É hora de ligar o alarme quando intelectuais brancos começam a falar de mestiçagem.


por marcos romão

“A mestiçagem ou o Brasil Moreno foi uma resposta à crise de identidade racial do branco brasileiro em relação ao seu parceiro que ficou na Europa e rolou desde o primeiro momento em que ele aqui pisou. Mistura ou não mistura, congraça ou mata?
Esta sempre foi a questão na busca de manutenção de sua identidade branca européia deste branco aventureiro, o que fazer com os negros que além de trabalharem pensam e se reproduzem ao fazerem amor?”

Caro amigo Spírito Santo e cara amiga Shirlei Souza,

Tenho acompanhado nos últimos tempos desde a exposição pública de Joaquim Barbosa vários blogs e postagens no Facebook sobre os famosos relacionamentos inter-raciais. Como vocês me atiçaram com as boas posições que têm colocado nesta salada geral que são as relações raciais no Brasil, resolvi  me meter sem temor, nesta casa de marimbondos, que não é assunto novo, pois desde moleque ouço o mesmo papo sobre o Pelé.

o pensadorÉ interessante quando brancos começam a escrever artigos como se fossem “radicais negros”, que equivocados, defenderiam uma pureza racial dos negros e negras em seus processos individuais de vida e reforçariam um apartheid afetivo que existe de fato no Brasil.
Qual o interesse destes caras em se aproveitarem de uma discussão que conhecemos entre nós negros e negras desde 70? Discussão que ganha nos últimos tempos uma maior visibilidade, até porque somos mais negros e negras que se deparam em seu dia a dia com as questões de relacionamento amoroso dentro dos grupos de classe média ou quase média, em seus empregos, universidades e instituições que antes a presença de negros e negras eram contadas nos dedos de uma das mãos?
A solidão e o preterimento da mulher negra é mais que evidente em uma sociedade marcada pela branqueamento e o clareamento através da miscigenação como instrumento para alcançá-la.
Este um tema urgente para ser tratado por nós negras e negros de maneira séria e profunda.

Ler o livro “Virou Regra?”, de Claudete Alves é fundamental e de maneira não apressada, como estão fazendo atualmente em vários blogs e grupos do Facebook, pois no título de seu livro existe uma interrogação depois do “virou regra”, “?????”.
A Profª Drª Ana Virgínia Santiago Araújo nos fala no blog do Escritor, que Claudete Alves em sua tese de mestrado, base do livro, ela observou casais inter-raciais em São Paulo e entrevistou 73 mulheres negras sobre os temas: matrifocalidade, relações familiares, vida amorosa, felicidade, solidão e também sobre a relação entre a etnia e a escolha do parceiro afetivo-sexual.
Claudete não tira conclusões precipitadas, até porque o universo estudado e o foco, não permitiriam uma generalização, que não era seu objetivo.
O livro é um estímulo a uma discussão do que está debaixo do tapete sobre relações inter-raciais no Brasil. Relações que ainda são exceção segundo as últimas estatísticas do IPEA.
Ao ler o livro vi mais a solidão da mulher e do homem negro em uma sociedade que não nos reconhece.
Temos que discutir, conversar, puxar os cabelos se necessário, mas evitemos cair na falácia dos brancos que nos querem dar lições. Precisamos ter coragem, mas sobretudo não esquecermos que nestes assuntos cada um está em busca de sua felicidade. E é claro que sem identidade não dá para ser feliz. Como fazer quando arranha?

Papo puxado por Gilberto Freire e alavancado às avessas por Darcy Ribeiro e sua morenidade decantada pelos cantores bahianos e um ou outro sambista carioca. A mestiçagem ou o Brasil Moreno foi uma resposta à crise de identidade racial do branco brasileiro em relação ao seu parceiro que ficou na Europa e rolou desde o primeiro momento em que ele aqui pisou. Mistura ou não mistura, congraça ou mata?
Esta sempre foi a questão na busca de manutenção de sua identidade branca européia deste branco aventureiro, o que fazer com os negros que além de trabalharem pensam e se reproduzem ao fazerem amor?
Mas vamos chegar mais perto no tempo. Mais precisamente ao período dos estertores da escravização tradicional.
O que fazer com esta massa de pretos que ameaçavam agora não só a identidade do branco, como a identidade racial nacional que pretendia ser um identidade nacional branca?
Nabuco e outros mais radicais, já falavam, em prosseguir e aumentar a importação de brancos “concentrados” para limpar a raça da nação, pois a mestiçagem atrasava o desenvolvimento do Brasil.
Desemprego, doença, fome e segregação cultural, econômica e educacional cuidariam de eliminar os resíduos e bolsões negros que maculavam a identidade branca nacional. O Brasileiro se limpava para se manter europeu.
Não deu certo, os brancos não se desenvolveram o suficiente, e os negros resilientes insistiam em se manter vivos e se reproduzirem, sabe-se lá como.
Os brancos devem ter entrado em uma crise de identidade, pois como explicar aos parceiros europeus que ainda se continuava mestiço?
Vejam, mestiço aparece como contraposição ao puro branco europeu. Assim o mestiço, esta terminologia nasce como efeito colateral da impureza racial do branco que teima em limpar racialmente a sua identidade nacional.
Gilberto Freire encontra a solução ao buscar o super-homem mestiço, híbrido. Este cada vez mais claro, mais limpo e mais puro racialmente, mais “branco-concentrado”, cuidaria com o tempo da eliminação dos pretos que se diluiriam como gotas de café em baldes de leite, para lembrar a frase do meu saudoso Bola, em “Quando o Crioulo Dança”.
Bom lembrar que esta idéia de se eliminar os negros da identidade nacional de forma paulatina, homeopática e na cama, era bem mais simpática e com menos dor do que os campos de concentração que já estavam em moda em África desde 1885( 10 milhões de mortos só no Congo de Leopoldo) e depois se tornaram máquinas de eliminação de povos na Europa.
Que alívio não termos brancos suficientes no Brasil que seguissem um Monteiro Lobato e suas idéias de eliminação e castração sumária dos negros como defendida por Lobato, no livro “O Presidente negro”.
A idéia embutida na mestiçagem e no hibridismo das “retortas” de laboratórios é racista e isto é claro, pois trás em si a eliminação dos negros e indígenas, que integrados e diluídos se tornariam brancos no futuro.
Infelizmente saber que isto é racismo não é tão claro assim no imaginário popular e nem na cabeça dos cientistas sociais, que arautos e defensores do agronegócios e desenvolvimento europeizado do Brasil estão sempre inventando moda.
Assim sendo eu considero que a discussão sobre os puros de raça é desde o seu início uma crise da branquitude identitária dos cientistas sociais que desejam ser brancos brasileiros e por tabela dos pesquisadores brancos americanos, que na terrinha deles não tem tanto acesso aos negros como objeto de estudos de suas próprias crises, como tem aqui em nossa terrinha em que todos se acham no direito de passar a mão nas bundas  e cabeças dos negros, pois basta fazerem uma visita “Scholar” de meses, para voltarem com teorias definitivas sobre relações inter-raciais no Brasil e no mundo e que depois são difundidas aqui como verdades definitivas, por negros e negras que só tem acesso a este tipo de “bullshit” produzidas nas universidades comandadas por brancos em crise de identidade. Merda replicada em bom “pretuguês”, como poderia dizer Lélia González.
Em seu texto, “Um dois feijão com arroz”, Spirito Santo explica muito bem:
“É que a velha fonte destas ‘modernas’ teses sobre miscigenação no Brasil, parece mesmo ser a teoria, genericamente, conhecida como ‘Elogio à mestiçagem’ que propõe, no fundo – nem tão no fundo assim – a diluição das raças, supondo, diabolicamente, que possa haver algum tipo de ganho ou ‘evolução biológica’ (e, consequentemente, social, cultural, enfim), a partir de uma ‘mistura’, uma ‘química’, na qual dois elementos, se fundindo, acabariam por se anular, mutuamente, gerando um terceiro elemento ‘melhorado’ e, portanto, geneticamente ‘superior‘ aos dois outros que o geraram.”
Você veja, caro amigo, as teorias da segregação e mestiçagem, são dois lados de uma moeda que é o racismo teórico e explicativo da identidade e “in-consciência” branca nacional.
Embarcar nesta viagem teórica de quem não se estuda, o branco,e só estuda o outro, o negro e o indígena é algo meio esquizofrênico e que se precisa tocar com luvas de pelicas.
Apressados buscam no “afroconcentrado” uma resposta ao “brancoconcentrado”, caindo na mesma armadilha dos bem intencionados que criaram o mito do super-homem fruto do cruzamento da inteligência do branco, da agilidade e adaptabilidade ao ambiente do índio e a força e resistência do africano.
Nós negros e indígenas estamos anos luz à frente dos brancos na criação de nossas identidade e autoestima e felizmente, não criamos nenhuma teoria baseada em nossa superioridade racial e nem propusemos jogar os brancos no mar para que voltassem para a Europa.
Nesta busca de autoestima e identidade dentro desta nação, falamos de coisas concretas. Queremos terra, acesso a todos os espaços, poder e principalmente o fim de nosso genocídio enquanto negros e indígenas.
Nós sempre soubemos o que fazer com a gente pois sempre soubemos que queremos estar e ficar vivos e mais tudo.
No momento existe uma onda de retorno ao papo racista de sim ou não à mestiçagem. Mais uma vez a crise da branquitude ameaça tomar conta das cabeças dos negros e indígenas.
Não vamos fugir do debate, mas vamos ter claro que mais uma vez este é um papo dos brancos que não querem dividir o poder de ter alguma coisa no Brasil. É um papo que chega na hora certa para o branco que não quer que o indígena seja dono de sua terra. Afinal o que diz Kátia Abreu sobre os índios? Que não são tão índios assim e sim brasileiros pobres e por isto sem direito à propriedade como qualquer pobre.
Em resumo digo, não vai ser na cama que se eliminarão as desigualdades e opressão raciais engendradas pela elite branca do Brasil.
Está mais que na hora dos brancos começarem a escrever sobre eles mesmos e sobre o seu papel na construção do racismo brasileiro. Não somos babás teóricas de brancos em crise, ou se as quiserem babás teóricas, que paguem um bom salário e com carteira assinada.

O FOCO DA QUESTÃO QUE SUSCITOU ESTE MEU ARTIGO FOI UM COMENTÁRIO DE SPÍRITO SANTO SOBRE UM ARTIGO PUBLICADO  SOBRE JOAQUIM BARBOSA E SUA NAMORADA NA WWW.CENTRODOMUNDO.COM.BR, DO JORNALISTA PAULO NOGUEIRA:

” (Não sei porque ainda fico indignado com estas campanhas de difamação racistas, como esta contra o Joaquim Barbosa)

Desculpem a franqueza, mas acho estúpido cair nesta baixaria. O que tem a ver com as calças se a namorada, mulher, amiga ou lá o que seja do Joaquim Barbosa é branca, verde ou amarela?

O que se quer dizer é que ele, por ser negro só poderia se relacionar com mulheres negras? É isto? Ou seja: Homens negros só podem transar com mulheres negras senão merecem queimar no fogo do inferno? VTNC! Que ignorância!

Aliás, esta restrição aí não é exatamente o que se convencionou chamar de racismo?

Gente estúpida!”( Spírito Santo)

 

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9 pensamentos sobre “É hora de ligar o alarme quando intelectuais brancos começam a falar de mestiçagem.

  1. Excelente texto! Esclarecedor! Iluminado!!! “Nós negros e indígenas estamos anos luz à frente dos brancos na criação de nossas identidade e autoestima e felizmente, não criamos nenhuma teoria baseada em nossa superioridade racial e nem propusemos jogar os brancos no mar para que voltassem para a Europa.”

    • Não concordo com o texto e nem com seu comentário.
      Vejo “todo mundo” querendo ir para a Europa e “ninguém” querendo ir para África, exceto África do Sul.
      Teoria de superioridade racial é coisa de nazistas e fascistas caucasianos que foram derrotados democratas e cristãos caucasianos.

  2. O que tem a ver com as calças se a namorada, mulher, amiga ou lá o que seja do Joaquim Barbosa é branca, verde ou amarela???

    TEM TUDO HAVER, pois a questão vai muito além do Joaquim Barbosa estar ou não estar namorando com uma branca!!! Eu não sou contra a interação cultural, social, sexual ou afetiva com outros grupos raciais, apenas enfatizo que o homem negro brasileiro quase sempre usa a sua liberdade de interação para interar-se preferivelmente ou exclusivamente com mulheres brancas, rejeitando automaticamente as mulheres de sua própria origem, ou relegando-nos ao segundo plano.

    Nós reclamamos de racismo e somos alvo dele desde a infância, mas muitos homens negros, quando alcançam um determinado status, e têm a oportunidade de colocar valor em nosso grupo racial relacionando-se com uma mulher negra, fazem exatamente o contrário: Só enxergam a beleza européia das brancas, e passam longe, bem longe das neguinhas!

    Há de se reconhecer a necessidade de conscientizar homens e mulheres afrodescendentes sobre a necessidade de libertar-se dessa eterna escravidão mental de fugir de suas matrizes étnicas através da rejeição aos seus iguais. E isso é uma atitude revolucionária em um país como o Brasil, que sempre teve como sistema de dominação uma política intensa de estímulos à miscigenação como forma de eliminar a herança genética africana através das gerações.

    O problema é que tem gente que insiste em transformar esta atitude revolucionária em uma manifestação de ódio, dizendo que os negros ou negras que estimulam outros negros/negras a valorizar pessoas do mesmo grupo racial estão sendo racistas contra os brancos. Mas o pior é que esta ridícula alegação é, às vezes, repetida pelo próprio negro: O pior escravizado é aquele que reproduz o discurso do escravizador, deste só posso ter muita pena!

    • Concordo plenamente Yara, a maioria dos negros no Brasil não querem ser negros, o melhor pra eles é se misturar e se tornar o mais claro possível. Posso citar várias pessoas desse tipo: Pelé (que rejeitou uma filha legítima de pele mais escura que seus outros filhos), e outros jogadores de futebol, Joaquim Barbosa, etc. Ninguém nesse país é mais racista do que o próprio negro e até hoje, dizer que um negro é negro nesse país, é um grande insulto pra alguns deles.

  3. Tem toda razão, Yara! É um total disparate quando alguns BRANCOS tentam transformar a elevação de nossa consciência racial em algo bem diferente, argumentando que é uma tentativa de criar ódio racial no Brasil quando negros ou negras incentivam pessoas de seu grupo racial a se amar, a parar de se desprezar. Mas a coisa descamba mesmo para o ridículo quando é o próprio negro que afirma que isso é radicalismo, ou pior, que isso é racismo contra brancos.

    O texto do Paulo Nogueira é muito claro. Em momento algum ele afirma que negro só pode relacionar-se com negra, e branco com branca. Ele tentou nos libertar dessa eterna escravidão mental de fugir de nossas matrizes étnicas através da rejeição aos nossos iguais (repetindo suas palavras, Yara).

    Não vejo qualquer necessidade de ligar o alarme quando um intelectual (seja ele branco, negro, verde ou amarelo) nos estimula a amar quem se parece conosco, inclusive citando palavras do maravilhoso Malcolm X: Os lábios grossos de vocês são lindos, bem como o cabelo crespo, bem como as narinas dilatadas – bem como, sobretudo, a cor de sua pele.

    Não concordo que seja crise de branquitude, e muito menos que haja alguma intenção segregacionista; até porque não estaria ele (Paulo Nogueira) em um relacionamento com uma mulher oriental se quisesse, na verdade, reservar as brancas só para os brancos!

  4. “Nós negros e indígenas estamos anos luz à frente dos brancos na criação de nossas identidade e autoestima…”
    Desculpe discordar ,mas os negros brasileiros não estaõ anos luz à frente de ninguém na criação de suas identidades. No Brasil tem negro que nega cinicamente queé negro! Alguns até abraçam o termo pardo como se fosse um grupo racial separado da população negra, quando na verdade é apenas um termo que identifica os negros cuja miscigenação é mais evidente em suas características físicas
    Hoje mesmo em meu trabalho, um colega obviamente negro soltou esta: disse que pardo não é negro, é apenas descendente de negros. . Daí eu disse que a população negra do Brasil é a soma dos autodeclarados pretos e pardos; eque pra um indivíduo não ser negro, mas apenas descendente, só se for alguém que teve um trisavô, ou bisavô ou tetravô negro, E QUE DAÍ PRA FRENTE NÃO TENHA ENTRADO MAIS NENHUM NEGRO EM SUA LINHAGEM.
    Mas as características dele deixam claro que os genes de origem africana estão bem presentes. Não se trata de um caso de ancestralidade africana remota, como é comum em muitas famílias brancas pelo Brasil afora .. O mais triste é que a maioria dos negros brasileiros são assim: alienados e com esta mesma mentalidade medíocre. Até mesmoo ilustre historiador Décio Freitas disse, certa feita, que no Brasil a preocupação em não ser negro é obsessiva.

    • Sandro Batista,processo de consciência é longo e demorado, se o seu colega hoje tem que abrir a boa para falar besteiras, é porque existe uma discussão sobre racismo e identidade na sociedade. 40 anos atrás ele nem abriria a boca sobre o assunto.
      E sobre genes, caro amigo, tome cuidado com esta armadilha branca “científica de botequim”. Identidade negra é um conjunto de valores culturais, associados a uma consciência de pertenecimento a um grupo, que não passa pelo gens. Se o cara quer ser e se assume com branco que seja branco. É problema e opção dele. Quando morrer numa esquina vítima de uma bala. O que contará será a pele preta ou “parda”. Viverá como um branco e morrerá como negro.

  5. É uma pena ver uma filosofia tão racista.
    Quer dizer que não posso escolher com quem quero me relacionar?
    Deve ser brincadeira. Este blog só pode ser “fake” de neonazista.
    Faça um teste, troque todas as palavras “preto(s)” e similares por” branco(s)” e similares, ou seja inverta a correspondência. Vê se da para concordar.
    É óbvio que em pleno século 21 ainda existe racismo, mas isto não me da o direito de filosofar e pregar besteiras .

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