O quarto Zumbi. Historiadores da UNESP inventam sua própria história do negro brasileiro


Nas ciências sociais domina quem dá o significado aos fatos. A história e seu historiadores não foge a isto. Carlos Nobre nos envia um artigo que é um alerta. Fala do livro recém-lançado em São Paulo Zumbi “Três Vezes”. Fala que tres historiadores querem decepar mais uma vez a cabeça de Zumbi.

Sem apresentarem  fatos novos, sem fazerem novas pesquisas,pretendem desmistificar Zumbi, que cada vez mais ganha contornos de herói nacional, reembrulhado em um novo pacote com um Zumbi domesticado e imaginário como se nunca tivesse existido, só na imaginação, ora dos dominadores, ora na imaginação dos oprimidos.

Mas Zumbi é negro, e isto na opinão de Carlos Nobre, é o que incomoda. ” Neste sentido, acreditamos, começarão a surgir outro tipo de estudos: aqueles tal como fizeram os historiadores da Unesp tentando descaracterizar Zumbi como herói nacional, como símbolo dos oprimidos. A importância de Zumbi como herói nacional cresce a cada dia, mas sua cor é empecilho para tal status” ressalta o jornalista Nobre.

É no estado de São Paulo que mais se resiste às cotas nas universidade. Para o autor do artigo é justamente a derrota sofrida pelos conservadores e mantenedores das desigualdades raciais no Brasil nos STF na questão das cotas, que faz surgir na atualidade uma profusão de artigos e agora um livro estilo pão requentado, que procura destruir a existência real de Zumbi dos Palmares e sua importância na historiografia e identidade nacional brasileira. MR

ZUMBI VEZES TRÊS

por Carlos Nobre

Carlos Nobre

Fiquemos mais atentos: as críticas vão se intensificar. Isto porque avançamos sem que a nova inteligência neoliberal consiga impedir novas discussões para instalação de um novo modelo étnico-democrático para a sociedade brasileira. Um dos golpes mais sentidos por essa nova direita, sempre em cargos estratégicos, foi a aprovação das cotas raciais nas universidades públicas e a declaração de legalidade do Prouni ambas pelo Supremo Tribunal de Federal(STF) em menos de um mês.

Surge, agora, articulações mais sofisticadas contra os movimentos sociais negros. Trata-se do livro ” Três vezes Zumbi: a construção de um herói brasileiro”. Os autores – Jean Marcel Carvalho França e Ricardo Alexandre – são historiadores da Unesp ( Universidade do estado de São Paulo). Eles analisam o mito Zumbi no colonialismo, na era imperial e na república. Daí, então, o nome do livro, isto é, três vezes Zumbi.

Eles querem mostrar que Zumbi sempre foi manipulado ou negado ou minimizado pelos seus estudiosos conforme as conjunturas históricas de cada momento. Em suma, estes autores negam a importância de Zumbi como herói nacional, pois, em cada momento histórico, ele teria mudado de configuração. Ou seja, teria sido inventado ou sua importância maximizada.

Vejamos as teses deles:
1.No período colonial, Zumbi e Palmares aparecem nos escritos(viajantes,cronistas,militares, dirigentes etc) como foco de instabilidade para capitania de Pernambuco. Os escritos neste período são lacônicos e de passagem sobre Zumbi/Palmares. O pioneiro historiador Rocha Pita diz que Zumbi é um cargo e não homem, e que o último ocupante deste cargo teria cometido o suicídio. Essa versão da historiografia oficial perdurou até em 1946. Nesse ano, Edison Carneiro publicou o livro ” O quilombo de Palmares”, onde demoliu a versão de Rocha Pita, demonstrando documentalmente que Zumbi fora traído, tivera a cabeça cortada e exibida em Recife.

2.Nas décadas iniciais do século XX, Zumbi/Palmares, asseguram os historiadores, perdem importância, ganham contornos mais negativos e adquirem tons menos grandiosos nos escritos deste período. Palmares passa a simbolizar um “empecilho ao avanço da civilização europeia no Brasil, um cancro que os colonos tiveram de extirpar” (…), alegam os historiadores.

3. Nas ultimas décadas do século XX, Zumbi é tratado como um herói pioneiro da luta pela liberdade no Brasil, um líder das classes oprimidas da colônia, e também um herói afro que lutou pela liberdade e igualdade, ou seja, um herói daqueles que lutaram e lutam contra o caráter excludente da sociedade brasileira.
Então, ok, esta aí a importância do personagem na história, ele mesmo desenhado pelos próprios historiadores que desejam destruí-lo, pois, é motivo de várias visões controversas.

Quem foi Zumbi?

Na verdade, estes novos autores ( não negam suas origens neoliberais, apreciadores dos historiadores das classes dominantes/conservadoras tendo como exemplo nomes como Rocha Pita, Adolfo Vanhargem e outros) são idealistas: eles queriam encontrar Zumbi redondinho na historiografia brasileira, isto é, com uma biografia com início, meio e fim…ingenuidade ou idealismo?

Todos os heróis de uma dada sociedade são inconstantes e as referências a eles sempre contraditórias. Se assim o são, esta sociedade, em determinadas conjunturas, necessita de exemplos redondos de desempenho político, pois, ninguém pode representar esta tarefa sem que não aja danos nas suas relações sociais e políticas.

No entanto, sabemos que os grandes homens e grandes momentos não se apresentam como são idealizados. Isto é: de forma linear e em conjunturas que necessitam de modelos bem arrumadinhos. Pelo contrário. Muitos começam sua trajetória pelo meio. E antes de começar, muitas vezes são questionados, e mais frente, ganham consistência e dimensão impressionante, sem que haja motivos aparente para tal consagração histórica.

Este é o caso de Zumbi.

Na verdade, estes dois autores quiseram demolir o mito Zumbi fazendo uma releitura da historiografia já dada sobre ele. Impossível. O nome Zumbi tem hoje uma penetração impressionante: nome de cidades, bairros, hospitais, aeroportos, ruas, avenidas, universidades… sempre como símbolo de libertação.

A historiografia hoje em relação a Palmares se apresenta assim: quem está trazendo novos documentos a respeito de Zumbi/Palmares ? Nesse sentido, o livro “Três vezes Zumbi” não tem nada de novo e importante. Em outras palavras: os autores não estiveram em arquivos brasileiros e europeus para, com novos documentos, demonstrar a fragilidade de Zumbi/Palmares no período colonial brasileiro.

Para que pesquisar se a gente pode fazer uma releitura com que já foi pesquisado?
Então, a debilidade começa aÍ, em relação ao livro dos historiadores da Unesp: não dão nada de novo , ou seja, não exibem documentos novos, nem analisam o fenômeno apresentando as incongruências históricas, não analisam com vigor o processo escravista como grandes autores o fizeram( Flávio Gomes, Kátia Mattoso, Carlos Eugênio Líbano Soares, João José Reis, Maria Viotti da Costa….). Ao contrário, se socorre com o historiador Manolo Florentino (UFRJ), neoliberal e anticotista ferrenho, que, em prefácio, diz que o livro é “uma pequena joia”. Para ele, claro.
Como enfocar o mito Zumbi/Palmares sem se perder pelos caminhos? Tarefa muito difícil, convenhamos.

Um grande problema a enfrentar logo de cara: a marca Zumbi está valendo muito. Ou seja, a sociedade vem sendo engolida pelo fato de Zumbi ter se tornado um herói genuíno das massas de despossuídos ao contrário do heroísmo oficial cujas figuras representativas são bastante questionadas e não atraia atenção da população.

Em relação a Zumbi/Palmares, é bom que se frise que somente na capital e no interior do Rio de Janeiro ( não, em Alagoas, onde o mito nasceu), existem oito monumentos em homenagem a Zumbi. Desde 1986, na Praça Onze, no Rio de Janeiro, na base do monumento, em 20 de novembro ( Dia da Consciência Negra) são organizados atos e manifestações. Isso repercute no Brasil inteiro e deixam os intelectuais conservadores abaladíssimos. Existem aproximadamente mais 1.250 municípios que declararam o 20 de novembro (dia da morte de Zumbi) como feriado em homenagem ao Dia da Consciência Negra. Há dois anos, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva quis transformar o 20 de novembro em feriado nacional. Historiadores de universidades estrangeiras não entendem porque não existem no Brasil pesquisas aprofundadas a respeito Palmares devido à sua importância para os estudos de escravidão colonial nas Américas

Neste sentido, acreditamos, começarão a surgir outro tipo de estudos: aqueles tal como fizeram os historiadores da Unesp tentando descaracterizar Zumbi como herói nacional, como símbolo dos oprimidos. A importância de Zumbi como herói nacional cresce a cada dia, mas sua cor é empecilho para tal status.

O que é difícil para a nova historiografia de revisão ressentida é negar a proeminência deste mito na história brasileira: os documentos coloniais portugueses dos séculos XVII e XVII citam, ele, Zumbi, pedem que negocie e, que seja complacente com os portugueses. Tratam-no como um grande dignitário e não como um fugitivo da escravidão.

Assim, ninguém pode negar que ele nunca existiu. Mas, dependendo das épocas, aparece com rostos multifacetados. Ora é um fugitivo da escravidão, ora um líder radical, ora general poderoso, ora líder pressionado pela ação militar portuguesa.
E nunca apareceu até agora nos documentos portugueses como um conciliador, bandido, ladrão, místico ou farsante. Sempre como um inimigo poderoso a quem os colonialistas inúmeras vezes tentaram atrair com promessas de liberdade que sempre eram rechaçadas.

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