“A falta de negros na mídia o deixou inquieto”. A sociedade brasileira segundo Spike Lee


SÃO PAULO – Após uma semana inteira de viagens, filmagens e entrevistas com personalidades brasileiras para o documentário “Go Brazil go”, o cineasta americano Spike Lee, de 55 anos, se disse surpreso com a primeira de suas constatações: a ausência de negros na mídia brasileira. Para o diretor, que planeja o lançamento do filme para antes da Copa do Mundo de 2014, os Estados Unidos estão 20 anos à frente do Brasil quando o assunto é acabar com o racismo.

– Meus ancestrais foram libertados em 1865 e, no Brasil, a escravidão foi abolida em 1888. É uma diferença pequena, mas se compararmos a evolução de afroamericanos e de afrobrasileiros, estamos 20 anos à frente – disse Lee, em entrevista coletiva realizada ontem em São Paulo.

O cineasta esquivou-se das tentativas de definir seu novo filme, mas deixou claro que o racismo terá destaque, apesar de não ser o único mote do projeto, que conta com a consultoria do escritor Fernando Morais.

– Entre 50% e 60% da população brasileira é negra. Fiquei surpreso ao saber – disse Lee, que esteve no país pela última vez em 1995, quando dirigiu o clipe de “They don’t care about us”, de Michael Jackson, no Morro Dona Marta, no Rio, e no Pelourinho, em Salvador.

– Na primeira vez em que estive aqui, em 1987, fiquei chocado ao ver que na TV, em revistas, não havia negros. Melhorou um pouco. Mas há muito a fazer. Quem nunca veio ao Brasil e vê a TV brasileira via satélite vai pensar que todos os brasileiros são louros de olhos azuis – disse.

O cineasta chegou ao Brasil na segunda-feira passada e voltou para os EUA ontem. Esteve no Rio, em Brasília e em São Paulo, entrevistando cerca de 30 pessoas. Após visitar o AfroReggae na sexta-feira, Spike Lee participou de um almoço com os atores Lázaro Ramos e Wagner Moura no sábado à tarde.

– Ele parecia mais interessado em investigar, conhecer e descobrir o Brasil e as pessoas do que fazer objetivamente um filme sobre algo – contou Ramos.

No mesmo dia, Lee visitou o Centro Afro Carioca de Cinema, na Lapa, onde entrevistou seu fundador, Zózimo Bulbul, e se encontrou com artistas negros.

– A falta de negros na mídia o deixou inquieto, então ele queria saber sobre o lugar do negro na sociedade e sobre a posição do Centro no cinema negro do Brasil – disse Bulbul.

Políticos como o ex-jogador de futebol e agora deputado Romário, músicos como Caetano Veloso e Gilberto Gil, além de artistas plásticos como osgemeos também foram entrevistados.

– Um documentário é tão bom quanto as pessoas que você entrevista – disse Lee. – Sem as pessoas certas, não há nada a ser feito, não importa o quão bom cineasta você seja. A seleção de entrevistados é um recorte amplo da sociedade brasileira. Ainda não entrevistei Lula e Dilma Rousseff, mas espero entrevistá-los quando voltar.

O diretor recebeu como um bom sinal o fato de ter chegado em Brasília na última quarta-feira, quando o Supremo Tribunal Federal iniciava o julgamento sobre a constitucionalidade das cotas raciais nas universidades. Com uma câmera na mão, misturou-se às pessoas que protestavam contra e a favor, e no dia seguinte entrevistar o ministro Joaquim Barbosa.

– Acredito em destino. Poucas coisas na vida são coincidência – disse, comemorando a decisão favorável à política de cotas. – Eu digo, não vamos parar por aí. Vamos levar isso à mídia, ao mercado de trabalho. Há em todo o mundo uma má interpretação do sistema de cotas. Alguns acreditam que elas serão ocupadas por gente sem qualificação. Não é nada disso. Pessoas qualificadas serão selecionadas para ir à universidade. Sem ações afirmativas os Estados Unidos não teriam avançado tanto na questão racial.

Nova visita em julho

Lee brincou que o filme não foi encomendado pelo Congresso, portanto, não pretende esconder as mazelas brasileiras ou louvar as qualidades do país.

– Será um filme balanceado. Mas observo que as pessoas são muito otimistas com o futuro no Brasil. Querem que o crescimento econômico traga ascensão social e que a distância entre pobres e ricos, que ainda é horrível nos EUA, diminua aqui.

Anteontem Lee retornou ao Morro Dona Marta, onde posou ao lado da estátua de Michael Jackson. Sua próxima viagem ao Brasil será em julho, e ele planeja incluir depoimentos de anônimos.

– Quando as pessoas virem o filme, terão uma compreensão tão boa quanto possível – disse. – Terei muito trabalho, porque não sei como mostrar um país, este país, neste momento particular de sua história, em apenas duas horas.

* Colaborou Luiz Felipe Reis

Fonte -Yahoo-Ag.Globo

7 pensamentos sobre ““A falta de negros na mídia o deixou inquieto”. A sociedade brasileira segundo Spike Lee

  1. Ele tem toda razão dizendo que não pode saber como mostrar este país em 2 horas… E Rio, São Paulo e Brasilia, não chegam de jeito nenhum !!! Desde aquela pontinha la’ do Amapa até o arrôio Chuí tem milhões de encontros entre gente diferente… várias inteligências e vários racismos . Não é não ? Mas ele é bom.
    Vamos ver. Talvez ele tenha visto aquele “passeio” por diferentes “interiores” das regiões leste que o Moreira Salles fez entre São Paulo e Ceará (com Fernanda Montenegro, você lembra ?)… E o resto do Brasil tem ainda mais outras questões do mesmo gênero.
    Que as lutas necessárias continuem…

  2. Foi preciso que alguém de renome internacional fale isso pra ter repercussão? é tão notório o embranquecimento não só de raças mas de cultura dentro da mídia, isso não é de agora, negro só tem vez como atleta ou como cantor, tirando isso , esqueça, eles não querem sua cor como destaque

  3. Muito importante as colocações de Spike Lee sobre o Brasil, e que esperamos estejam refletidas em seu documentário. E mais importante ainda é que nós negros temos que tomar consciência daquilo que a nos pertence, para que não precisemos ser tutelados por ninguem ao termos que fazer a coisa certa, nem mesmo o nosso querido Spike Lee.
    É revoltante ter que vir um negro da america do norte para realizar aquilo que nos caberia fazer, me preocupa a nossa subserviência colonial, mas revolta a qualidade do racísmo brasileiro que nos cercea da nossa própria história, mas não consegue omiti-la, mesmo da forma mais jéca possível, diante do mesmo colonialismo cultural, que submete grande parte dos nossos negros caseiros, ou seja, aqueles que vivem sentados no colo desta mídia excludente, e interpretando os escolhidos, enquanto fidedignamente fazem papel de bons bonecos de ventrílo de uma democracia racial fraudulenta, excludente e violenta.
    HAROLDO OLIVEIRA.

  4. Não é só na mídia que os negros não estão presentes, também são minoria nas universidades, no mercado de trabalho melhor remunerado, no Congresso e a responsabilidade é nossa que votamos errado !

  5. Pingback: Preconceito racial e racismo institucional no Brasil: algumas reflexões | Pautas da Juventude

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