Jovem negro, espancado e nu, preso pelo pescoço a um poste com uma tranca de bicicleta em um bairro nobre do Rio de Janeiro. Este é o fato.


garoto-preso-Ulisses-bueno

por marcos romão

Hoje, pela manhã o 3 de fevereiro, Francisco Chaves, fotógrafo, me acordou com a  informação sobre uma postagem em um grupo de moradores do Flamengo no Facebook, em que aparecia a foto de um adolescente negro, nu e acorrentado a um poste por uma tranca de aço de bicicleta.

O seguinte comentário acompanhava a postagem: “pegaram esse infeliz assaltando na rui barbosa e deixaram ele preso nú por 1 hora num poste kkkk, só foi solto com a chegada dos bombeiros, que sirva de lição…”

Francisco Chaves fotógrafo e jornalista com décadas de experiência, me perguntava e comentava, “será que essa foto é real ou montagem? Se for verdade, o apartheid está no ápice da classe média carioca!”.

Era muito cedo e estava com horário marcado para exames médicos, gravei o material do grupo para análise e fiquei com aquela imagem do garoto negro nu e acorrentado a um poste, com os pés na sarjeta e os shorts a cobrir suas vergonhas.

Já de volta na barca Rio-Niterói vejo que a notícia é verdadeira, absurdamente verdadeira. Leio no Extra em matéria assinada por Luisa Luciolla o que acontecera e quem intercedera pelo garoto e com ajuda dos bombeiros o libertara do Pelourinho Pós-Moderno:

“Um adolescente foi espancado e preso a um poste por uma trava de bicicleta, nu, na noite da última sexta-feira, na Av. Rui Barbosa, no Flamengo, Zona Sul do Rio. Ele teria sido atacado por um grupo de três homens, a quem chamou de “os justiceiros”, segundo a coordenadora do Projeto Uerê, Yvonne Bezerra de Melo, de 66 anos. A artista plástica foi chamada por vizinhos que flagraram a cena, registrou a situação e compartilhou em sua página no Facebook. Internautas afirmam que o adolescente praticaria roubos e furtos na região do Flamengo.”

Seria mais um evento para ser curtido no virtual e executado nas ruas, seria um “flashmob”, uma cópia da ação de justiceiros fascistas e racistas, que através de grupos organizados em redes sociais, rapidamente se mobilizam e saem à caça de ciganos, judeus e africanos e gays,  como acontece nos EUA , na Europa e na Rússia?

Felizmente ainda não chegamos a tanto.Ao analisar a página do grupo no facebook “Bairro do Flamengo”, iniciada por um jovem, ele esclarece a todos os participantes do grupo aberto

“ALGUNS ESCLARECIMENTOS! PEÇO A ATENÇÃO DE TODOS! LEIAM, POR FAVOR! IMPORTANTE: QUE FIQUE MUITO CLARO QUE TODOS AQUI SÃO RESPONSÁVEIS LEGALMENTE POR SEUS COMENTÁRIOS. CADA COMENTÁRIO É DE RESPONSABILIDADE EXCLUSIVAMENTE INDIVIDUAL E NÃO REPRESENTA NECESSARIAMENTE A OPINIÃO DO GRUPO! INCITAR VIOLÊNCIA NÃO É O FOCO DESTE GRUPO E É CRIME. PARA AQUELES QUE PENSAM DIFERENTE, PEÇO QUE CRIEM SEUS GRUPOS E DEFENDAM SUAS IDEIAS EM OUTRO ESPAÇO.”

Não há o que desabonar no grupo, e creio que já estão cuidando dos pescadores de águas turvas que incitam ao ódio, que também na internet é crime. Salvo um ou outra postagem incitadora do ódio, daqueles que pululam na internet, a maioria de suas postagens tem a ver com as preocupações típicas de moradores de qualquer bairro, segurança, qualidade de vida e tudo mais.

O fato é que violência no Rio de Janeiro tomou conta do Rio de Janeiro. Disseminou-se a tal ponto, e está de tal forma militarizada oficial e inoficiosamente (leia -se fardados e não fardados as cometem) que fica difícil para o cidadão comum discernir entre o certo errado e saber de onde vem a violência.

A renomada defensora de direitos humanos, Ivonne Bezerra de Mello, ao voltar de uma reunião nos conta em seu “face”:

“era uma belíssima noite. Depois de uma reunião do Aterro Vivo, aqui em casa e me preparando para dormir, Álvaro Braga da Associação de Santa Teresa voltou para me buscar, porque passando de carro na Av. Rui Barbosa, viu um jovem todo machucado, nu e preso a um poste com uma tranca de bicicleta. Tinha sido espancado por uma gangue de moto, que costuma roubar aqui na minha rua. Acionamos os bombeiros, que prontamente vieram e serraram a tranca. Logo depois chegou a ambulância para levar o jovem. A PM foi acionada, mas o caso dele necessitava de um hospital. Violência no Rio, mais um capítulo”.

Ivonne fotografou e postou sua indignação nas redes sociais. O fato repercutiu e chega na sociedade como um todo.

O fato em si é grave demais, no próprio grupo existem postagens de pessoas que dizem ter testemunhado o fato e há inclusive esta foto que publico aqui no Blog, postada no grupo que não é a mesma feita por Ivonne, Que foi que a tirou? Há também um depoimento que diz que um grupo de motoqueiros “não caucasianos”, chegou em frente a um bar fazendo piruetas como se estivessem à procura de alguma coisa e pegaram este garoto, o despiram e espancaram, além de usarem uma tranca de bicicleta para prendê-lo a um poste na esquina.

Nas redes sociais apareceram logo comentários, do tipo alguma coisa o adolescente negro fez…

Cabe à polícia investigar o que aconteceu e como pode ter acontecido este crime. Esta é a imagem que fica gravada para o mundo: Um menino negro, espancado e preso a um poste, como em filmes americanos do período da luta por direitos civis no Alabama.

Cabe à nossa sociedade dar uma parada para refletir não só sobre a violência, mas sobre a sua aceitação, propagação e incitação aos linchamentos que começam nas ruas e depois são reproduzidos com fotos de adolescentes sem tarja, aumentando ainda mais seu risco de vida.

Cabe a nós cidadãos, conversarmos e encontramos  os caminhos para estancar o sangramento não só do Rio mas do país. Os especialistas de segurança necessitam abrir também uma ampla discussão com a sociedade civil, sobre as possíveis soluções para este problema de violência e segurança que envolve a todos nós.

Assistimos nos últimos meses quase todos os dias cenas de violências praticadas por criminosos e agentes do Estado. Vemos tropas de 100, 200 policiais baixando o cassete, jogando gás de pimenta na população manifestante e nos jornalistas antes de prendê-los, xingá-los e jogarem nas prisões, sem flagrante formalizado e com o beneplácito do MP e de juízes. Até Pinho sol virou arma perigosa aos olhos dos juízes cariocas.

Esta violência que assistimos ou que sofremos na própria carne, transborda nas redes sociais e volta para as ruas.

Temos uma maioria que quer paz e diálogo, mas temos também uma parte de nossa sociedade que só pensa em soluções violentas.

A foto lançada nas redes sociais, deste jovem negro nu e amarrado a um poste, em um bairro nobre do Rio de Janeiro numa rua que coincidentemente se chama “Rui Barbosa”, tem o efeito simbólico em demonstrar que vivemos em uma sociedade urbana e desenvolvida próxima à barbárie, barbárie à qual estamos acostumados a ouvir que acontece nos subúrbios e confins do Brasil.

Lamentavelmente suspeito que as pessoas que fizeram esta barbaridade, são conhecidas deste jovem. Se queriam dar uma lição a ele, agora ele virou bola da vez, pois vão querer eliminá-lo como testemunha.

Jovem negro, espancado e nu,  preso pelo pescoço a um poste com uma tranca de bicicleta em um bairro nobre do Rio de Janeiro. Este é o fato. Este é o fato que temos que encarar.

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2 pensamentos sobre “Jovem negro, espancado e nu, preso pelo pescoço a um poste com uma tranca de bicicleta em um bairro nobre do Rio de Janeiro. Este é o fato.

  1. Sou contra a esse tipo de atitude, mas entendo plenamente quando a população age dessa forma, não tem nada pior do que batalhar para ter algo e um meliante vir armado para roubar. Infelizmente sabemos que no Brasil quem rouba e/ou mata não fica muito tempo na cadeia e rapidamente retorna às ruas para cometer crimes. Se aqui existisse uma pena de morte como em alguns países existem, talvez a população não agisse assim, então surge aquele papo “muitos inocentes seriam executados”, pode até ser que sim, mas muitos bandidos seriam executados também, e vem cá, quantos inocentes são executados por esses bandidos diariamente?” Fica aqui a minha indignação com esse país!

  2. Fiquei um pouco assustado com o ocorrido achando que foi muito cruel, mas a população está desesperada esperando que as autoridades resolvam a situação, mas sem esperança. Logo pensei: deviam colocar em postes e nus também os políticos e outras autoridades que abusam de sua posição para cometer crimes e não somente esses favelados representados por esse garoto. Já que a prisão não mete medo em bandido, que a vergonha o faça!!!

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