Rolezinho é política: Militante destaca a politização do “rolezinho” e afirma que “Brasil vive, sim, um apartheid”


Nota da Mamapress por marcos romão: Em nossa série sobre discriminações e o apartheid no brasil, seu reconhecimento e busca de soluções para bani-lo de nossa sociedade:

Lembramos que tudo na vida em uma sociedade envolve política e poder. Até na hora da distribuição de comida e dos lugares na mesa dentro de nossas famílias, política e poder estão em jogo e revelam se as relações entre as pessoas são solidárias ou segregacionistas.

Já em 1978, nas escadarias dos teatros Municipais de São Paulo e do Rio de Janeiro, o Movimento Negro Brasileiro denunciou o apartheid brasileiro. 36 anos depois a sociedade brasileira acorda para a questão. Foi preciso que a juventude da periferia das grandes cidades gritasse, “nós também queremos entrar em qualquer lugar”, para que o Brasil acordasse e até a Presidência da República manifestou preocupação como os rolezinhos.

Muito se tem escrito sobre o comportamento dos jovens e não vamos repeti-los aqui. Queremos saber o que vai ser feito para se reeducar os donos dos Shoppings e os responsáveis pelas instituições brasileiras promotoras do apartheid no judiciário, no planejamento urbano e na segurança pública, e o que será feito para se mudar as políticas segregacionistas que banem os pretos e os pobres dos espaços das cidade.

Em editorial da Afropress temos um resumo de uma agenda do que precisa ser mudado para se acabar com a segregação:

“Ser o compromisso das empresas de mudarem sua postura, promovendo o treinamento e estimulando a prática de uma educação antidiscriminatória e antirracista a todos os seus funcionários, a começar pelos seguranças, cujo histórico nesse quesito é conhecido e não é nada abonador, todos sabemos.

Deve ser levantado e cobrado é o compromisso dos dirigentes dos shoppings em mudarem sua política de recrutamento e contratação de pessoal para garantir a diversidade, o que hoje não ocorre. Em alguns, a sensação nítida é de que se está num estabelecimento similar de algum país nórdico (Suécia, Dinamarca, Noruega) a julgar pela aparência e perfil das atendentes. O Sindicato dos Comerciários de S. Paulo, há alguns anos, fez pesquisa em que ficou demonstrado que negros são raros nas lojas: eles podem ser encontrados apenas entre os seguranças e pessoal da limpeza.

É preciso exigir-se dos Governos – do municipal ao federal, passando, naturalmente pelo Estado -, compromissos concretos para que a cidade seja de todos, que os pobres não continuem a ser expulsos para as margens, e para se avançar na distribuição de renda e redução das desigualdades sócio-raciais que são a causa e a fonte de quase todos os males que nos afetam.”

Reproduzimos abaixo o artigo de Igor Carvalho publicado na Revista Forum, com o depoimento do ativista negro Joselício Júnior, conhecido como Juninho, do Circulo Palmarino, um dos organizadores da manifestação que provocou a reação estúpida, anticonstitucional e racista da direção do Shopping JK-Iguatemi-SP, que discricionariamente cerrou suas portas com a chegada dos jovens.

Por Igor Carvalho

foto revista forum

foto revista forum

 

Manifestantes se reúnem na frente do JK Iguatemi para protestar contra racismo (Foto: Divulgação)

Joselicio Júnior, conhecido como Juninho, do Circulo Palmarino, um dos organizadores da manifestação que obrigou o JK Iguatemi a baixar as portas no último sábado (18), divulgou uma carta em que fala sobre a politização do “rolezinho”.

No documento, Juninho afirma que o JK Iguatemi reforçou o racismo durante a manifestação. “A reação do empreendimento, fechando as portas minutos antes da nossa chegada, legitimou e reforçou o nosso discurso de que o Brasil vive, sim, um apartheid.”

Confira, na íntegra, a carta:

Por Joselicio Júnior

Nós, militantes do movimento negro, cotidianamente falamos da existência do racismo e do quanto ele estrutura todas as relações na sociedade brasileira –  sejam elas econômicas, sociais ou culturais – e muitas vezes somos acusados de extremistas, de praticar o racismo ao contrário, quando não nos dizem que tudo isso não passa de uma grande bobagem.

Nesse sentido, o debate que está colocado na sociedade a partir do fenômeno dos rolezinhos é bastante pedagógico, pois escancara o que é a segregação na sociedade brasileira e como ela é determinante para definir os espaços que negros, pobres e periféricos podem frequentar ou de que forma podem frequentar.

Nas primeiras declarações dos jovens organizadores dos rolezinhos, o discurso presente era o de que eles queriam apenas se divertir, encontrar os amigos, conhecer pessoas, namorar, mas a reação violenta de repressão da segurança privada e da polícia – simplesmente por considerar a presença desses jovens indesejada – provocou uma reflexão: No último final de semana, declarações dos adolescentes que encabeçaram os encontros reivindicavam o direito de ir e vir e, então, o que antes era apenas um encontro, agora é manifestação; Denúncia sobre a falta de espaços de lazer na periferia.

Sem a pretensão de instrumentalizar os rolezinhos – mas com o objetivo de provocar um amplo debate na sociedade –  nós, do movimento negro, movimentos sociais e ativistas,  chamamos o “Rolê Contra o Racismo”, que reuniu cerca de 300 pessoas no último sábado, dia 18 de janeiro, nas imediações do Shopping JK Iguatemi, localizado no Itaim Bibi -SP. A reação do empreendimento, fechando as portas minutos antes da nossa chegada, legitimou e reforçou o nosso discurso de que o Brasil vive, sim, um apartheid.

Se alguém ainda tem dúvida sobre o pensamento dos ricos do nosso país, basta ver as declarações de representantes dos Shoppings, a exemplo de Nabil Sahyoun, presidente da Alshop (Associação Brasileira de Lojistas de Shoppings), que defende que “os jovens organizadores e participantes dos rolezinhos devem procurar o sambódromo”, uma vez que, na opinião dele, “os shoppings não foram feitos para essa mobilização”.

Ao mesmo tempo, o mesmo presidente afirma que os  ”shoppings foram construídos na periferia para incluir população, e que a preocupação com rolezinhos é pela segurança dos demais frequentadores”. Ou seja, é criado o estimulo ao consumo, mas como não é possível garantir que todos tenham acesso, são criados mecanismos para dispersar,  repelir e segregar.

Além disso, o poder econômico conta com o apoio do Estado para garantir o direito de quem pode ou não consumir, seja através dos aparatos repressores, como a Policia, seja por meio de normativas jurídicas, como as liminares concedidas pelo Judiciário que impedem os rolezinhos de forma extremamente arbitrária.

Trata-se de um cenário que escancara a luta de classes em nosso país e demonstra os limites da tentativa de conciliação e acomodação entre ricos e pobres. Nesse sentido, estamos cumprindo o nosso papel histórico de provocar a reflexão e aguçar as contradições, mantendo acessa a chama daqueles que resistiram contra a escravidão em busca de liberdade. Não temos dúvidas de que mudanças só virão com a organização e mobilização dos de baixo.  Parafraseando o poeta José Carlos Limeira, “por menos que conte a História/ Não te esqueço meu povo/ Se Palmares não vive mais / Faremos Palmares de novo”.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s