NESSA PÁSCOA NÃO TEREMOS MAIS CACAU!


por adriana martins

Houve um tempo em que apesar das adversidades sociais podíamos comemorar a páscoa com todos  os seus ingredientes: almoço em família e ovos de páscoa para as crianças. Contudo  a páscoa deste ano será amarga como fel. Não teremos mais CACAU para adoçar a vida de seus familiares.

Claudia-da-Silva-FerreiraAliás assim como ela, não teremos Amarildo, Rolezinho e tant@s outros negr@s que por qualquer desculpa esfarrapada principalmente como alto de resistência, foram exterminad@ s pela polícia racista brasileira. Mas CACAU sempre trabalhou e como a maioria das mulheres negras, além de criar seus filhos ainda  cuidava de vários sobrinhos com seu digno salário. Exercia a função de serviços gerais e era estimada pelos colegas de trabalho. Era uma mulher moradora de comunidade, negra, pobre, e que tinha muita dignidade. Ela só não sabia que no dia dezesseis de março, seria mais uma vítima do racismo brasileiro  que vem ganhando novas roupagens  com velhos objetivos conhecidos.

O objetivo do extermínio.   É mais fácil exterminar do que  criar uma política eficaz ao combate do tráfico de drogas.

Uma vez que, nas comunidades não há laboratórios para processamentos de entorpecentes e muito menos áreas para cultivos, o lucro é incalculável e o exército que tomba  são de jovens na maioria negros e agora também  mulheres negras.

A maioria dos jovens são cooptados pela  “vida “ oferecida pelo submundo do tráfico, é uma vida  em que o próprio  Estado de consumo capitalista  diz o tempo todo  o que nossos jovens negros precisam consumir para serem o “cara”.

Convenhamos,  o salário mínimo vigente no país não sustenta  o consumo massificado  pela mídia.  Isso quando  se tem o emprego.

Não há uma política de emprego para a juventude em geral, e, principalmente a  negra no Brasil. É mais fácil exterminar-la, porque não há espaço  para essa juventude dentro do  novo formato  capitalista global  corporativo  que vem tornando-se  a cada dia mais agressivo.

Não é possível a inclusão e muito menos  relativizar desigualdades dentro  de um país, que foi construído economicamente  sobre   pilares da escravidão.

É necessário criar uma política de reparação, verdadeiramente eficaz  dentro estado brasileiro para com os descendentes de escravizados no Brasil.

Claudia-da-Silva-Ferreira2CACAU, era uma mulher negra e de fibra que foi brutalmente assassinada  e arrastada pelas ruas do Rio de Janeiro, como  nos tempos da idade média. Essa  nossa irmã  só não  foi associada ao tráfico  ou sua morte registrada como auto de resistência, por conta  da ação de um cinegrafista amador que, registrou  tudo. Mesmo assim, após dois dias  de detenção os assassinos foram colocados em liberdade.

O tratamento que foi dado a essa afrodescendente, deixou-me   paralisada diante da TV,  tentando negar meus sentidos de aquilo não estava acontecendo.

Assim como eu,  tenho a certeza que a indignação foi de conjunto. Éramos poucos, mas fomos às ruas,  mostrar a família e ao Estado Brasileiro, que essa atrocidade  não nos  calará e não fará que a luta pelo fim do racismo  seja freada pelas cooptações governamentais.

Chega de EXTERMÍNIO DO POVO NEGRO!

Chega da falsa “redução de política de desigualdade”.

Chega de marketing político. Receber a família, e enviar nota  de pesares, não resolve o problemas, e muito menos, evitará novos extermínios do nosso povo negro. Não resolve de fato a estrutura racista existente em nosso país e jogado há centenas de anos  para de baixo  do tapete com discursos  do mito da democracia racial.

Quem matou e arrastou Cacau? Você  de imediato responderia os PMS  do 9º Batalhão-Irajá-RJ. Mas eles só são os executores. Quem matou Cacau, foi a inexistência de uma  política e falta de coragem  do governo brasileiro de meter o dedo na ferida estrutural do racismo.

Claudia Silva FerreiraCacau não dará chocolate aos seus filhos nessa páscoa , mas nos deixa uma lição antiga e infelizmente muito atual, defendida pelo Movimento Negro Unificado:

REAJA OU SERÁ MORT@. Está na hora de fazer barulho, repensar para que estão servindo os equipamentos governamentais  para políticas de “inclusão” e redução das “desigualdades”,  temos de  repensar  uma atuação coletiva com a qual  possamos de fato reagir. Não podemos mais permitir nosso extermínio como baratas.  E muito menos permitir que falsas políticas executivas, sirvam apenas para sustentar o Brasil racista.  A minha,  a nossa solidariedade  a família de Claudia Silva Ferreira. A Cacau do Morro da Congonhas-RJ.

 

Adriana Martins

Ativista feminista anti-racista

Articulação de Mulheres Brasileiras

Yaô- Asé Bangbosé

 

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Um pensamento sobre “NESSA PÁSCOA NÃO TEREMOS MAIS CACAU!

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