Tropa de Elite


Texto: Otávio Brum
Fotos: Luciano Silva
Rio de Janeiro. Eram cerca de 18h do dia 6 de fevereiro quando os manifestantes do 4º ato contra o aumento das passagens deixaram a Candelária e partiram rumo à Central do Brasil.

Com passos e propósitos firmes para livrar o Rio das catracas, a multidão de pelo menos mil pessoas tomou a estação e liberou o acesso aos trabalhadores que pagam diariamente um valor que não corresponde a nenhum dos serviços prestados.

Vigilantes da Supervia tentaram colocar uma grade para impedir o acesso da população aos trens em pleno horário do rush, e foi aí que começou um festival de barbaridades patrocinado pelo alto comando da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro.

Central do Brasil 06.02.2014

Central do Brasil 06.02.2014

Bombas de efeito moral, muito gás lacrimogêneo e spray de pimenta foram jogados dentro da estação, tiros de bala de borracha à queima roupa foram efetuados e um dos casos resultou na perfuração até o osso da atingida. A tropa raivosa que avançava a golpes de cacetetes não perdoava ninguém no caminho (jornalistas, mães desesperadas com filhos no colo, tudo e todos eram alvos e perigo iminente), empurrava manifestantes e usuários dos trens que fugiam em pânico por corredores estreitos que levavam todos ao encontro de outras tropas estrategicamente posicionadas para atacar de novos pontos.Um advogado foi agredido por um policial que o atingiu com um cassetete pelas costas. No entorno lá fora, o cenário era de uma batalha campal. Manifestantes se reagruparam e partiram para o revide nas imediações do camelódromo, atirando pedras. A tropa guerreava com esse grupo e atacava dentro da estação e pelos acessos. Quem fugisse de um desses ataques acabava fatalmente em outro front.

Perto da Central no momento que manifestantes pediam tarifa zero e denunciavam os péssimos serviços dos transportes públicos, um acidente envolvendo um ônibus acabou matando um senhor atropelado. O acidente aconteceu na altura da sede do DETRAN, na Presidente Vargas.

A polícia continuou mirando bombas de efeito moral e de gás lacrimogêneo na cabeça das pessoas. Presenciamos e tivemos relatos de muitos casos nesse sentido, o que desmonta a versão de que se isso aconteceu foram casos isolados.

Aconteceu também o grave incidente com o cinegrafista da TV Bandeirantes, Santiago Andrade, atingido por uma bomba na cabeça. Ele foi operado, seu estado é muito grave e ele segue em coma no Hospital Souza Aguiar. Há diferentes versões para o fato: a PM e as Organizações Globo sustentam que foi um rojão de vara atirado por manifestantes; já parte da mídia alternativa sustenta que foi um artefato jogado por policiais e que o mesmo artefato foi jogado dentro da Central (abaixo  veja links sobre as duas versões e tire suas próprias conclusões). Santiago não era o alvo, foi vítima de um dos lados durante a batalha, e embora provas possam apontar para o lado dos manifestantes, vale lembrar o caso Bruno, acusado injustamente em julho de 2013, quando policiais infiltrados faziam ações que incriminavam manifestantes.

Uma multidão que saía pela Presidente Vargas em direção à Candelária foi atacada por bombas de gás lacrimogêneo e de efeito moral. Em fúria, quebraram pontos de ônibus, lixeiras, letreiros da Prefeitura, pardais e um coletivo que transitava na pista central na mesma direção dos manifestantes. A batalha se estendeu pela Rua Uruguaiana. Enquanto isso, na Central, manifestantes ganharam apoio de usuários dos trens que se juntaram à batalha contra o Choque. Três policiais levavam um manifestante de dentro da Central para o lado de fora (ao lado da entrada do prédio da Secretaria de Estado de Segurança Pública) com bastante violência, o detido estava sendo estrangulado por um cassetete no pescoço enquanto os outros policiais o espancavam. A cena causou indignação dos que a presenciaram e uma multidão partiu para cima desses três policiais e uma briga generalizada se iniciou. Os policiais foram expulsos a socos e pontapés e fugiram em direção a outra tropa, que revidou de forma agressiva numa espécie de vingança. A truculência habitual era freada a pedradas. Uma delas atingiu o peito de um policial que ficou esticado no chão, sem ar, e foi socorrido pela guarnição.

A polícia do Rio tem a violência e a política de criar novas versões aos fatos. Amarildo seria mais um caso perdido na história se não fosse a insistência da população da Rocinha, da mídia independente e de inúmeros manifestantes em exigir respostas. O revanchismo é característica usual e todo o cuidado é pouco com quem age assim. A polícia atua dessa forma nas periferias, nas favelas ou em qualquer outro lugar. O problema (para o Estado) é que nas manifestações esse tipo de atuação fica exposta e a postura, em xeque.

Sobre o incrível interesse da tropa e da TV Globo em confirmar a versão do rojão de vara com direito a demonstração em um videoclipe jornalístico, somado ao fato de como tal fogo de artifício possa fazer um afundamento de crânio, ainda causam profunda estranheza.

Links sobre o artefato que feriu o cinegrafista:
http://migre.me/hLsIb
http://migre.me/hLsKH
http://migre.me/hLsLi

#TarifaZero #CatracaLivre #Catracaço #VemPraRua#Protestosrj #ColetivoCarranca #MidiAtivismo_rj

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