Para promotor, Fifa e Comitê Olímpico têm que explicar se houve racismo ao recusarem Lázaro Ramos.


Da Redação da Afropress

 

S. Paulo – O promotor Christiano Jorge Santos, da 6ª Promotoria de Justiça Criminal de S. Paulo, vai propor que o Comitê Olímpico respeite nos próximos eventos a composição étnicorracial brasileira, ao contrário do que aconteceu no sorteio da Copa do Mundo, no final do ano passado, quando os apresentadores escolhidos foram a atriz Fernanda Lima e o ator Rodrigo Hilbert, ambos da TV Globo.

Por causa da opção feita, Santos instaurou procedimento para apurar crime de racismo por parte da FIFA já que os atores Lázaro Ramos e Camila Pitanga, da mesma emissora, que na sua opinião representavam de maneira mais adequada “a composição étnica e racial do povo do Brasil”, foram preteridos. Santos disse que não se discute o mérito nem o talento dos escolhidos, mas o fato de não representarem a diversidade étnicorracial brasileira.

O compromisso por parte do Comitê Olímpico é a condição, segundo o promotor, para o encerramento da investigação em que já foram ouvidos o presidente da CBF, Marco Polo Del Nero e o produtor Luiz Gleiser, da TV Globo. Também já foram expedidas cartas precatórias para a Justiça do Rio, para a coleta dos depoimentos de Lázaro e Camila.

Afropress – Como foi a repercussão ao procedimento investigatório adotado pelo senhor no caso dos apresentadores do sorteio da Copa?

Christiano Jorge Santos – Destaco duas coiss interessantes, que me chamaram a atenção. A notícia repercutiu muito no exterior. Teve uma repercussão enorme, saiu em todos os jornais importantes do mundo e os comentários das pessoas no exterior sobre o episódio, eram sempre extremamente favoráveis. E aí, estranhamente, no Brasil, nos meios de comunicação, 95% dos comentários foram negativos, foram no sentido de desqualificar a investigação, alguns abertamente questionavam: “esse promotor não tem mais o que fazer?”.

Quando se fala em investigação de racismo eu tenho me deparado muito com esse comentário: “esse promotor não tem o que fazer?”, como se investigar racismo não fosse importante. O promotor investigar um crime que viola o direito da igualdade é não ter o que fazer? Isso foi muito revelador de quanto setores da população não entendem ainda a relevância dessa discussão.

Afropress – O que mais chamou sua atenção no caso da escolha da FIFA?

CJS – O próprio José Simão [colunista de humor da Folha] fez um comentário interessante. O casal é muito fofo mas parece que o Brasil foi colonizado pelos vikings. A minha preocupação foi deixar bem claro que qualquer evento, como a Copa do Mundo e até outrosd meor porte, tem de respeitar, na apresentação, a composição étnica do país. E isso não foi respeitado. A composição étnica do Brasil está muito longe de ter sido representada com a escolha feita pela FIFA e Comitê Olímpico.

Afropress – Na sua opinião quais foram os critérios utilizados pela FIFA e Comitê Olímpico para a escolha?

CJS – Em primeiro lugar dizia-se que o casal falava inglês, mas me parece que o Rodrigo não é fluente em inglês. Outra: não existe nenhum negro que tenha a mesma capacidade? Estou querendo que o Lázaro seja ouvido para se saber se ele é fluente em inglês. Se ele for e o Rodrigo não for, me parece que ele teria muito mais condições. Pusessem, então, a Fernanda Lima e o Lázaro Ramos.

Porque do jeito que aconteceu, a metade do país que é afrodescendente, onde ficou? Daí a resposta deles é a seguinte: a metade estava no show, o Pelé, o Cafu, a Alcione, o Alexandre Pires, cantando. Estou questionando os apresentadores porque eles são a representação do Brasil.

Os negros estão lá sim, mas estão na senzala. Estão na senzala da apresentação. Na Casa Grande da apresentação ficaram os loiros, os brancos. Não é questão colocar negros na apresentação mas colocá-los no lugar que merecem estar.

Afropress – O que o senhor pretende sugerir num possível Termo de Ajustamento de Conduta?

CJS – Estou em negociação com o Comitê Olímpico com quem iniciei as tratativas, buscando um acordo. Quero ver se interessa a eles um acordo. Mesmo que eu não consiga apurar o racismo eu quero tirar deles o compromisso de que num evento futuro isso seja respeitado. E respeitado em que termos? Respeitando a composição étnicorracial do Brasil.

Porque para o MP já seria uma vitória importante, mesmo que agente não consiga comprovar o racismo. E prá eles, eu vejo como saída interessante. Qual a razão pela qual eles se recusam a assumir isso? Em eventos futuros é preciso que se respeite a composição étnicorracial brasileira.

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