Em Londres, Joaquim Barbosa falou para a Afropress: “A discriminação racial e o racismo são as questões mais sérias a serem discutidas no Brasil.


Alberto Castro, correspondente de Afropress em Londres

Londres – O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Joaquim Barbosa, disse nesta quinta-feira (29/01), em palestra no Kings College, de Londres, que a discriminação racial e o racismo são as questões mais sériaa a serem discutidas no Brasil e que enfrentar o problema é condição fundamental “se o país quiser ser respeitado como um player importante entre as nações do mundo”.

”É preciso fazer algo para incluir negros no mainstream da sociedade”, advertiu frisando que “o Brasil nunca tratou a sério esse assunto”. Na sua ótica, ”a única medida séria nos últimos 10 anos foram as cotas, mas elas não resolvem o problema”, observou salientando que o maior problema para a solução desse problema reside na educação.

A resposta do ministro aconteceu ao responder a uma pergunta colocada por Alberto Castro, correspondente de Afropress em Londres, que acompanhou a palestra realizada para uma platéia interessada que lotou os 250 assentos do auditório Edmond J. Safra, do King’s College, da Universidade de Londres.

”A grande maioria dos brasileiros que sofrem as consequências de uma educação paupérrima é a dos negros que vivem nas favelas, que e têm os piores trabalhos, os piores salários, cerca de 50% da média das pessoas brancas”, disse em tom de denúncia. ”Todos os indicadores mostram que esse é um dos problemas-chave na política brasileira”, informou opinando que ”essa é uma questão geradora de controvérsias sobre a qual é urgente um debate público sério”.

Veja, na íntegra, e com exclusividade o relato do correspondente de Afropress e suas impressões sobre a palestra do ministro – o primeiro negro a assumir a chefia do Poder Judiciário no Brasil:

Os 250 assentos do auditório Edmond J. Safra, do King’s College, Universidade de Londres, foram ontem (29/01) insuficientes para acomodar o grande número de estudantes, professores, brazilianistas e também alguns imigrantes brasileiros que se apresentaram para assistir à palestra proferida por Joaquim Barbosa, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), o que fez com que parte dos interessados se contentassem em seguir o evento por viodelink numa sala para onde foram encaminhados.

Na sua intervenção, de cerca de uma hora e meia, Barbosa fez uma avaliação histórica do STF apontando algumas das maiores mudanças sofridas pela instituição na década passada, dando exemplo de alguns dos casos mais emblemáticos ali tratados.

Todavia, desde o início, foi notório que a audiência, que escutou atentamente o palestrante, estava muito mais interessada em ouvir da atual estrela do Judiciário e da política brasileira, tido por muitos como herói devido ao seu papel no já histórico caso ”mensalão”, as suas opiniões sobre assuntos mais comuns que afetam a sociedade brasileira.

Candidatura

Eis algumas das questões mais pertinentes, a começar a que se tornou recorrente: “vai o senhor candidatar-se a presidência do Brasil?”

”Nunca fui um político e nem nunca fui filiado a um partido, nem mesmo na universidade. Nunca tive militância política”. Começou por responder fazendo uma breve pausa para concluir: “Não. Eu realmente quero ser um homem livre de novo, ter vida privada e menos exposição do que tenho agora”.

A uma pergunta sobre o fato de ser um liberal e progressista mas, paradoxalmente, ser adorado pelos conservadores replicou: ”Sou uma pessoa muito cautelosa. Faço o que penso ser certo. Tenho décadas de experiência na academia e nos tribunais. Pesquiso e aplico as regras da lei e esse é o meu guia para fazer o que tem que ser feito. Se as pessoas liberais ou conservadoras gostam, ok. Se não gostam, não me importa”, enfatizou.

Prisões

Questionado sobre o estado lamentável em que se encontram as prisões brasileiras e sobre os mais recentes casos trágicos no Maranhão disse: “As prisões são um problema muito sério no Brasil. No ano passado eu fiz visitas a presídios. O que posso dizer é que horror é a palavra mais adequada para qualificar as prisões brasileiras”. Para o magistrado, a questão a ser colocada seria: ”porque essa situação é tão absurda?” A resposta está, no seu entender, no fato de as prisões no Brasil serem primeiramente um assunto de responsabilidade estadual.

”O Governo federal joga um papel menor ao ajudar os Estados a construir prisões com uma mínima dignidade para os prisioneiros”, esclareceu para logo depois criticar o desinteresse dos políticos: ”Eles não se importam com esse problema, porque ele não lhes dá retorno político, votos. Essa é a razão porque as prisões estão nesse estado”, afirmou, lembrando que ”o problema não é novo, acontece em todo o Brasil e não apenas as prisões do Maranhão se parecem com um inferno”, esclareceu. Lembrou ainda que em alguns Estados as prisões são controladas por duas das maiores facções criminosas brasileiras como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho.”Esta é a realidade”, admitiu.

Fundamentalismo religioso

Questionado sobre a perigosa ligação entre política e religião no Brasil e sobre se o país caminha em retrocesso para um fundamentalismo religioso, disse: ”Não diria que caminhamos para uma espécie de fundamentalismo religioso embora haja um número crescente de deputados sendo eleitos devido a sua filiação religiosa. Por enquanto não me parece que os grupos religiosos constituam uma ameaça séria. Mas esse é um assunto igualmente sério”, advertiu.

Mas foi talvez o tema colocado pela Afropress que mereceu do presidente do STJ uma maior profundidade, frontalidade e, dir-se-ia mesmo, denúncias nas suas análises. Provavelmente por estar perante uma audiência internacional de estudantes, acadêmicos e jornalistas, e também diaspórica brasileira, audiência quase totalmente branca. Uma questão intrigantemente quase ignorada pelos correspondentes da mídia brasileira que cobriram o evento.

Tratou-se da pergunta sobre avaliação que ele fazia do racismo e da discriminação racial na sociedade brasileira e sobre as medidas até agora tomadas pelos governos brasileiros para atacar o problema. Barbosa começou por dizer que, para ele, esse era o tópico mais sério a ser tratado  no Brasil. O país tem, na sua opinião, uma tarefa muito séria na resolução desse problema ”se quiser ser respeitado como um player importante”, alertou, assinalando que a população negra (pretos e pardos) constitue de 50 a 51% do total da população brasileira, a maioria, segundo dados oficiais.

Inclusão de negros

”É preciso fazer algo para incluir negros no mainstream da sociedade”, advertiu frisando que “o Brasil nunca tratou a sério esse assunto”. Na sua ótica, ”a única medida séria nos últimos 10 anos foram as cotas, mas elas não resolvem o problema”, observou salientando que o maior problema para a solução desse problema reside na educação.

”A grande maioria dos brasileiros que sofrem as consequências de uma educação paupérrima é a dos negros que vivem nas favelas, que e têm os piores trabalhos, os piores salários, cerca de 50% da média das pessoas brancas”, disse em tom de denúncia. ”Todos os indicadores mostram que esse é um dos problemas-chave na política brasileira”, informou opinando que ”essa é uma questão controversial que urge  um debate público sério”.

Frontalmente culpa a elite branca pela inexistência desse debate na sociedade brasileira ao afirmar categóricamente que  ”os brancos brasileiros não gostam de debater o assunto. Acham-no enfadonho. Para eles não é ok discuti-lo”, lamentou.

”Quando uma pessoa sensível chega pela primeira vez ao Brasil, a primeira coisa que nota é a ausência de negros em trabalhos de prestígio, de boa posição em empresas, na TV. Valha-me Deus!, a TV brasileira parece ser da Dinamarca”, brincou seriamente arrancando sorrisos dos presentes. ”Esse é um assunto  muito sério”, voltou a salientar concluindo que o mesmo merece ser tratado urgentemente ”porque quanto mais pessoas estiverem incluídas na economia melhor o país se torna”.

Solidariedade

Momento de humanidade e solidariedade do magistrado tido como implacável no combate contra a corrupção e contra as injustiças sociais aconteceu quando ouviu atentamente o testemunho de um compatriota a quem foi recusado visto de refugiado no Reino Unido por ter sofrido ameaças de assassinato no Brasil. ”A ameaça de assassinato não me surpreende. Recentemente  tivemos o assassinato de uma juíza no Rio de Janeiro. Temos alguns casos de assassinatos de jornalistas, não nas grandes cidades, mas em pequenas cidades e nas áreas periféricas do Brasil. O Brasil tem uma cultura de violência”, enfatizou lembrando que o país teve séculos de escravidão. O  presidente do STF aproveitou o tema para voltar a tocar na questão do racismo no Brasil recordando que ”as vítimas mais frequentes da violência são os jovens negros”.

”Lamento muito o que sucedeu consigo mas você é um afortunado por ter conseguido sair. Muitas pessoas em situação similar não têm essa escolha. Continuam sendo subjugadas, ameaçadas e eu diria que muitos casos de ameaça não são do conhecimento público. Se alguma coisa acontece na periferia do Brasil nesse sentido você não toma conhecimento”, lembrou. ”Espero que você seja capaz de voltar ao Brasil e, por enquanto, ir para um outro Estado. Saia das pressões locais e estabeleça-se num outro Estado. Desejo sorte na sua luta”, disse humano e solidário.

A palestra terminou com fortes aplausos e Joaquim Barbosa, qual estrela de cinema, mal teve tempo de respirar e viu-se logo rodeado de um punhado de gente cumprimentando-o e pedindo um momento de foto com ele para a posteridade. ”Tirei a foto com o meu herói”, disse-me no final um jovem branco radiante.

Afropress 8 anos de mídia étnica, parceira da Rede Radio Mamaterra.

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Um pensamento sobre “Em Londres, Joaquim Barbosa falou para a Afropress: “A discriminação racial e o racismo são as questões mais sérias a serem discutidas no Brasil.

  1. Em boa hora a Afropress teve um correspondente em Londres que colocou uma pergunta permitindo ao ministro Barbosa denunciar perante uma plateia internacional o famigerado racismo brasileiro. Acredito que essa questão jamais seria levantada por um jornalista da grande imprensa branca brasileira. Sensacional! Numa palestra o ministro fez mais pela luta dos afrodescendentes do que muitos que levantam e reivindicam a bandeira da luta.

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