Mais um negro que chora diante da agressão racista. Desta vez um PM do Espírito Santo


por marcos romão e afropress-redação

Ao ler a notícia que o cabo da Polícia Militar e estudante de direito Edson Rosa, que, vestido de sandálias, bermudas, camiseta e boné, foi comprar em sua folga, 2 garrafas de vinho em um hipermercado e depois da compra, foi parado, despido, revistado e humilhado por 2 seguranças do mercado por suspeita de roubo, me perguntei sobre a sua reação ao ato covarde e racista. Ele reagiu de forma cidadã, deu queixa na delegacia e chorou. O choro do cabo Edson Rosa me fez refletir sobre a violência que é uma agressão racista. Me passou um filme na cabeça dos 40 anos que acompanho vítimas do racismo no Brasil e no mundo e dos anos a mais, em que desde que me entendo por gente, vejo e vivo situações de agressões racistas.

extráido de vídeo G!

extráido de vídeo G!

A agressão racista, se é que se pode comparar agressões, atinge mais que um tapa na cara, pois atinge o cerne da condição humana do indivíduo agredido. Um olhar de soslaio recebido ao se entrar numa loja, uma frase dita entre dentes que a vaga está preenchida, um sorriso surpreso que acompanha a frase, mas você é muito inteligente… São situações do cotidiano que torna grossa a casca dos negros do Brasil. Quando esta casca grossa da alma se abre através de uma agressão racista mais evidente, o choro explode. Pode ser hoje, pode ser amanhã, pode ser daqui a 20 anos, mas o choro da violência secular explode! Explode como o de uma advogada, que depois de enquadrar uma racista no Ceará, me disse: “Tirei férias, Romão, preciso de um mês para chorar”. Muitas vezes me chocou o despreparo frente ao racismo escancarado que se sofre, por parte das pessoas negras no Brasil que me procuram para uma orientação. Queria compreender. Ainda não compreendi, mas chego lá, e cada leitor interessado pode ajudar na compreensão deste fenômeno em que a vítima é quem sente vergonha. Em 1998 fui agredido até a coma por um racista em Hamburgo, pude descrever a figura que foi presa logo em seguida. Mas me lembrava principalmente do seu olhar ao me agredir com um martelo. Era um olhar sem ódio e sem sentimentos. Eu não existia para o racista. Este olhar vítreo foi o que ficou na minha memória. Levei o racista aos tribunais, era reincidente e tinha grupo de apoio. Durante dois anos até o final do julgamento, tanto eu como minha companheira precisamos de proteção policial. Nas audiências éramos cuspidos por desconhecidos. O telefone passou a ser rastreado pela polícia, para identificar as ameaças que recebíamos. Toda essa situação enfrentei com bravura, me sentia orgulhoso de ter pego um cara, que anteriormente havia agredido 17 pessoas estrangeiras, a maioria mulheres de África e de países Árabes. Com todas as pressões me sentia um verdadeiro paladino da justiça, forte e do lado certo da humanidade. Esqueci de cuidar de mim. A ficha caiu quando o cara foi condenado à pena de prisão e indenização. Voltei para casa ciente do dever cumprido. Desabei. O olhar vítreo do racista ao me agredir peçonhava em minha alma. Chorei e chorei convulsivamente a cada vez que acordava de manhã durante um mês. Busquei socorro através de profissionais. Um médico chileno que criou no Hospital Charitè de Berlim um centro de apoio terapêutico para vítimas de tortura e violência, me deu o telefone de uma especialista em Hamburgo. Eu um casca grossa neste assunto de racismo precisei urgente de socorro e encontrei. Que bom. Tinga no Peru, a manicure e a cobradora de ônibus em Brasília, todos foram humilhados. A lei Caó precisa ser aperfeiçoada e aplicada. O crime de racismo é uma violência que pode levar à destruição psicológica da vítima. Leis e ações educativas são o que precisamos. Mas antes de tudo o que precisamos é termos uma consciência nacional, de que o racismo é uma violência cotidiana que atinge mais da metade da população brasileira. É como uma máquina que insiste sistematicamente em nos tornar sub-humanos. Nós homens e mulheres negras brasileiros estamos aprendendo a parar de chorar diante do leite derramado. Ainda há tempo para conversarmos. Ainda há tempo para a sociedade brasileira conversar sobre o racismo.

A matéria da Afropress;

Vitória – O cabo da Polícia Militar capixaba, Edson Rosa, sentiu na pele o que significa ser negro em um país que ainda não se livrou da herança da escravidão: ele foi tomado por suspeito de roubo por seguranças do supermercado OK da Avenida Nossa Senhora da Penha, em Vitória, conduzido até o banheiro e obrigado a tirar a roupa, para provar que não havia furtado duas garrafas de vinho.

“Só porque sou negro e ando às vezes de chinelo, me confundiram com ladrão”, disse chorando ao G1, do Espírito Santo, e a TV Gazeta de Vitória, o cabo da PM. O caso aconteceu na última terça-feira (18/02).

Com o comprovante do pagamento dos produtos, o cabo chamou a Polícia e os seguranças foram encaminhados ao Departamento de Polícia Judiciária do Espírito Santo.

Suspeito-padrão

Rosa é cabo da PM há 21 anos, e estuda Direito. De folga do trabalho – portanto, sem a farda – ele entrou de chinelo, bermuda e camiseta no hipermercado com a idéia de comprar duas garrafas de vinho para passar a noite na casa da namorada.

Mesmo com a Nota Fiscal provando que havia pago R$ 75,00 pelo vinho, ele foi seguido pelos seguranças que aproveitaram sua ida ao banheiro para pedir que tirasse a roupa para ser revistado. “Me perguntaram: o senhor pagou esse vinho? Eu disse que sim e que tinha a nota.   Mandou eu tirar a roupa e me fez despir dentro do banheiro, uma coisa muito constrangedora. É uma situação difícil, eu queria morrer a passar por isso. Sempre trabalhei e estudei. É como se eu tivesse tomado uma punhalada nas costas”, contou o policial militar.

Ele não tem dúvida de que foi vítima de racismo. “É o preconceito racial e social que cresce num país democrático de direito que a gente sofre diuturnamente”, desabafou.

O policial procurou a Associação de Cabos e Soldados que decidiu entrar na Justiça pedindo a punição ao supermercado e aos seguranças. “As pessoas têm que parar de julgar os outros pela aparência, têm que aprender um pouco mais a respeitar o ser humano, independente da cor da pele ou roupa que ele está usando. Se alguém chega lá de terno e gravata é tratado de uma forma, se chega com camiseta e uma sandalinha é tratado de outra. Acho que é o momento de refletir sobre isso, respeitar as pessoas independente da sua aparência, condição social ou cor da pele”, afirmou Flávio Gava, presidente da Associação (na foto à esquerda).

Anúncios

5 pensamentos sobre “Mais um negro que chora diante da agressão racista. Desta vez um PM do Espírito Santo

  1. bem feito!sabe quantos pretos esse subserviente ,chorão já abordou por achar que somos ladrões?isso já deve até ter matado preto na madruga.agora tú tens noção de quem é o inimigo.o cara é tão idiota que se esqueceu de puxar a carteira de policial e dar ordem de prisão pros “seguranças”.o pior é que essas atitudes de choro,estão fazendo a população entender que todo preto é idiota e incentivando de certa forma essas atitudes racistas.

  2. O pior dessa história é que não temos armas para lutar. Nem à legislação nem ao Estado podemos recorrer para que sejam tomadas medidas eficazes contra o racismo. Mas, não devemos chorar devemos agir contra essas manifestações irracionais. Não devemos desistir, mas parece que fica sempre o dito por não dito. Fico indignada ainda hoje com o habeas corpus da australiana. Deveria ficar presa e não ficou. Que país é esse???? Sinto vergonha de ser brasileira.

    • Caro Carlos, caso tenha mais informações nos passe, pois se for confirmado que o cabo estava mentindo, divulgaremos. Pois consideramos que possíveis denúncias caluniosas, só aumentam o racismo no país.
      Obrigado pela informação

      http://gazetaonline.globo.com/_conteudo/2014/04/noticias/cidades/1484669-policial-militar-que-disse-ter-sofrido-preconceito-em-hipermercado-mentiu-diz-delegada.html
      Policial militar que disse ter sofrido preconceito em hipermercado mentiu, diz delegada.
      O cabo da Polícia Militar que denunciou o Hipermercado OK da Reta da Penha por racismo, em fevereiro de 2014, mentiu ao realizar a denúncia. É o que conclui o inquérito da Polícia Civil em relação à atitude de Edson Rosa, de 45 anos, que foi indiciado pela Polícia Civil por denunciação caluniosa, crime que dá de 2 a 8 anos de prisão. O caso será encaminhado para a Justiça.

      De acordo com a delegada titular do Departamento de Polícia Judiciária (DPJ) da Praia do Canto, Larissa Lacerda, o inquérito policial investigou imagens e testemunhas que estavam no banheiro do estabelecimento. A conclusão foi de que a única solicitação feita pelo funcionário do hipermercado ao cabo da PM era a de apresentar a nota fiscal dos produtos comprados, duas garrafas de vinho.

      A vítima se torna agora autor do crime de denunciação caluniosa. “Quando ele imputou um crime a uma pessoa que ele sabia que era inocente e moveu todo aparato policial para uma investigação em cima disso, podemos concluir a denunciação caluniosa”, explica Lacerda.
      Segundo a delegada, em um depoimento posterior, Edson afirmou que em nenhum momento pediram que ele se despisse, que teria dito isso por “força de expressão”.

      Procurado pela reportagem, o policial militar informou que vai entrar em contato com seu advogado antes de dar qualquer declaração sobre o caso.

      Garrafas de vinho

      Segundo o policial contou na época, ele estava de folga e foi ao supermercado para comprar vinhos. Ele degustou a bebida na adega do local, comprou dois litros e fez o pagamento no caixa.

      Logo depois, com os litros de vinho já nas sacolas, ele teria ido usar o banheiro do estabelecimento.

      Dentro do banheiro, o policial afirmou que foi abordado por dois seguranças, que disseram que o cliente não teria pago o produto que estava nas mãos. O cabo questionou, dizendo que tinha pagado no caixa próximo à adega e que estava com a nota fiscal no bolso.

      Mesmo assim, segundo contou o PM, os seguranças teriam mandado que ele se despisse e o revistaram. Ainda de acordo com o cabo, a abordagem foi preconceituosa e o deixou constrangido.

      Nota do estabelecimento

      Na época, o supermercado divulgou nota classificando o caso como “lamentável e irreal”. A nota destacou ainda que, após detalhada e minuciosa análise de todas as imagens geradas pelo circuito interno de câmaras instaladas no estabelecimento, à disposição da Justiça, se constatou com absoluta certeza que entre o momento em que o PM saiu pela primeira vez da loja, até o momento em que os policiais acionados pelo mesmo chegaram ao estabelecimento, transcorreram-se aproximadamente 01 hora.

      Nesta quinta-feira (17), o supermercado divulgou nova nota. Confira na íntegra:

      O OK Hipermercado vem a público novamente externar sua indignação ante a lamentável atitude do Sr. Edson Rosa, Cabo da Polícia Militar do Espírito Santo, no que se refere a sua falsa alegação de que, no dia 18 de fevereiro de 2014, teria sido vitima de crime de racismo e de constrangimento, e de que teria sido obrigado pelos Fiscais do estabelecimento a se despir para averiguações.
      Fatos esses amplamente divulgados na mídia na ocasião, inclusive com lamentáveis simulações de cenas de desespero frente às câmeras de televisões com intuito de induzir o telespectador ao erro, o que levou à instauração do inquérito n. 083/2014, que tramitou na Delegacia de Polícia Civil da Praia do Canto em Vitória-ES.

      No mais, o OK Hipermercado somente tem a lamentar profundamente que sua imagem e a lisura de sua conduta tenham sido tão maculadas indevidamente pelo Sr. Edson Rosa, que certamente responderá pelos seus atos em todas as esferas competentes.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s