Tirando a corda do pescoço. 20 de Novembro dia Nacional da Consciência Negra.


Voltando de um atendimento pelos direitos Humanos em Hamburgo. Deu certo!

por marcos romão

Eu trabalhava na época na Fundação leão XIII no Rio de Janeiro. Supervisionava como sociólogo, projetos sociais nas favelas e conjuntos habitacionais no RJ. Assistia no dia a dia, como outros funcionários, como eram tratados os jovens pobres e negros pela polícia militar.
Um exemplo que me ficou na memória aconteceu no Conjunto Habitacional Cesarão:

Prenderam 20 muleques que jogavam bola e os levaram caminhando por  5 quilômetros até quartel em Campo Grande.

Algemados e com as mãos atreladas aos estribos dos soldados a cavalo, com as mãos imprensadas entre as botas dos soldados e o os estribos de ferro, os dedos eram esmagados lentamente ao trote dos cavalos com e sem fardas.
Estas e outras barbaridades eu assistia e quando reclamava, diziam que eu acobertava bandidos, e que tomasse cuidado pois não só poderia perder o emprego como a própria vida.

Eram os fatos que ninguém, nem políticos da oposição sabiam que acontecia no outro lado do túnel. Era o terror do estado ditatorial, a formar cordeiros humildes ou futuros vingadores que se tornariam bandidos. Eram garotos que eu conhecia.

Desses garotos, um eu encontrei 20 anos depois ao visitar uma cadeia. Aprendera a atirar com a mão esquerda, virara fera com a mão que sobrou da tortura pública e continuada.

Esta reportagem sobre 17 homens negros amarrados pelo pescoço no morro dos Macacos em 1982, foi uma “coincidência” que eu esperava acontecer a anos .

Vídeo Realizado por Vik e Ras Adauto da Ngubarijo produções

Maria Sampaio Dantas, assistente social que trabalhava comigo, voltava da Cidade de Deus de carona numa “Brasília” do Jornal do Brasil.
Ao passarem pela beira da estrada de Jacarepguá, no alto da montanha, o motorista chamou a atenção do repórter para aquela cena dantesca. 17 homens amarrados um ao outro pelo pescoço, esperavam o “Coração de Mãe” que os levassem para averiguação.

O repórter comentou que nos EUA fotografar esta barbaridade lhe daria o prêmio “pullitzer”. “Mas não dá nem para parar. É arriscado”, repetiu.

Malu a minha amiga assistente social, disse: “Não tem problema, para aí e deixa comigo”.

A Brasília parou, ela desceu com aquele seu jeito louro, e cumprimentou o cabo o chamando de doutor sargento. Perguntou se ele não gostaria de tirar uma fotos juntos com esses “bandidos” para o JB. Ele e os outros soldados aquiesceram, e trataram de posar bonito, pois quem sabe, imaginavam, ganhariam uma promoção!

Malu chegou esbaforida, no escritório central da Leão XIII, lá na Senador Dantas : “Romão, Romão, vamos lá fora, preciso lhe contar uma coisa, vamos tomar um chope no Amarelinho”. Os outro funcionários nem desconfiavam, e ela era uma da poucas que sabiam que eu era do movimento negro.

Me contou e saí de lá, e conversei com Marcelo Cerqueira que era meu vizinho em Santa Teresa. Eu queria o telefone do editor do JB, queria saber se a foto ia sair, falei também com Modesto da Silveira, mandei recado por um padre, até para o conservador Arcebispo Eugênio Sales. Consegui achar o Caó em campanha para deputado federal no Amarelinho. Ficamos empetelhando o pessoal do JB, eles queriam publicar na parte policial, sem alarde.

O governo era de oposição à ditadura, MDB, mas com a mácula Chaguista.

Os grande acordos estavam sendo tratados, pois a vitória era certa do candidato do Chagas Freitas Miro Teixeira, ou do Gato Angorá Moreira Franco. Ninguém queria arriscar o emprego ou a eleição. Mas creio que o Zuenir tava na área e soube depois, que ele teve uma reunião acalorada e decidiram botar a foto dos negros com a corda amarrada no pescoço, na primeira página ao lado de uma reprodução de Rugendas do tempo da escravidão. que não tinha tirar nem por.

Corri para minha organização, o IPCN, onde estava organizando o Sos Racismo e Discriminação Racial, com Christina Ramos.

Falei para diretoria o que estava acontecendo. Resolveram marcar uma reunião para o dia seguinte, me irritei e falei que estaria nas escadarias da “Gaiola da Loucas ” às 6 da manhã!

Com o jornal na mão e uma corda amarrada no pescoço, junto com meia dúzia de militantes negros, como Maria Alice, ficamos rodando e conversando com as pessoas com as fotos nas mãos.

11 horas da manhã, já tinha uma multidão indignada em frente às escadarias da Cinelândia. Políticos começaram a chegar e, até as turmas do MDB e do PDT que saiam no pau todo dia se juntou. Apareceu um megafone, foi uma boa pois já tava rouco..
Minhas lideranças que também acabavam de chegar propuseram, que saissímos em caminhada para a OAB, do outro lado da Praça. Já estava cercada.

Num arroubo propus que fossemos direto para a sede da polícia na famosa rua da Delação, desculpem rua da Relação, sede do comando militar do Leste e da Secretaria de Segurança, pois era um general do exército quem comandava a PM na época, PM era só figurinha para baixar pancada.

Em lá chegando, a frente do quartel general estava vazia, como eu esperava. Os carros choques que estavam em frente à OAB, não foram tão rápidos para chegarem até lá, como nós que estávamos a pé.

Invadimos o prédio e chegamos ao Comando Central, miolo da repressão durante 21 anos de ditadura no Rio de Janeiro.

O general Cerqueira, do exército, não apareceu para falar com a comissão atrevida. Mandaram o então chefe do comando maior, o negro coronel da Escola do Comando maior, que era seu xará, também um Cerqueira. Só que Carlos Magno Nazareth Cerqueira
Deu o maior “branco” no salão, aquele monte de negros revoltados dando de cara com um coronel negro da PM, que ninguém tinha antes sabido que existia. Foi um choque.

Meses depois de eu ter lhe chamado de álibi de pele preta, começamos uma amizade só encerrada com o seu assassinato  em 2001, por vingança por sua ação posterior à ditadura em prol dos direitos humanos e reforma da polícia militar, mas isto são outras estórias, vou dormir emocionado, nesta véspera do dia Consciência Negra, no 20 de novembro de 2010.

Já está na hora de eu voltar ao Brasil. Já está na hora de começarmos tudo de novo. Tem muita gente com a corda amarrada no pescoço. E como na época de outrora, no momento nossas lideranças no país estão cuidando de outros assuntos mais “importantes”, tais como quem vai ganhar eleições. O terror que o pequeno sofre não interessa a ninguém.

Zumbi tá puxando as orelhas de muita gente!

Axé, pará nossa garotada bonita, que apesar dos baculejos policiais, estão a transformar o Brasil. Pois não tenho até hoje nenhum prazer em falar destas coisas ruins. Preferiria que violência parasse de acontecer.

João Marcos Aurore Romão, do auto-exílio semi-empurrado em Hamburgo Alemanha.
Texto para ser lido de baixo pará cima!

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