Igualdade Racial como tática de luta contra o racismo – resposta a Yedo Ferreira


Edson França e Marcelo Dias

Muitas vezes quando um matemático foge do campo da lógica e utiliza a História (como ciência) para fundamentar e exemplificar seu argumento é desastre na certa, pois invariavelmente não tem método ou não acumulou mérito para tal. É chocante, senão revoltante ler uma narrativa histórica – cujo principal personagem foi uma pessoa negra – que infantiliza dirigentes políticos de processos revolucionários que marcaram a história do negro na humanidade. Parece coisa de branco racista, pois expressa uma concordância com aqueles que advogam a inferioridade da raça negra.

Não profane a história e contribuição dos povos negros

Verificamos no texto “igualdade Racial – Tragédia e Farsa” uma profusão tão grande de erros na analise de processo histórico que nos leva a imaginar que ou o autor é rigorosamente limitado e inconsistente teoricamente, fez o que sabia fazer, ou subestimou as capacidades analíticas dos leitores. Estão longe de serem inocentes, boçais, confiarem nos agressores e serem iludidos lutadores como Patrice Lumumba – principal liderança na luta pela descolonização do Congo enfrentou o imperialismo e o saque de riquezas das grandes potências ocidentais, se alinhou com a antiga União Soviética e obteve apoio de nações e instituições anticoloniais. Lumumba e líderes africanos como Dedan Kimathi (Quênia), Modibo Keita (Mali), Murtala Mohamed (Nigéria), Amilcar Cabral (Guiné Bissau), Samora Machel (Moçambique), Eduardo Modlane (Moçambique), Thomas Sankara (Bokina Faso), Chris Hana (África do Sul), Stve Biko (África do Sul) pagaram com a vida a luta que conduziram contra o racismo e pela descolonização africana. Segundo Carlos Moore em A África que incomoda: “Entre 1957, data da independência do Gana, e 1987, data do assassinato do último dirigente declaradamente pan-africaista, Thomas Sakara, trinca e cinco dirigentes africanos nacionalistas e pan-africanistas foram assassinados” (grifo do autor), Moore cita entre as vítimas Patrice Lumumba. As potências colonialistas utilizaram todos os meios para impedir a autodeterminação dos povos africanos os homicídios das principais lideranças anticoloniais se constituem no processo de violência política mais grave dirigida contra nações, por isso consideramos uma desonestidade teórica atribuir inocência e credo no agressor a causa do assassinato de um líder que, no contexto da Guerra Fria, mobilizou a nação, angariou apoios, pegou em armas para libertar seu país.

Toussaint Loverture – de escravo a principal condutor da Revolução Haitiana, o mais bem sucedido levante escravo que a humanidade conheceu, enfrentou e derrotou o exército de Napoleão, na época o mais poderoso do mundo, até hoje o povo haitiano paga alto o peço pela ousadia de ter enfrentado e derrotado o colonialismo racista e escravocrata das potencias coloniais (França, Inglaterra e Espanha). A Revolução Haitiana é considerada um momento decisivo da história dos africanos nas Américas, mais ainda, a saga dos escravos, descalços, maltrapilhos, famintos e desarmados em combate heroico contra os mais poderosos exércitos coloniais do mundo, abriu os olhos das elites crioulas sobre a impotência das metrópoles coloniais em manter sob seu jugo as nações que se formavam em toda América. O Haiti inaugura um processo de independência que varreu todo o Novo Mundo. É inadmissível atribuir boçalidade a Toussaint Loverture principal protagonista desse processo.

Lucas Dantas, Manoel Faustino, Luiz Gonzaga e João de Deus – quatro negros revolucionários da Revolta de Búzios ou Conjuração Baiana, a mais consequente e popular revolta anticolonial e antiescravista do período de dominação portuguesa. Inspirados na revolução haitiana tinham em sua plataforma o fim da escravidão, igualdade social e igualdade civil. O tema da igualdade sempre questionou a opressão e a injustiça, bem como moveu ideários revolucionários. Os conjurados foram denunciados, aprisionados e enforcados em praça pública. Esse episódio simboliza mais um capítulo da sistemática reação negra contra a opressão do Estado escravista e colonizado. Não há negros inocentes e boçais em condução de processos de enfrentamento com o poder, todos os líderes de Búzios foram hábeis políticos, lideranças incontestes dos africanos e afro-baianos, enfrentaram, conduziram a heroica luta contra dominação escravocrata e colonial.

De modo que o texto “Igualdade Racial como Tragédia ou farsa” de Yedo Ferreira do ponto de vista histórico é uma vergonha! Puro diletantismo, que não leva a nada, utilizou exemplos inconsistentes, provocadores e divisionistas para questionar a estratégia que o movimento negro vem perseguindo. Não merece respeito e atenção porque deseduca, aliás, todos os que profanam a história do negro, dá juízo errôneo e impróprio sobre nosso passado, desrespeita a memória negra universal, dado o fato que idade não é passaporte para o bem ou para o mal, não sabemos se Yedo Ferreira erra por ignorância ou má fé, no entanto o erro merece nosso repúdio!

Diferença sim, desigualdade não!

A luta política sempre tem determinações dadas pela correlação de forças, pelos sujeitos envolvidos, pelos interesses em disputa, pela cultura, lugar e tempo históricos, conjuntura e outros elementos. De modo que não combatemos com as armas que desejamos e nem sempre numa batalha ganha atingimos 100% dos nossos objetivos. Devemos agir a partir de um cenário concreto, quando o idealismo dirige a tática e a estratégia tornamos agentes sem capacidade de atuar sobre os fatos e sujeitos disfuncionais para construção de projetos alternativos.
Diante disso, consideramos que o movimento negro está no caminho correto, embora haja poderosos obstáculos que precisamos superar. A busca pela igualdade (econômica, social, política, civil) entre os seres humanos continua sendo uma grande utopia, um ideário perseguido por povos, Estados e nações há várias gerações, nós negras e negros brasileiros, especialmente a militância, deve ter como perspectiva na luta para construção de uma nova sociedade a igualdade nos quatro planos acima descritos.

Diferença sim, desigualdade não! Por isso propomos políticas de igualdade racial como forma de combater o racismo, é uma estratégia circunscrita para conjuntura atual, tem caráter temporário, por que sabemos que não superaremos as enraizadas desigualdades sócios políticas e econômicas entre negros e brancos só no plano da política pública, será necessária a ascensão do negro ao poder. A política de igualdade racial representa uma tática diferente das perseguidas até então pelo movimento social negro, ao invés de focar na criminalização da prática do racismo, e aprisioná-lo no campo das relações interpessoais, ou seja, entre os indivíduos: o racista e sua vítima; intervimos nos resultados sociais, políticos e econômicos decorrentes do impacto do racismo, propondo medidas que promovam a população negra.

Através de sua negação lutamos contra a desigualdade, compreendemos como Clóvis Moura, que o racismo tem sentido político e ideológico, visa dominar povos, nações e classe social, vai para além do caráter etnicorracial, conforme Yedo Ferreira e seus asseclas defendem. Em última instância, a luta contra o racismo exige uma luta contra os que se beneficiam do trabalho, da mais valia produzida pela população negra, 50,6% dos brasileiros. Esse é o sentido que tem orientado a estratégia atual da maioria do movimento negro brasileiro e tem produzido resultados positivos, mais destacadamente, com a inclusão de negros nas universidades; proliferação de estruturas de igualdade racial em espaços da sociedade civil e governos; aperfeiçoamento da legislação de igualdade racial. Esses resultados somados não podem ser ignorados, se não tivermos capacidade de reconhecer os avanços e pactuar novas metas não sairemos do lugar. Não estamos entre aqueles que consideram que o movimento negro não avançou nos últimos dez anos, bem como não estamos entre aqueles que compreendem que a situação social, econômica e política da população negra está boa.

Respeito a diversidade e unidade na luta deve prevalecer

Compreendemos que os movimentos sociais e políticos não se constituem em espaços monolíticos, ao contrário, enriquecem com a diversidade de ideias – desde que não sejam antagônicas. Nosso desafio no movimento negro é construir unidade com diversidade e lutas comuns. No entanto, Yedo Ferreira aprisionado em tempo e espaço distintos, munido de narrativas equivocadas ou mal intencionadas, desprovido de uma compreensão mais profunda dos significados e sentidos que balizam a atual estratégia do movimento negro, se valendo de uma condição que ancestralmente respeitamos: a idade; prepara um texto confuso, ofensivo a duas lideranças negras e com claro objetivo de impor uma polêmica artificial, que só serve ao seu ego.

Atacar de forma pessoal a nós militantes de décadas do movimento negro e militantes históricos de nossos partidos é uma tentativa de atacar todos os negros e negras do PT e do PCdo B e isto repudiamos com toda a nossa força. Somos contra o canibalismo político que tanto encanta nosso detrator.

Este senhor há muito tempo se coloca contra as políticas de ações afirmativas, contrapondo-as a luta por REPARAÇÃO, equívoco grave e primário, pois elas podem se constituírem em medidas reparatórias.

Este senhor encara a militância branca de esquerda, socialista, revolucionária, humanitária como adversária ou inimiga do movimento negro, ainda que a história de todas as lutas da diáspora africana e dos povos africanos contaram com aliança de brancos que se contrapuseram a dominação racial e de classe. Por isso, a consideramos aliadas fundamental para a luta contra o RACISMO, POR AÇÕES AFIRMATIVAS E POR REPARAÇÕES. Subscrevemos a assertiva de Solano Trindade: “Negros opressores em qualquer parte do mundo não são meus irmãos”.

Assinam

Edson França
Presidente Nacional da União de Negros Pela Igualdade – UNEGRO
Diretor de Cultura da União das Escolas de Samba Paulistana – UESP

Marcelo Dias
Presidente da Comissão de Igualdade Racial da OAB/RJ
Militante do Movimento Negro Unificado / MNU/RJ

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