companheiros da Casa FDE Minas, e mesmo com o coração dilacerado, e o corpo exausto, tive a certeza que existia um cuidado e uma mobilização enorme para que a Justiça fosse feita e eu pudesse sair daquela situação. Este breve contato fez eu sair do MP e voltar para o presídio com a força necessária para dar conta de um dia que ainda seria longo.

Depois de chegar e passar por todos os procedimentos, ali estava eu, encarcerada, de uniforme, numa cela com outras 6 detentas, pensando que agora fazia parte das estatísticas. Durante todo o dia não foi possível para de imaginar que esse era só mais um caso de injustiça, como centenas e centenas de outros escondidos e invisibilizados. O conforto que tinha ao lembrar das pessoas que junto comigo constroem uma rede de comunicação e cultural no Brasil, e buscam a partir dela combater estas mesmas injustiças, misturava-se com a indignação de saber que muitas mulheres que estavam naquela mesma situação que a minha não tem este conforto, e por isso não teriam a mesma sorte.

Por volta das 2 da manhã, quando já pensava que passaria a noite na prisão, fui chamada e avisada que seria solta. Ao sair, e novamente reencontrar meus parceiros de vida e retornar a Casa Fora do Eixo Minas é que tive consciência de todo o movimento e de toda a mobilização em torno da minha liberdade. Mais do que nunca tive a certeza que mesmo com as injustiças ainda prática das contra novas formas de vida e organização, eu estava no lugar certo, com as lutas certas.

Tenho que agradecer muito a todos os que se mobilizaram, em especial aos fora do eixo e ninjas espalhados pelo Brasil e pelo mundo. Tenho a plena convicção, que mesmo com toda a tentativa de impor o medo, a coragem de todas estas pessoas juntas são de extrema importância para que possamos seguir lutando contra o machismo, injustiças, desigualdades e pelos direitos fundamentais da liberdade de imprensa e a possibilidade de termos uma nova policia, desmilitarizada e cidadã.

Nota da Mamapress: Desde o caso Amarildo que ganhou notoriedade mundial no auge das demonstrações de 2013, o Brasil toma conhecimento através do noticiário diário, que a tortura voltou a fazer escola no sistema policial brasileiro. Já não são casos fortuitos ou extremos de exceção, mas evidências de que cada recruta das PMs do Brasil recebe treinamento de tortura, aplicando na prática durante a repressão e prisões nas manifestações.

Com método, os recrutas e os experientes revezam-se todo o tempo nas distribuição de porradas e aplicações de gases de pimenta em corpos imobilizados. A tortura começa em público no momento da prisão, continua no transporte dos presos quando ocorrem ameças e mais porradas, que podem durar horas no trajeto de 1 km até alguma delegacia.

Em delegacias ou presídios “especiais”, denúncias revelam a existência de salas, em que mais uma vez os “recrutas” se revezam com profissionais na aplicação de tortura.

O objetivo principal é quebrar psicologicamente a resistência e dignidade moral dos presos, como faziam os Doi-Code e as Casas da Morte organizadas pelo Coronel Malhães.

A preparação dos recrutas torturadores deve acontecer em um momento anterior. Devem receber instruções dos capitães, orientados por especialistas de polícia dos EUA, França e Alemanha ( pelo noticiário podemos observar que a lista de “técnicos de segurança” que visitam o Brasil no momento é enorme). Nestas instruções, devem receber orientações que jornalistas, advogados, ativistas de direitos humanos e manifestantes são os inimigos, são o lixo e a doença e o câncer da sociedade e que devem ser eliminados.

O método do revezamento dos recrutas durante os espancamentos tem um objetivo. Tornar a todos cúmplices da tortura. Mesmo quem não participa torna-se cúmplice. Todos escutam os gritos dos torturados e o barulho surdo das pancadas.

No “Container” e seu entorno em que Amarildo foi  morto sob tortura, todos e todas as policiais de plantão, ouviam os gritos e gemidos de Amarildo.

O Brasil está institucionalizando e popularizando a tortura durante um regime democrático. Está acontecendo uma institucionalização, disseminação  e banalização da tortura que somente temos conhecimento acontecer em regimes extremamente ditatoriais.

Ou acordamos ou seremos todos vítimas. (MR)

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