Na terra de Mandela ninguém é cego. Já no Brasil…


Por Angélica Basthi  extraído do Observatório da Imprensa  original publicado em 07/01/2013 na edição 780

Angélica Basthi

Angélica Basthi

Em terra de cego, quem tem olho é rei ou rainha. O personagem César, interpretado por Antônio Fagundes no horário nobre das telenovelas brasileiras, tem revelado ao país que enxergar e ver são ações verbais distintas. Afinal, tem cego que se recusa a ver. Se transportarmos a lição para a cobertura jornalística veiculada pela principal emissora do país sobre a morte do líder sul-africano Nelson Mandela, notamos que, como o César da novela, tem muito jornalista (de repórter a editor) que não quer enxergar ou ver o que está pulsando à sua frente.

Não se discute que enviar equipes para realizar a cobertura in loco tanto contribuiu para o exercício do bom jornalismo quanto para colocar qualquer emissora no topo das notícias sobre a morte de uma das maiores personalidades da história dos nossos tempos. Ponto para o jornalismo brasileiro.

Mas é no mínimo curioso o fato dessas mesmas equipes terem deparado com uma realidade de exclusão racial combinada com os abismos sociais, tão familiares no Brasil, e sequer fazerem referência a isso. Como não associar, por exemplo, as favelas e os bairros nobres sul-africanos com as favelas cariocas e os bairros da Zona Sul do Rio de Janeiro? Como não mencionar as semelhanças da dura realidade enfrentada pela diáspora africana em diversas partes do planeta, incluindo o Brasil?

Olhos para ver

As profundas desigualdades da África do Sul – diga-se, o país mais desenvolvido do continente africano – expõem ao mundo, sem direito a cortes, a faceta mais feroz do capitalismo: bem-sucedidos e excluídos são marcados pela cor da pele, resultado de uma política de exclusão, violência e destruição ambiental com base na raça e com foco única e exclusivamente no lucro.

Certamente deve-se respeitar o desenvolvimento histórico, cultural, econômico e social de cada país. O que não dá mais para ignorar é que outras formas de barreiras raciais (tão violentas quanto o apartheid, por exemplo) foram e são experimentadas por africanos e descendentes de africanos em várias partes do planeta. Isso deveria estar para além do desejo de reproduzir a velha retórica da boa miscigenação, tão comum e tão falha aqui no Brasil. A nossa imprensa insiste em valorizar discursos e imagens que simbolizem o mito da democracia racial e, com isso, contribui para o atraso da real democracia brasileira.

Ignorar esses aspectos num jornalismo que se diz plural e ético é mais uma das muitas contradições da principal emissora deste país. O que o discurso nega, as imagens revelam e condenam. Mas ainda assim é preciso ter olhos para ver aquilo que qualquer cego é capaz de enxergar longe.

***

Angélica Basthi é jornalista, autora da biografia não-autorizada Pelé, estrela negra em campos verdes e é da coordenação da Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial do Rio de Janeiro (Cojira-Rio\SJPMRJ)

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