Joaquim Barbosa e o pecado de ser negro.


por Marcos Romao

foto:Fabio Pozzebom/Agência Brasil

Meu face deve ter um filtro que desconheço, em que estes arroubos racistas de meus amigos e amigas nunca aparecem.  Me alertaram e fui ver “face” de uma amiga e vi que o que ela escreveu sobre o Ministro Joaquim Barbosa é brabo mesmo.

Durante a ditadura de Vargas havia um negro chamado Gregório Fortunato que era o seu fiel escudeiro.  Capoeirista, forte ex-soldado constitucionalista de 1932, estava pronto pra sair na…  ou dar porrada em qualquer um que o mestre ditador mandasse.

Acabou-se a ditadura (a do Vargas) chamada Estado Novo, ele o Vargas voltou eleito pelos braços do povo em 1950  e foram descascando devagarzinho a imagem do presidente  popular,  sob o comando da caneta de Carlos Lacerda, até que o Getúlio se suicidasse.

Quanto ao seu fiel escudeiro, o Anjo Negro, gaucho, filho de escravos e comandante da guarda pessoal de Vargas, morreu em 1962 assassinado no presídio da Frei Caneca. Fora condenado à 25 anos de prisão como presumível mandante do atentado da Toneleiros em 1954.  Atentado em que Lacerda saiu levemente ferido e o capitão da aeronáutica Rubens Vaz foi mortalmente atingido.

Gregório Fortunato morre assassinado e seu caderno de anotações some na prisão. Mais um “arquivo” morto para a paz da história branca do Brasil.

As relações entre os brancos no poder e os negros aos seus lados, dariam algumas centenas de páginas na história do Brasil, caso não tivéssemos tantos historiadores daltônicos, apenas  interessados nos pontos de vistas da realeza.

Só prá começar vamos comparar a situação do magistrado Barbosa e a do soldado Fortunato que apesar de serem muito diferentes enquanto pessoas negras, ficam muito iguais quando observamos as relações entre pretos e brancos no Brasil.

Gregório havia se destacado na revolução constitucionalista de 1932 como soldado sob o comando de Bejamim Vargas, irmão do ditador, de confiança da clã dos Vargas portanto.  Daí,  nada mais natural para a época, do que colocá-lo em um posto de estrita confiança de um ditador. Um ditador que criara a lei dos 2/3 garantindo trabalho para os brasileiros em relação aos estrangeiros (inclua-se aí meia dúzia de negros saidos da recente escravidão) que a república velha abolicionista se esquecera de incluir em seus planos.

Getúlio Vargas em seu estilo paternalista soube muito bem vislumbrar a força que aquela “massa” negra esquecida lhe dava ao ver-se representada sempre ao seu lado,  através daquela “massa” humana que era o Anjo Negro Gregório Fortunato. Bem antes de Papa Doc, Getúlio compreendeu a força simbólica do Bicho-Papão Preto (Ton Ton Macoute) e como isto assustava o sono das elites brancas.

Não dá para eu afirmar se o Gregório era mais odiado pela oposição por ser preto ou por ser polícia, mas que ele incomodava por ser preto e com poder (mesmo que emprestado) em um periodo em que o apartheid racial era moda no Brasil, lá isso era fato. Também era fato que ele estava lá não somente porque era forte, mas porque era preto. Os “catarinas” nunca foram escolhidos para serem a guarda de confiança do Getúlio, a tarefa deles e dos Filintos Millers era dar porrada e aterrorizar pretos e volta e meia os comunistas. Para sua proteção pessoal, Getúlio sabia que nunca poderia contar com os “catarinas”. Getúlio, seu regime, seus governos e o que eles simbolizavam de progresso para época, necessitava dos negros. Gregório era um deles, Guerreiro Ramos também, mas isto é outro capítulo, mais democrático.

Quanto ao Lula e o PT terem escolhido Joaquim Barbosa para ser ministro do STF, é que não havia mais jeito para negro ficar de fora naquela casa. Não existem estatísticas sobre a cor do voto, mas por maior que fosse o PT, não teria cabido dentro do partido, tanto voto negro que o Lula e o Lula e a Dilma receberam para serem presidentes. Portanto nada mais natural que uma das casas mais reservadas para brancos ou quase brancos, que é o STF, além do Itamaraty é claro, na primeira oportunidade que aparecesse fosse nomeado um negro para o posto de ministro togado da Suprema Corte. Foi um ato de resposta justa a uma reivindicação dos movimentos negros brasileiros em todos os tempos, pois temos gente preparada para isto.

Barbosa Galgou o posto por merecimento e por estar no lugar certo e no momento histórico certo. Espero que não tenhamos que esperar mais 500 anos para que tenhamos de novo esta constelação favorável em nosso zodíaco politico negro.

Dois negros diferentes entre si em dois momentos históricos tão diferentes e  que  tornam-se tão iguais nos momentos em que a coisas esquentam.

A carreira de Gregório foi militar, seu maior posto, foi ser comandante da guarda pessoal de um ditador.  A carreira de Joaquim Barbosa é a de jurista, seu maior posto alcançado até agora é a de ministro do STF.  Os dois aos seus jeitos e às suas épocas cumprem seu papéis e são xingados e execrados não pelo que fazem ou deixam de fazer  mas sim pelas suas peles pretas. Que triste ironia para o racismo brasileiro, e esta pecha que não larga a pele do pensamento escravocrata que ainda domina da esquerda à direita o pensamento social brasileiro.  Sempre batem de cara com um fantasma negro nos momentos de mudança.*

Eu estava na minha, lia laudas e laudas de frases e comentários racistas em relação ao julgamento do mensalão, estava guardando para a minha coleção. Mas aí eu tou vendo que estão chegando perto demais. Uma amiga me alertou para o que escreveu outra amiga:

Sic “No meu sentir, o ministro J. Barbosa é um mentiroso, revoltado por ter nascido pobre e negro. Através desse julgamento tenta por todos os meios se afastar de suas origens. Ministro JB, o senhor não apagará suas origens, que tinha tudo para ser enaltecida, apenas acrescentará a ela um lado asqueroso e mesquinho.” Sic

Revoltado por ter nascido “pobre” e “negro” que quer se afastar de suas origens, leio. Qual da origens, me pergunto? Calando-se diante da corrupção estaria fugindo de suas origens pobres e de seus antepassados que comeram o pão que o diabo amassou para que ele chegasse ao posto que chegou-.  Ajoelhando-se agradecido diante dos poderosos estaria se “afastando” de sua origem e atualidade negra.

Negro revoltado, revoltado com o que? Com a impunidade? Com o tudo muda para continuar a mesma coisa? Ou sera que revoltado por saber que tanto faz que ele faça a coisa certa ou tanto faz que ele faça a coisa errada, ele será sempre xingado como um negro que não sabe se por em seu lugar?

Sentimentos, está aí uma coisa que eu respeito, mas devo respeitar o sentimento racista de uma amiga, que na falta de argumentos apela para a cor da pele para xingar a pessoa de opinião contrária? Me lembra um pouco quando criançanas horas em que eu perdia uma discussão para um grande amigo e não dava o braço a torcer,  dizendo que era opinião de maricas mesmo… ou quando já crescido ao ser vencido em um bate-boca com uma amiga, eu dizia que era coisa de mulher mesmo… Racismo, sexismo, classismo… andam sempre colados.

O Brasil está mudando  e está ficando mais transparente,  cada vez mais gente está se recusando a aceitar o jeitinho que os poderosos lhes oferecem, como uma dádiva e vendo que não passa de corrupção ativa em ato de ofício, o fato de exigirem subserviência até para emitirem uma certidão de nascimento cidadã.

Estamos aos poucos todos e todas tirando certidão de cidadania no Brasil. Esta “carteira” ainda vem com uma tarja  com a marca d´água do racismo, só se vê, se levantá-la contra a luz da consciência.

Muito bem fez o Lula em não procurar o relator Joaquim Barbosa, nem antes nem depois de iniciado o julgamento. Ele o escolheu por saber que o voto de milhões de negros e brancos do Brasil foram votos para que finalmente tivéssemos servidores públicos. Estes, quando cumprem seus papéis, realmente não tem cores.

Quem sabe se vivo fosse, Gregório Fortunato teria hoje, proteção para falar, graças a todos os que votaram e também não votaram nos Lulas.(  frase corrigida a pedido de leitores que pediu para acrescentar também os que votaram em outros candidatos ou candidata).

* Quando o Collor caiu, na falta de um preto para se colocar a culpa, nossa imprensa com sua imaginação ululante, descobriu a magia “NEGRA” na casa da Dinda, que teria deixado meio abilolado, o branquinho mais poderoso da época.

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3 pensamentos sobre “Joaquim Barbosa e o pecado de ser negro.

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