Não sei o que escrever. Meu amigo, jornalista “Chiquito” Francisco Chaves está ameaçado de morte!


por marcos romão
É complicado, muito complicado mesmo. O fotógrafo e jornalista Francisco Chaves é um amigo muito próximo. São mais de 40 anos que trocamos figurinhas da vida. E como gostamos da vida, do prazer da vida, de nossos amigos e dos nossos povos do mundo.
Chiquito como é conhecido, está aposentado, mas jornalista investigativo nunca se aposenta, está preparado até para fotografar o próprio epitáfio.
Sua câmara tem acompanhado os acontecimentos candentes dos últimos 2 anos no Rio de Janeiro. Jornalista ativista, ele denomina a si próprio. Jornalista cidadão eu chamo o meu amigo Francisco.
Fotógrafo jornalista da velha escola em que o povo leitor é o patrão.
Está tudo muito perto, apesar do calejamento de já ter perdido amigos próximos, ameaçados de morte por políticos, policiais, bandidos e milicianos, não pela ordem e muitas vezes tudo na mesma pessoa de um mesmo algoz, me balança uma situação como esta.
Sei que está tão próximo, como um mês antes conversei com Tim Lopes, e coincidentemente também um mês antes conversei com Chico Mendes, que havia junto comigo ganho uma bolsa de ajuda de grupos de direitos humanos. Ajuda para sobreviver. Para eles não deram certo todos os avisos.
Nem sempre acontece um final trágico, tudo depende da mobilização popular e da ação preventiva das autoridades, como foi positivo o desfecho das ameaças que o sucessor na época de Chico Mendes, o meu amigo Osmarino Amâncio Rodrigues, que assumiu a liderança do sindicato, após o assassinato do Chico Mendes. Tive a oportunidade em março de 89 de participar de uma operação de resgate de Osmarino em Brasiléia. Resgate organizado pela rede de direitos humanos informal entre Movimento negro e os Povos das Florestas, que nós participávamos.
Mas estamos no Rio de Janeiro, a Capital da Copa 2014 e não no meio da floresta amazônica, sem telefone e sem internet. Entretanto me parece mais complicado manter Francisco Chaves vivo..
Francisco Chaves foi ameaçado por um possível miliciano bombeiro na esquina de onde mora. Foi humilhado diante de seus vizinhos, sofreu um linchamento moral,  além de ameaça de morte e viu sua esposa e neta à 50 metros sem poder contatá-las, para não as por em risco.
O motivo da ameaça teria sido um entrevero que teve com este suposto bombeiro, quando cobria a desocupação da Aldeia Maracanã em 2013.
Estamos no Rio de Janeiro, onde as milícias pms, fantasiadas de seguranças de lojas, tomaram conta das cidades.

O inspetor que o atendeu na 26a Delegacia de polícia, lhe recomendou que da próxima vez que ver o cara, “partir prá cima dele ou se mudar de bairro”. Isto no Meyer, na cidade do Rio de Janeiro em um bairro de classe média tradicional.
Chiquito tem um nome, uma família e amigos, Não irá seguir o conselho dado pelo inspetor de polícia. Nesta quarta-feira , 16.04, irá à Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa e à OAB, acompanhado da presidente do sindicato de jornalista do Rio, que também foi recentemente ameaçada dentro da sede do sindicato de jornalistas por um PM2, que queria uma carteira de jornalista, para melhor se infiltrar nas manifestações e no meio jornalístico.
Nós da Rede Rádio Mamaterra, assim como as redes sociais em que Francisco “Chiquito” Chaves colabora, seus parentes, amigos e “curtidores” estamos apreensivos. Queremos o Chiquito Chaves sempre vivo.

Abaixo o depoimento de um fotógrafo-jornalista que atuou nas últimas décadas em praticamente toda a grande imprensa do Rio de Janeiro. O depoimento de um homem, de um ser humano com a sua morte anunciada:

VIDA QUE SEGUE?

chiquito e romão

Francisco Chaves cobrindo a manifestação do Movimento Negro em Madureira: “Somos todos Cláudia”

(TUDO ACONTECEU NA VOLTA DO MASSACRE NA FAVELA DA TELERJ)

Quando meus amigos me perguntam se podem utilizar minhas fotografias, a resposta é sempre a mesma: “Claro, meu trabalho imagético é feito para que todos dialoguem com ele”

Agora, quando amigos e interessados em Direitos Humanos querem saber como me sinto após ter sido ameaçado de morte, às 16 horas, na 6ª feira passada, na principal rua do meu bairro, o Méier, respondo meio que angustiado e amedrontado,sim.

Não tenho medo de enfrentar nas minhas coberturas em manifestações, despejos e atitudes violentas contra a vida, policiais fardados; meu temor é quando esses indivíduos, assassinos de aluguel, estão “a paisana”, termo usado por meu agressor para se definir naquela hora.

Aí mora o perigo, você não terá cobertura daqueles que poderiam ou possam ser seus testemunhos, você vira uma caça e o seu interlocutor o caçador; aliás, é incrível verificar que a Rua Dias da Cruz, assim como a maioria das ruas do Rio de Janeiro, estão acobertadas pela pseudo segurança desses bandidos “desfardados”, porém armados e ameaçadores.

Quanto eles ganham para arrebentar, injuriar ou matar um cidadão ou uma cidadã? A resposta varia conforme a importância da vítima, pode-se custar 200 reais ou até 100.000 reais, como pode acontecer de se ser morto gratuitamente, e depois os assassinos, como vários que diariamente sabemos, são acobertados por seus patrões, os políticos, os magistrados, os empresários e essa sociedade hipócrita e covarde, que convive e aprova o arbítrio dessa ditadura político policial que se apoderou do espaço urbano Carioca.

Estou muito preocupado com a situação por vários motivos:

1º Sou um midiativista idoso, tenho 65 anos, sou aposentado com 1 salário mínimo, moro ao lado desse local em que aconteceu a injúria e a ameaça.

2º Aqui, todas as lojas possuem seguranças “policiais, bombeiros e gm”, fora que a PMERJ e a GM estão sempre tirando casquinha na padaria, no Rei do Mate, etc. Esse cara também é ligado ao crime organizado, isto é, ele entrou no prédio 505, onde fica um escritório e um ponto de jogo, apesar de estar a dois prédios da escola MAXX, fato preponderante de uma logística criminal.

3º Passo ali duas a três vezes por dia, muitas vezes tarde da noite, eu e minha câmera, fui desmoralizado na frente de mais de uma dezena de pessoas, minha esposa Grace e a minha netinha Laura, 3 anos, estavam a 50 metros do local, esperavam-me, pois fui ao jornaleiro comprar revistinha da “pepa pig”, em uma banca que sempre comprei, desde da infância dos meus 5 filhos, hoje, todos adultos, tenho 40 anos de casado e 4 netos. Lá começou a patética agressão verbal e moral à minha pessoa, culminando com a ameaça. Tentei pedir ajuda no “Rei do Mate”, detalhe, todos me conhecem, mas, debocharam de mim, o jornaleiro me mandou se foder, os PMs, a quem pedi ajuda para poder passar com minha mulher e netinha novamente pelo local, disseram que nada podiam fazer sem testemunhas, todos me ignoraram, só havia o carro do bandido – SIENA LNP 4605 (verde escuro), totalmente fechado.

4º Estou muito aflito, pois, ao fazer o BO, na 26ª DP, o inspetor me disse que se algo voltasse a acontecer, eu corresse ou tacasse um pau no cara, melhor seria eu sumir da área, que provavelmente o BO não daria em nada.

5º Ontem, não saí, não fui naquela área, não fomos comer uma pizza. hoje não pude ir comprar pão. A situação é essa, hoje, e amanhã ou depois?

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Um pensamento sobre “Não sei o que escrever. Meu amigo, jornalista “Chiquito” Francisco Chaves está ameaçado de morte!

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