ACARI COMO SE FOSSE ANGOLA: DOIS PEQUENOS JOGADORES MEUS ACHAM E SE FEREM GRAVEMENTE COM UM GRANADA CASEIRA.


De Vanderley Da Cunha Vanderley*
foto da internet

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Na 5ª Feira treinaram comigo e ficaram felizes em saber que iriam disputar um campeonato fora da favela em Agosto. Na 6ª feiras,por volta de 11h, o mais velho, de 11 anos foi buscar o mais novo,8 anos, na escola, no caminho acharam uma granada caseira, esquecida por “alguém” durante uma fuga de policiais. O mais velho chutou o artefato pensando ser um punho de guidão de bicicleta. A granada detonou a um metro dele e cerca de 200 estilhaços feriram gravemente suas pernas e o tórax do mais novo, que esta com fragmentos até no fígado.

foto Manuel Bastos, internet

foto Manuel Bastos, internet

A cena para quem viu foi como alguém viveu num documentário sobre minas terrestres em Angola, explodindo sob as pernas de meninos procurando uma bola de trapos no meio de um moita. Horrível, medonha.

Os dois vieram do Maranhão há pouco tempo e não tem os mesmos conhecimentos bélicos que as crianças criadas na favela.

Tenho um carinho especial por eles pois são caladinhos mas estão evoluindo bastante nos treinos.

Que que eu faço agora, diz aí? Nada! Só choro muito quando lembro deles nos treinos. Agora a pouco abri um foto do time e lá estão eles, com carinha de criança de roça… simplezinhas mais com ar de felicidade por estarem onde jamais imaginavam estar quando chegaram na favela: nas equipes de base de um clube de futebol profissional.

Quando meus pequenos estarão comigo, com a gente de novo? A médica falou que correm risco de infecção generalizada já que granada caseira é feita com fragmentos de metais contaminados: pregos, pedaços de lata, bilhas…

O mais velho esta com um pedaço de lata do tamanho uma unha atrás da veia femural. Se for removida agora pode dilacerar a veia e mata-lo.

Quero meus pequenos de volta logo. Daria uma das minha pernas, meu fígado para não ficarem mutilados.

Quero visitá-los… mas não tenho mais ânimo, vontade de lutar, pra que porra? Porque as crianças faveladas, principalmente as mais simplezinhas tem que pagar pela violência dos adultos?

Se o tiro que raspou minha cabeça sábado passado me atingisse, que falta eu faria? Já vivi muito e fiz tão pouco pela minha favela, pelas minhas crianças? Espero tão pouco, minha esperança cada vez mais se esvai entre os becos de Acari, mas porque a violência atinge quem esta começando a vida com simplicidade, inocência, esperança?

Que os Orixás abençoem, protejam de deem muita saúde a minha “menorzada”, e preserve suas vidas! Se precisar diminua o que for preciso da minha. Já não preciso viver tanto, nem sei se quero. Eles precisam viver muito, e querem tanto.

Eles estão sofrendo e sentido as dores que nós adultos merecemos… eles não. Que as Yabás façam sofrer quem merece.  As crianças de minha favela, Senhoras Rainhas, por favor não, não mais, não mais, não mais, NÃO MAIS!

Eu sim!

Deley Caso De Acari Chacina Vinte Anos

Nota da Redação
Nosso amigo Deley do Acari, é um poeta, ativista social da favela do Acari. Forma há anos jovens para a vida. Através do esporte, da poesia e criatividade.
Nossa solidariedade da Rede Rádio Mamaterra

 

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