O lado negro da Reeperbahn


Por AD. Junior

Nas últimas duas semanas eu estive mais na Reepabahn do que jamais estive nos seis anos em que vivo na cidade de Hamburgo, para escrever esse texto.rpee

Recentemente, conheci um brasileiro que me confessou, que não entrava em baladas por conta do preconceito.
Por conta disso – eu disse – Jamais, não é você, talvez haja um dresscode.
Ele me olhou com cara de morte. Ele que tem uma carreira brilhante no Brasil, estuda em uma Universidade Federal e é o primeiro negro que conheço em Hamburgo participando do programa “Ciências Sem Fronteiras”. Resolvi então ir na Reepabahn, já juntando que era aniversário de uma amiga e já dali começava minha pesquisa.

Hamburgo é uma cidade multi-cultural e praticamente todos os grupos étnicos vivem nessa na cidade de mais de 1,5 milhão de habitantes. Com um porto que tem mais de 850 anos, a cidade possui uma das zonas boemias mais velhas do mundo, que é a Reepababahn, o distrito da luz vermelha, atraindo anualmente milhões de turistas em busca de diversão e aventuras na sexta cidade mais visitada da Europa.

Ao chegar na estação St. Pauli, que dá acesso ao distrito, muitos jovens estão curtindo a noite, outros vomitam pela rua, alguns vestidos a fantasia fazendo festas de despedida de solteiros etc. É tudo muito maluco e divertido e eu que não bebo álcool e nem sou da noite, anotava mentalmente cada passo e via os jovens alemães e turistas animados em busca da sua festa. Há possibilidades infinitas de bares e baladas. Mas se vc olhar com olhos mais desafiadores, notará negros pelos cantos, acredito africanos, parados do início ao fim da extensa avenida, o que estão fazendo ali? Muitos, infelizmente vendendo Drogas. A história se repetindo na Alemanha. Seria essa a razão de ser barrado? Um segurança não saberia distiguir os famosos dealers que estão ali todos os dias de pessoas comuns em grupo?

Costumo dizer que quando está no exterior, o brasileiro se junta por afinidades, esquecemos nossos preconceitos de classe e acabamos formando um grupo muito heterogênio, não parecemos uns com os outros. As pessoas se surpreendem quando há encontros num restaurante ou bar. Vocês são de onde? Logo respondemos: Brasil. As pessoas dizem: mas ela parece alemã, ele parece japonês e ela parece afroamericana. É complicado na cabeça de um sul coreano ou alemão entender que somos um país multi racial, muitas vezes as pessoas nos colocam em caixas para determinar quem somos. Afinal, quem é Brasileiro?

Fala-se muito do preconceito no brasil, ele existe. De fato, o brasileiro é preconceituoso, mas nossa questão se dá mesmo na hora de distribuir a população por renda e educação. Neste momento chegamos a ver em que nível estão as diferenças. Contudo, nós nos falamos e vivemos nos mesmos bairros, convivemos em um equilibrio maior do que nos Estados Unidos por exemplo, aonde até igreja tem cor.

Na sexta feira, nosso grupo resolveu entrar no Bar Fritz na comemoração de aniversário de uma amiga nossa, fomos barrados por que segundo o seguranca eram todos homens, até aí tudo bem, isso acontece muito mas resolvi observar quem entrava, logo após entraram dois rapazes loiros sem que houvessem perguntas, eles simplesmente passaram pela porta, vale lembrar que aquela porta era somente a porta de entrada, para evitar tumulto a saída era do outro lado do predio, portanto eles não estavam lá.
Eu disse que estávamos com um grupo que já se encontrava no local, enquanto eu falava entra mais um rapaz, branco, o segurança diz: “Procure a pessoa e manda ela te buscar na porta ai vcs entram”. (?)
Eu disse que era discriminação porque éramos negros, o rapaz insistia que não era e que eu estava errado, portanto nem mesmo com a pessoa vindo na porta eu entraria. Você fala demais, quando argumentei, que era preconceito ele usou a expressão: Acabou a noite pra vc! Aqui vc não entra. A confusão foi tamanha que um gerente teve que dizer que éramos parte de um grupo enorme. E entramos. Eu de bico.

Imagine a salada mista que é o Brasil e o seu povo multiétnico; Um negro de características bem africanas, um mulato com traços mouros que poderia ser marroquino ou argelino, Um branco de cabelos loiro e olhos verdes que parece um italiano do norte e por fim um moreno que poderia ter nascido na Espanha. Todos falando a mesma língua. Esses quatro amigos resolvem sair para uma das noites mais famosas do norte da Alemanha e vc sabe o que acontece? São barrados, não todos os primeiro, O pseudo-italiano passa tranquilamente quando o segurança simplesmente barra os dois negros. Sem reação todos resolvem sair do local e por um minuto estão todos constrangidos, no meio da rua sem saber o que fazer.

No Brasil há uma lei que impede as pessoas de discriminarem outras por cor. Na Alemanha também – A pergunta que fica é como denunciar?

Na semana seguinte fomos os quatro novamente e nós dois negros não pudemos entrar. Desta vez no clube Frida. Olhávamos e repetíamos em inglês e alemão: Queremos entrar, o segurança  que dizia não, e nos empurrava para fora. Entramos pela porta lateral e a composição do clube era a mesma que se via nos outros clubes, asiáticos, brancos mas e os negros?

Importante entender que na Reepabahn, em muitos clubes não se cobra entrada e por isso um segurança “controla” a porta, no caso seja qualquer clube q esteja, pode ter certeza que se for negro e só, não entra.

Eu simplesmente não queria dar o braço a torcer e fui sozinho a um outro bar. O segurança disse que eu só poderia entrar acompanhado de uma mulher. Foi nesse momento que encontrei um amigo e pedi para ele entrar no clube, ele branco passou tranquilamente pela porta , e o seguranca lhe comprimentou como se ele fosse até uma pessoa bem vinda no local… Ele claro voltou e com ele fui a um bar conhecido por ser alternativo.

O local era na rua muito movimentada e eu perdi o meu amigo de vista. Eu gritei o nome dele e levantei a mão, era uma enxurrada de gente… na porta do bar nos abraçamos rindo do episódio patético e entramos na fila. Foi quando o segurança me disse:
– Com esse seu comportamento agressivo voce não entra.
– Sorry? como? – Eu respondi.
– Eu estou olhando vc desde da hora que voce gritava ali. Não entra.

Ou seja além de ser negro não posso falar alto, tenho q me comportar como nem eles mesmo se comportam, já viu como um grupo de alemãe bebados no trem ou na rua mesmo?Importante é salientar falar como é que os seguranças falaram comigo nessas 2 noites: sai, sem papo, não entra. Alguns não falam so nos delimitam o chão com a mão, daqui pra fora!

Vale ressaltar que somente em dois clubes que entramos não fomos barrados, um pagando e outro que estava vazio, em todos os outros tive q usar tricks pra entrar. Ou seja sozinho só sendo eu mesmo, ou seja negro, não entro na maioria.

Pode-se dizer que eu estava bem vestido, Camisa Polo, Calça Social e um sapatenis. Mas minha cor estava complemente errada. Aliás como Ouvi de um amigo Francês da Martinica: “Aqui é o país deles e eles estão começando a repetir tudo denovo, eles nunca vão assumir que é preconceito de cor, nunca“

Não saí de lá como vítima, mas após vários bares em algumas noites em diferentes pontos do bairro. Eu simplesmente descobri uma nova face do país que vivo, que até então desconhecia.

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2 pensamentos sobre “O lado negro da Reeperbahn

  1. Pingback: O lado negro da Reeperbahn | Áfricas - orgulho de ser!

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